ChatGPT agora recusa pedidos explícitos para escrever num estilo idêntico ao de autores famosos e passa a entregar só textos com um “clima parecido”, o que cria um colchão jurídico a mais para a OpenAI.

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Neste artigo
  1. De imitação direta a “sensação parecida”
  2. Pressão de processos e brecha legal da “voz”
  3. Treino continua a caixa‑preta; limite é só na saída

O novo comportamento aparece em testes recentes com o chatbot. Ao pedir uma introdução de história “no estilo de Stephen King”, o modelo informou que não pode escrever no estilo exato do autor nem “imitar de perto” a voz dele. Em vez disso, afirma que vai criar um texto original e usa elementos de horror atmosférico, foco em personagens e aquele cenário de cidade pequena associado ao escritor.

Em outros testes, o bot repetiu o mesmo padrão para nomes vivos como J.K. Rowling e Amy Tan, e também para clássicos já mortos como Charles Dickens e Ernest Hemingway. A resposta segue um roteiro: recusa a cópia direta da “voz” do autor e, na sequência, oferece um texto próprio, ancorado em qualidades gerais atribuídas à obra daquele escritor.

De imitação direta a “sensação parecida”

A mudança não veio empacotada em comunicado oficial da OpenAI. Segundo análise citada no dossiê e publicada pela No Latency em julho de 2026, o comportamento anterior era outro: o ChatGPT já se recusava a imitar autores vivos, mas ainda aceitava prompts pedindo para copiar o estilo de autores mortos, inclusive nomes canônicos da literatura.

Nesse levantamento, o chatbot apresentou o seguinte comportamento:

• Recusou os dois pedidos de imitação direta de autores vivos testados, desviando para traços gerais de escrita ou oferecendo alternativas originais.
• Aceitou os dois pedidos envolvendo autores mortos, um falecido há muitas décadas e outro com morte mais recente.
• Respondeu normalmente a prompts sobre gêneros amplos (por exemplo, “romance policial noir”) e análises de estilo, desde que o usuário não pedisse imitação direta de uma voz específica.

Havia, portanto, uma fronteira visível entre “escrever como autor vivo” e “escrever como autor morto”. No comportamento mais recente descrito no dossiê, essa linha desaparece: o modelo passou a negar a cópia direta mesmo quando o alvo é um autor já falecido e insiste em entregar só um “tom parecido”, com ênfase na própria voz do sistema.

Do ponto de vista de produto, trata-se de um remendo de sistema clássico: em vez de alterar o que o modelo sabe por causa dos dados de treino, a OpenAI altera o jeito como ele responde. O texto que sai ainda carrega marcas claras do autor estudado — referências de cenário, ritmo de frase, construção de personagem — mas agora vem sempre precedido por uma mensagem padrão dizendo que aquilo não é imitação exata.

A mudança ocorre enquanto a OpenAI enfrenta processos movidos por autores que acusam a empresa de usar obras protegidas por copyright para treinar modelos sem autorização ou pagamento. Um desses processos destaca exatamente a “habilidade assustadora” do ChatGPT de gerar textos que lembram livros ainda protegidos por direito autoral, com passagens que soam muito próximas do original.

No direito autoral dos EUA, a regra central estabelece que o que recebe proteção é a expressão específica de uma obra, não a ideia genérica de um estilo. O “estilo” em si não entra no escopo do copyright. O problema surge quando um texto gerado por IA se aproxima demais: se ele ficar “substancialmente similar” ao original, a discussão deixa de ser teórica e passa a interessar advogado e juiz. É nessa linha tênue que o ChatGPT agora tenta operar.

Um professor da George Washington University Law School, citado no dossiê, resume o desconforto: nunca foi tão barato e simples imitar de perto o estilo pessoal de um criador quanto se tornou com a IA generativa. A discussão não fica restrita ao jurídico; encosta em reputação, em construção de marca de autor e em confusão de mercado quando um texto “meio King” ou “meio Rowling” circula sem aviso, sem crédito e sem contexto.

No relatório da No Latency, o recorte entre autores vivos e mortos ganha esse contorno prático: autores vivos ainda têm carreira em andamento, contratos ativos e público em tempo real; uma enxurrada de imitações baratas com a mesma voz ameaça diluir a identidade criativa, embaralhar leitores e até puxar vendas para baixo. Mesmo onde o copyright não alcança o “jeito de escrever”, o impacto comercial aparece de forma concreta.

Treino continua a caixa‑preta; limite é só na saída

Colocar trava na resposta não elimina a pergunta central: com que dados esses modelos foram treinados. O próprio dossiê lembra que sistemas como GPT, Claude e outros trabalham em cima de bases massivas, e detentores de direitos alegam que esse caldeirão inclui livros, artigos e obras protegidas, com forte presença de autores ainda em atividade.

Editoras, autores e veículos de imprensa já levaram essa disputa para o Judiciário, discutindo se treinar IA com texto protegido entra na categoria de “fair use”, em apropriação industrial em escala ou em uma terceira via que a Justiça ainda não definiu com clareza. A OpenAI e empresas do mesmo setor sustentam que treinar em grandes volumes de texto se encaixa no guarda-chuva do uso justo; detentores de direitos afirmam que se trata de uso sem licença e sem remuneração.

Ferramentas como o GPTBot, citadas no dossiê, permitem hoje que donos de sites bloqueiem o uso de seu conteúdo em futuras versões de modelos da OpenAI. Licenças pagas surgem como outro caminho para trazer parte desse material para dentro do “mercado de IA”, com contrato assinado. Só que esses mecanismos atuam principalmente sobre o que virá, sobre o próximo ciclo de coleta e treino, deixando intacto o que já foi ingerido em silêncio nos primeiros estágios da corrida por dados.

No meio disso, criadores seguem recorrendo ao ChatGPT como ferramenta de apoio. Um dos textos do dossiê, assinado por uma autora, descreve o uso do bot para destravar bloqueio criativo, sugerir pautas e até rascunhar trechos “no estilo de um autor famoso”, sempre com o lembrete embutido na interface de que, nessa situação, o risco de plágio recai sobre o usuário que publica o material, não sobre a máquina que gerou o texto.

O que muda agora é que essa faixa cinzenta encolhe: o próprio ChatGPT passou a responder “não” onde antes respondia “sim, mas cuidado”. Usuários que dependem de imitação perfeita de voz alheia tendem a mirar modelos abertos, rodando em hardware próprio e sem essas travas de política de uso. Para a OpenAI, a reconfiguração do modelo acontece enquanto processos coletam depoimentos e prints de interação em massa.