Um vídeo de Jair Bolsonaro gerado por inteligência artificial, exibido na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, colocou a IA generativa no centro da disputa jurídica da eleição de 2026.

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Neste artigo
  1. Como foi o vídeo de IA exibido pelo PL
  2. Deepfake, TSE e a linha tênue da legalidade
  3. Prisão domiciliar, PGR acionada e o déjà-vu da carta
  4. Lula ataca IA na política enquanto PL projeta “Bolsonaro sintético”

A gravação simulou imagem e voz do ex-presidente em um telão na Arena Pacaembu, em São Paulo, no sábado (25). Bolsonaro cumpre prisão domiciliar humanitária desde novembro de 2025, condenado pelo STF por crimes ligados à tentativa de golpe após as eleições de 2022 e proibido de manifestações político-eleitorais e partidárias.

Como foi o vídeo de IA exibido pelo PL

No material, descrito como projeção, avatar ou simulação, a figura de Bolsonaro surge com um aviso direto na abertura: não é ele de verdade.

“Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu. Isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”, diz o vídeo, segundo relato dos discursos reproduzidos nas fontes oficiais.

A representação digital afirma estar “presa e calada” por uma decisão “injusta e arbitrária” baseada em algo que “nunca fez” e, na sequência, emenda um pedido explícito de apoio a Flávio: que o público receba o filho como “a pessoa que escolhi para me substituir”, “sangue do meu sangue”, encerrando com a frase “o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.

Telão em convenção partidária mostrando a imagem de Jair Bolsonaro enquanto Flávio Bolsonaro discursa
Vídeo com imagem e voz simuladas de Jair Bolsonaro por IA exibido na convenção do PL em São Paulo. Reprodução (Imagem: reprodução/poder360.com.br)

Na prática, o PL colocou uma versão sintética de Bolsonaro no palco, ocupando o mesmo lugar simbólico que o ex-presidente teria num comício, mas sem a presença física nem a voz original, substituídas pela IA. A equipe jurídica da campanha, comandada por Maria Claudia Bucchianeri, avaliou internamente que não haveria risco de punição, segundo relato divulgado pela própria defesa, que sustenta que o vídeo deixa claro o caráter simulado da fala.

Deepfake, TSE e a linha tênue da legalidade

O atrito jurídico não gira só em torno de saber se o público confundiu ou não o avatar com o Bolsonaro real, mas da legalidade de usar IA para recriar imagem e voz de uma pessoa — no caso, um condenado com restrições de comunicação em vigor.

Uma resolução de 2024 do TSE proíbe conteúdo sintético gerado ou manipulado digitalmente para favorecer ou prejudicar candidaturas. O texto veda, mesmo com autorização, criar, substituir ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, morta ou fictícia na propaganda eleitoral — justamente o terreno dos deepfakes.

Entre especialistas ouvidos pelas fontes oficiais, há divisão: parte entende que o uso do avatar viola a regra e abre margem para punição, outra sustenta que o vídeo se encaixa na legislação, especialmente por se identificar como simulação logo no início.

O TSE tem tratado a proibição de deepfake como absoluta na propaganda, com o argumento de que a técnica induz o eleitor a erro e distorce o pleito. A dúvida, agora, é se esse entendimento se estende a atos partidários como convenções, realizados antes do início formal da campanha.

No caso da convenção do PL, o evento ocorreu antes de 16 de agosto, data de início oficial da propaganda eleitoral. Até lá, pré-candidatos podem se apresentar, falar de propostas e exaltar aliados, desde que não façam pedido explícito de voto. O vídeo de IA cruza essa zona cinzenta com um discurso que, na prática, soa como um endosso de palanque tradicional.

Prisão domiciliar, PGR acionada e o déjà-vu da carta

O uso de IA também esbarra nas medidas cautelares impostas a Bolsonaro. Há duas frentes jurídicas em andamento, segundo a apuração dos órgãos oficiais mencionados nas fontes: uma no STF, que investiga eventual descumprimento das restrições da prisão domiciliar, e outra no TSE, focada na legislação eleitoral e no uso de tecnologia sintética.

A PGR foi acionada por parlamentares do PT para investigar o vídeo. Eles afirmam que a peça configura propaganda eleitoral irregular, crime eleitoral e tentativa de driblar as proibições impostas pelo STF, inclusive a de divulgar manifestos políticos “por terceiros, independentemente do meio utilizado”.

Para o advogado criminalista Jhonatan Fernando Ferreira, citado nas apurações, o simples uso de uma imagem sintética não basta, por si só, para caracterizar violação da prisão domiciliar. Seria necessário indicar que Bolsonaro participou ou consentiu com a mensagem. A situação seria mais grave se o conteúdo incitasse ataques às urnas ou ao Estado democrático de Direito, o que não está em jogo neste vídeo específico.

Flávio Bolsonaro exibindo carta manuscrita atribuída a Jair Bolsonaro em transmissão nas redes sociais
Carta lida por Flávio Bolsonaro em rede social já havia gerado reação do STF e ampliado restrições ao ex-presidente. Reprodução (Imagem: reprodução/www1.folha.uol.com.br)

O caso se encaixa numa sequência. No início de julho, Flávio já tinha lido em rede social uma carta escrita por Bolsonaro, apresentando o filho como porta-voz e candidato escolhido para representá-lo politicamente. Alexandre de Moraes entendeu que houve violação das medidas cautelares, classificou a ação como instrumento de promoção política e suspendeu por 90 dias as visitas do senador ao pai.

Uma semana antes da convenção, uma nova decisão ampliou o bloqueio: Bolsonaro ficou proibido de divulgar manifestos político-eleitorais, inclusive por terceiros. O avatar em IA, exibido para milhares de pessoas e amplamente repercutido, entra diretamente nesse ponto sensível.

Lula ataca IA na política enquanto PL projeta “Bolsonaro sintético”

Enquanto o PL exibia o vídeo de IA em São Paulo, Lula discursava na convenção do PT em Campinas criticando o uso de inteligência artificial por campanhas de direita. O presidente afirmou que os adversários usarão IA para inventar feitos e promessas que não têm como cumprir, num recado direto ao tipo de estratégia inaugurada na convenção de Flávio.

O contraste aparece de forma explícita: de um lado, um avatar assumido como simulação, construído sobre tecnologia que o TSE tenta conter; de outro, o chefe do Executivo tentando enquadrar esse uso como sintoma de campanha vazia de propostas. O embate envolve quem dita a régua do que é aceitável na IA eleitoral brasileira.

A defesa de Flávio aposta no detalhe técnico — a identificação do vídeo como simulação e a ausência de Bolsonaro em pessoa. Os críticos enxergam o oposto: um teste de limite para saber até onde a IA consegue falar pelo ex-presidente sem que ele apareça, literalmente, na tela. O TSE e o STF agora lidam com esse caso enquanto a campanha de 2026 se aproxima do calendário oficial.