Bill Gates defende que governos criem leis específicas para regular empresas de inteligência artificial e afirma que a autorregulação das big techs “não é suficiente”.

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Neste artigo
  1. Gates fala em risco de “bilhão de mortes” e cobra leis
  2. De ensaio de 6 mil palavras a pedido por órgão global
  3. Big techs divididas sobre freio e fiscalização
  4. Pressão por regras chega a governos, mas consenso está longe

O cofundador da Microsoft quer que autoridades policiais, reguladores e políticos estabeleçam salvaguardas obrigatórias para o desenvolvimento de IA, com monitoramento formal das empresas. A cobrança foi feita em entrevista à NBC e reforça textos recentes em que Gates delineia limites ao avanço da tecnologia.

Gates fala em risco de “bilhão de mortes” e cobra leis

Na conversa com a emissora norte-americana, Gates disse que as companhias do setor não podem ser as únicas responsáveis por definir como a IA é testada e controlada. “Ninguém acha que a autorregulação é suficiente”, afirmou o executivo, ao defender que salvaguardas e monitoramento entrem na legislação, em vez de ficarem restritos a boas práticas voluntárias.

Em prévias da mesma entrevista, Gates elevou o tom ao dizer que a combinação de IA avançada com pessoas mal-intencionadas é “poderosa o bastante para causar um bilhão de mortes”. Segundo ele, nunca existiu uma “arma” tão forte quanto gente com más intenções usando os modelos mais recentes de IA generativa.

Close no rosto de Bill Gates sorrindo
Bill Gates durante entrevista recente em que tratou de riscos da inteligência artificial (Imagem: reprodução/theguardian.com)

Mesmo assim, Gates contesta o argumento de que uma regulação séria travaria o setor. Ele admite que as regras criariam uma “sobrecarga” para a indústria, mas avalia que isso não significaria uma desaceleração dramática no ritmo de desenvolvimento dos sistemas.

De ensaio de 6 mil palavras a pedido por órgão global

A entrevista segue a mesma linha de outras manifestações recentes. Em agosto, Gates publicou um ensaio de cerca de 6 mil palavras argumentando que “a era turbulenta da IA” já começou e que as escolhas feitas agora definem se a tecnologia vira o maior equalizador da história ou a pior fonte de injustiça.

Bill Gates em palco de conferência, com telão ao fundo
Em ensaio longo, Gates afirmou que a era da IA será uma das mais turbulentas da história (Imagem: reprodução/cnn.com)

No texto, ele lista riscos que vão de desemprego em massa a bioterrorismo e perda de controle sobre modelos cada vez mais autônomos. Gates também propõe medidas econômicas, como tributar IA e robôs de forma semelhante a impostos sobre folha de pagamento, para frear a substituição acelerada de trabalho humano.

Outra frente que o bilionário já colocou na mesa é a criação de uma organização internacional dedicada à IA. A ideia é estruturar um organismo com mandato global para avaliar modelos avançados, definir padrões mínimos de segurança e coordenar respostas quando algo der errado. Segundo Gates, nenhuma empresa ou governo sozinho entende o suficiente da tecnologia e de seus impactos sociais para dar conta desse trabalho isoladamente.

Big techs divididas sobre freio e fiscalização

O discurso de Gates se soma a um grupo de nomes do setor que passou a defender freios mais duros. CEOs de Anthropic, OpenAI, Google DeepMind, Microsoft e xAI já se declararam a favor de reduzir o ritmo no desenvolvimento de modelos de fronteira, com mais testes e supervisão externa antes de lançamentos.

Do outro lado, executivos como Mark Zuckerberg rejeitam coordenação setorial e intervenção pesada do Estado, apostando em incentivos de mercado e medo de processos como principais forças de disciplina. Zuckerberg, por exemplo, argumenta que concorrência e risco jurídico já empurram empresas a lançar sistemas “seguros o suficiente”.

O ponto em disputa é justamente quem define esse “suficiente”. Para Gates, áreas como segurança cibernética, riscos biológicos, impacto no mercado de trabalho e desenvolvimento infantil exigem decisões políticas, não apenas técnica de laboratório. Ele afirma que as próprias big techs minimizam riscos para proteger seus negócios e não conseguem sozinhas avaliar todos os efeitos sociais da IA.

Pressão por regras chega a governos, mas consenso está longe

O Brasil ainda discute seu marco regulatório de IA no Congresso, enquanto Estados Unidos, União Europeia e China avançam em abordagens diferentes para limitar modelos de alto risco. No meio desse emaranhado, Gates vem repetindo que os governos também não estão preparados: falta conhecimento técnico e plano concreto para atravessar a transição econômica e social que ele classifica como “uma das mais turbulentas da história”.

Na prática, o bilionário tenta empurrar o debate para dois eixos: leis nacionais com salvaguardas mínimas obrigatórias e algum tipo de coordenação global, ainda sem formato claro. O consenso político sobre o quanto essas regras devem ser duras — e quem paga a conta de cumpri-las — segue aberto, enquanto empresas correm para lançar novos modelos a cada poucos meses.