Ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina escolar brasileira: pesquisas recentes indicam uso massivo por alunos, enquanto a orientação oferecida pela escola segue limitada.
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Levantamentos do Cetic.br e da Fundação Itaú apontam que a grande maioria dos estudantes brasileiros do ensino fundamental e médio já recorreu à IA generativa para pesquisar, tirar dúvidas ou resolver tarefas escolares. Ao mesmo tempo, só uma parcela minoritária recebeu na escola algum tipo de orientação estruturada sobre o uso dessas ferramentas, enquanto a formação de professores em tecnologia digital vem em trajetória de queda.
O que as pesquisas dizem sobre o uso de IA por alunos?
Dois estudos nacionais ajudam a desenhar esse cenário com números. A pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, mostra que 37% dos estudantes do fundamental e médio que usam internet já utilizam IA generativa em atividades escolares. O recorte por etapa evidencia onde o uso disparou: 15% dos alunos dos anos iniciais do fundamental recorrem a esse tipo de ferramenta, 39% nos anos finais e 70% no ensino médio. Em outras palavras, sete em cada dez estudantes conectados do ensino médio colocam ChatGPT, Copilot, Gemini e recursos semelhantes no meio da lição de casa, seja para montar um texto, revisar conteúdo ou checar respostas.
Outro estudo, da Fundação Itaú, amplia o alcance da IA no cotidiano dos estudantes. Segundo o levantamento, 84% dos alunos dizem já ter utilizado alguma ferramenta de IA, como ChatGPT, Gemini, MidJourney ou DALL-E. Dentro desse grupo, 80% relatam usar IA para resolver atividades escolares e 90% usam para pesquisar, buscar informações ou tirar dúvidas sobre conteúdos de aula. Mais da metade (56%) afirma que a IA ajuda muito nos estudos, e 56% também enxergam a tecnologia como fonte de inspiração para criar coisas novas, de textos a imagens. O relato dos estudantes indica que o uso já está consolidado como ferramenta diária de pesquisa e execução de tarefas, não mais como teste pontual movido por curiosidade.
Alunos sabem dos riscos? E como as escolas estão reagindo?
Os mesmos levantamentos indicam que os estudantes não tratam a IA como um recurso neutro ou “brincadeira” sem consequência. Na pesquisa da Fundação Itaú, 54% dos alunos afirmam que a IA pode representar grande perigo se usada sem regras ou leis, e 75% acreditam que ela pode ser usada para criar fake news. Há reconhecimento de que a tecnologia envolve risco e exige limite, mas isso não significa que todos os alunos tenham, no dia a dia, critérios consolidados para avaliar o que recebem dessas ferramentas.

Enquanto isso, a escola corre atrás. A TIC Educação mostra que apenas 32% dos estudantes receberam algum tipo de orientação na escola sobre uso seguro e responsável de IA generativa. Considerando todos os alunos usuários de internet do fundamental e médio, só 19% dizem ter sido instruídos por professores sobre como empregar a tecnologia em atividades de aprendizagem. A lacuna aparece também na gestão escolar: diretores e coordenadores relatam que regras sobre o uso de IA por alunos e professores são tema de reuniões com docentes, pais e responsáveis, mas surgem de forma dispersa, em geral misturadas ao debate sobre celular em sala de aula e disciplina no uso de dispositivos pessoais.
Na prática, a combinação é conhecida: estudantes adotam as ferramentas no ritmo das plataformas, enquanto a mediação pedagógica avança aos poucos, sem diretrizes comuns entre redes e escolas.
Professores usam IA, mas faltam formação e currículo atualizado?
Do lado do corpo docente, a IA também já entrou no repertório profissional dos educadores. O estudo da Fundação Itaú revela que 79% dos professores já utilizaram ferramentas de IA em algum contexto educacional. Entre esses docentes, 73% afirmam usar IA como apoio em atividades conduzidas em sala de aula, seja para sugerir exemplos, adaptar exercícios ou esclarecer conceitos, e 76% dizem recorrer a essas ferramentas para criar materiais pedagógicos, como listas de atividades, resumos de conteúdo e roteiros de aula.

O mesmo levantamento mostra, porém, que 48% dos professores não usam IA para desenhar planos de aula, o que indica adoção mais forte como suporte pontual do que na organização mais ampla do planejamento pedagógico. A TIC Educação reforça essa leitura ao olhar para a formação continuada: 54% dos professores participaram, nos 12 meses anteriores à pesquisa, de algum tipo de desenvolvimento profissional voltado ao uso de tecnologias digitais em ensino e aprendizagem.
O recorte por rede traz o dado mais problemático: nas escolas municipais, essa taxa caiu de 62% em 2021 para 43% em 2024. A curva desce justamente no segmento em que políticas de formação teriam peso maior para reduzir desigualdades entre redes. Em paralelo, a pesquisa da Fundação Itaú aponta alinhamento forte entre educadores e gestores em relação ao currículo: 84% dos professores e 90% dos gestores defendem que os estudantes desenvolvam habilidades para interagir com IA de forma crítica, e a maioria concorda que cursos de formação inicial de docentes incluam módulos específicos sobre IA na educação, integrados aos conteúdos de didática e metodologias de ensino.
Conectividade ajuda ou atrapalha essa corrida da IA nas escolas?
Os dados do Cetic.br indicam que o gargalo principal não está mais na ausência de conexão. Em 2024, 96% das escolas brasileiras tinham acesso à internet, com crescimento acentuado nas instituições municipais (de 71% para 94% entre 2020 e 2024) e nas áreas rurais (de 52% para 89% no mesmo período). Em 88% das escolas conectadas, a internet chega à sala de aula, o que abre espaço para projetos que envolvem pesquisa online, uso de plataformas educacionais e, quando permitido, experimentação com IA generativa.
O ponto sensível aparece na infraestrutura de hardware e na forma como os recursos são inseridos nas atividades pedagógicas. Entre as escolas municipais de educação básica, 75% contam com pelo menos um espaço com internet para uso dos alunos, mas só 51% dispõem de computadores para atividades educacionais e 47% têm dispositivos conectados acessíveis aos estudantes. Nas escolas rurais, a proporção de instituições com pelo menos um computador para uso discente recuou de 46% em 2022 para 33% em 2024, movimento que contrasta com a expansão da conectividade.
Mesmo com essas limitações, 67% dos alunos da rede estadual usam internet para tarefas da escola, contra apenas 27% na rede municipal, o que evidencia diferenças marcantes nas condições de uso entre sistemas de ensino. No mesmo período, o uso de celular pessoal para acessar a internet na escola caiu de 55% em 2022 para 45% em 2024, em sintonia com normas que restringem dispositivos móveis em sala de aula e em outros espaços escolares. Enquanto isso, as ferramentas de IA seguem acessíveis em qualquer smartphone com conexão, o que mantém o tema no centro das discussões entre gestores, professores e famílias sobre que tipo de tecnologia cabe — e como — dentro da escola.




