Usar inteligência artificial generativa em jogos no Steam hoje é quase pedir para tomar um balde de água fria: um estudo com 10 mil títulos apontou queda média de 53% nas avaliações para quem declara IA.
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Na prática, a análise conduzida pelo cientista de dados Ross Burton, da Game Oracle, mostra que games que assumem o uso de IA no Steam recebem bem menos reviews, notas um pouco piores e, por consequência, vendem bem menos que equivalentes feitos só com trabalho humano. O baque aparece sobretudo entre grandes estúdios com equipes experientes, enquanto não dá ganho real para o indie sem grana nem skill que tenta compensar tudo com prompt.
O que exatamente o estudo mediu no Steam?
Burton usou dados da própria loja da Valve, via a ferramenta Steam Map da Game Oracle, para medir como o selo de IA interfere no desempenho comercial dos jogos. O primeiro passo foi mapear quantos títulos exibem a etiqueta de que “contêm conteúdo gerado por IA”. Em 2025, pelo menos 21% dos games lançados no Steam usaram alguma solução generativa, e essa fatia cresce a cada novo lote de lançamentos.
Como o Steam não divulga números de vendas, o estudo recorreu ao indicador mais próximo: quantidade e qualidade das avaliações dos usuários. A amostra considerou 10 mil jogos lançados entre janeiro e outubro de 2025. Em média, um game com IA recebe cerca de quatro reviews no primeiro mês de vida; um similar sem IA, sete. Pior: 20% dos títulos com IA não recebem avaliação nenhuma, contra um cenário mais favorável no grupo sem algoritmos.
Depois de construir um modelo estatístico que controla variáveis como experiência do estúdio, gênero, suporte de distribuição e época de lançamento, o resultado final ficou direto: declarar IA está associado a 53% menos avaliações que jogos equivalentes sem essa tecnologia.
Menos reviews significa menos vendas? E quão pior fica?
O estudo parte de uma premissa pragmática do mercado: mais reviews tendem a refletir mais vendas. Nesse quadro, o corte de 53% nas avaliações vira um sinal de queda semelhante nas unidades vendidas. No exemplo simplificado usado na pesquisa, dois desenvolvedores com o mesmo talento lançam games parecidos; o título "tradicional" acumularia 100 avaliações, enquanto o que usa IA ficaria com 47.
Nos dados agregados, Burton fala em perda de 40% a 60% nas vendas para estúdios que já contam com times talentosos, orçamento e ferramentas adequadas, mas resolvem experimentar IA em qualquer parte do processo — arte, música, código ou texto. Mesmo descontando “sorte” e variáveis externas, os games com conteúdo gerado por IA recebem, de maneira consistente, menos reviews e notas um pouco piores. A mediana de avaliações positivas cai de 88,3% entre jogos sem IA para 84,6% nos que usam a tecnologia.
O golpe pesa mais justamente no topo. Segundo o analista, a correlação negativa aparece com mais força em títulos de grandes estúdios e jogos de maior visibilidade, reforçando a ideia de um estigma: quanto mais gente olha para o projeto, mais o público reage mal ao rótulo de IA.
Por que o jogador virou anti-IA, inclusive no Brasil?
O estudo atribui parte dessa rejeição à percepção de que IA virou atalho corporativo para cortar empregos, reciclar conteúdo alheio e, ironicamente, encarecer tudo. A tecnologia é vista como dependente de coleta irrestrita de dados (muitos protegidos por direitos autorais) e ligada a impacto ambiental, mesmo quando essa relação entra em disputa.
No Brasil, a Pesquisa Game Brasil 2026 registra um retrato semelhante: 45,7% dos entrevistados se preocupam com a precarização criativa e perda de empregos por causa da IA generativa nos games, 39,6% temem violações de direitos autorais e 38,4% falam em perda de "alma" e qualidade. Mesmo assim, 39,3% ainda comprariam um jogo sabendo que boa parte da arte, dublagem e textos foi feita com IA, e outros 40,9% responderam "talvez".
A pesquisa de Burton também expõe o efeito bumerangue da confiança exagerada na tecnologia. Estúdios que usam IA para “poupar alguns cascalhos” em vez de contratar profissionais acabam tomando decisões de design ruins e lançando jogos com bugs visuais e de jogabilidade evidentes. Nesse caso, não entra só preconceito: o produto realmente chega pior.
IA ajuda o dev sem talento ou é só ilusão?
Um dos pontos mais incômodos do estudo atinge o discurso mais repetido no marketing de IA: o do "gênio solo" que não sabe programar, desenhar, compor ou escrever, mas que criaria seu grande game só com prompts. Nos dados da Game Oracle, esse dev não aparece em parte alguma. Quem não tem habilidade e nem dinheiro para contratar gente boa continua sem público, com ou sem IA.
O recado vai reto: algoritmos não causam prejuízo a esse aspirante, mas também não trazem vantagem competitiva. O que segura qualquer projeto é o básico — estudar programação, desenho, música, modelagem, roteiro — ou pagar quem domina essas áreas. A IA entra como ferramenta de apoio, não como atalho mágico para virar o próximo Hideo Kojima.
Enquanto isso, no lado oposto da cadeia, grandes companhias seguem incorporando soluções generativas em tudo, inclusive jogos, como parte do "pacote padrão". A diferença é que agora existe um dado concreto para esfriar a empolgação: no Steam, declarar IA custa caro em visibilidade, engajamento e, muito provavelmente, em dinheiro vivo.
Quantos jogos com IA já existem no Steam?
O avanço da IA no catálogo da Valve é rápido. Segundo Burton, em 2025 pelo menos 21% dos jogos lançados no Steam marcavam a opção de uso de conteúdo gerado por IA. Outro levantamento, publicado pelo site PCGuia com base em dados recentes, mostra um recorte ainda mais agressivo: em uma semana específica, mais de 300 novos títulos chegaram ao Steam e 120 deles traziam aviso de uso de IA, ou seja, 40% dos lançamentos daquele intervalo.
Esse crescimento acelerado ocorre dentro das regras de transparência criadas pela própria Valve em 2024. Ao submeter um jogo, o desenvolvedor precisa responder a um questionário e detalhar se usa IA para gerar arte, áudio, texto, diálogos dinâmicos ou eventos de história em tempo real. Hoje, rastreadores independentes indicam que os títulos marcados com IA representam cerca de 7% do catálogo total do Steam, algo em torno de 115 mil jogos.
O descompasso fica evidente: a presença de IA explode nos lançamentos, mas o público reagindo com menos reviews e notas piores mostra que a curva de aceitação anda bem mais lenta. Para quem está planejando o próximo projeto, o estudo da Game Oracle crava um freio na narrativa otimista: do jeito que a coisa está no Steam, IA demais não só irrita a comunidade — ela pesa no caixa.




