Bill Gates afirmou, em entrevista à Reuters divulgada nesta terça-feira (16), que os governos do mundo inteiro estão "muito atrás" na preparação para os efeitos da inteligência artificial — e propôs uma saída digna de ficção científica: Estados Unidos, China e demais potências se unirem como fariam diante de uma inteligência alienígena. O cofundador da Microsoft disse manter conversas com líderes, entre eles o presidente Donald Trump, e pretende se reunir com o presidente chinês Xi Jinping ainda neste ano. Trump, por sua vez, tem tratado os alertas de segurança sobre a tecnologia como exagero.

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Neste artigo
  1. Empregos reservados a humanos e imposto sobre tokens
  2. Por que a comparação com alienígenas
  3. US$ 1 bilhão da Fundação Gates para saúde, agricultura e educação

A fala consolida a mudança de tom que Gates começou em agosto, quando publicou um ensaio de 6 mil palavras intitulado "A era turbulenta da IA chegou". Ali escreveu que a tecnologia será "o maior equalizador já inventado ou a pior fonte de injustiça" e que "não há plano" para amortecer a entrada nessa era. Segundo a CNBC, o texto defende órgãos coordenadores nacionais e uma nova instituição internacional para acompanhar os riscos — e admite que, se alguém tivesse um plano crível para frear o avanço da IA globalmente, ele provavelmente apoiaria, embora não acredite que isso vá acontecer, porque "os incentivos geopolíticos e econômicos empurram forte demais".

Empregos reservados a humanos e imposto sobre tokens

As preocupações citadas por Gates são três: o deslocamento de milhões de trabalhadores, o aumento do risco de ciberataques e os efeitos psicológicos do uso excessivo de companheiros de IA. Para o mercado de trabalho, ele sugere que os governos definam categorias de empregos reservadas a humanos e criem impostos sobre o consumo de tokens de IA e sobre a automação por robôs, com a arrecadação financiando a transição de quem perder a vaga. No ensaio, ele exemplifica com "o contador substituído por um bot ou o trabalhador de US$ 20 a hora que perde o emprego para um robô de US$ 10", e lista vendas, atendimento ao cliente, engenharia de software e trabalho paralegal entre as primeiras áreas atingidas.

Gates não está sozinho. O CEO da Microsoft AI estima que a tecnologia pode substituir quase todas as funções administrativas de nível profissional em cerca de 18 meses, e o senador americano Bernie Sanders defende um fundo soberano de IA, com participação pública nas empresas do setor e punição a desenvolvedores que descumprirem protocolos de segurança. A diferença de Gates é a ênfase na coordenação entre países: para ele, a velocidade de adoção da IA tende a superar a capacidade dos governos de fazer regras.

Por que a comparação com alienígenas

A imagem escolhida por Gates não é retórica vazia: ela descreve o tipo de resposta que ele considera proporcional. Nos filmes de ficção científica, rivais deixam disputas de lado porque a ameaça é comum e não respeita fronteiras — e é assim que ele enxerga modelos de IA capazes de operar em qualquer país, treinados por poucas empresas e adotados por concorrência de mercado antes de qualquer regra. A dificuldade é que a corrida entre Washington e Pequim pela liderança em IA é hoje um dos eixos da disputa econômica entre os dois países, o que torna um pacto do gênero improvável no curto prazo — o próprio Gates reconhece que a pressão para "ir a toda velocidade" é grande demais.

US$ 1 bilhão da Fundação Gates para saúde, agricultura e educação

O alerta não é rejeição à tecnologia. Na mesma entrevista, Gates disse ser "difícil exagerar" o potencial da IA na saúde, sobretudo em regiões com falta de profissionais, e a Fundação Gates anunciou pelo menos US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões) nos próximos dois anos para ampliar o acesso à tecnologia em países pobres. O plano inclui apoio a agentes de saúde na linha de frente, aceleração da descoberta de remédios e vacinas para doenças negligenciadas, modelos de linguagem que funcionem em vários idiomas e projetos de produtividade agrícola e de educação em países em desenvolvimento.

Em entrevista à CNN no fim de agosto, Gates resumiu o que o incomoda: os modelos ficaram mais poderosos num ritmo mais rápido do que ele esperava, já carregam risco de ciberataque, bioterrorismo e dano psicossocial, e "os critérios exatos com que revisamos esses modelos e as ações para minimizar os danos estão completamente ausentes". A proposta do pacto entre potências é a tentativa de criar esses critérios antes que, nas palavras dele, os modelos comecem a agir contra os interesses humanos.