Um estudo do NetLab da UFRJ disseca a engrenagem da desinformação política no Brasil e mostra que as fake news de eleição saem de uma fábrica organizada.
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Segundo o NetLab, campanhas de fake news políticas no Brasil seguem um roteiro de cinco etapas: começam em sites de conteúdo duvidoso e canais pequenos no YouTube, são testadas em grupos fechados de WhatsApp e Telegram, refinadas para nichos no Facebook com anúncios segmentados, viram vídeos mais elaborados para Instagram, TikTok e canais maiores do YouTube e, no fim, entram em uma fase de disparo massivo multiplataforma, chamada de campanha "firehose".
Como a UFRJ descreve a campanha permanente de desinformação?
O estudo do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), parte de um ponto incômodo: desinformação em eleição sempre existiu, mas as plataformas digitais colocaram esse jogo sujo em outra escala, com segmentação minuciosa de público. A coordenadora da pesquisa, Marie Santini, afirma que as redes sociais ampliaram a capacidade de segmentar o público e transformar boato em campanha contínua.
Os pesquisadores descrevem a desinformação política atual como uma campanha permanente. A meta é reduzir, com o tempo, a resistência das pessoas a determinadas narrativas e, em paralelo, aumentar a resistência à checagem. Em vez de um único boato viral perdido na timeline, o usuário passa a ser bombardeado por versões parecidas da mesma mentira, vindas de fontes diferentes, em formatos diferentes, em horários diferentes.
Essa repetição deliberada tem um efeito conhecido por quem trabalha com comunicação: uma narrativa repetida muitas vezes começa a gerar dúvida em públicos que nem eram o alvo principal da operação. Ou seja, o estrago transborda as bolhas políticas óbvias e chega a quem, em tese, estaria só acompanhando eleição de longe, sem militância ou interesse profundo no noticiário.
Qual é o caminho completo das fake news políticas até viralizar?
O estudo do NetLab detalha o fluxo da fábrica de fake news em cinco estágios bem definidos, que transformam um post obscuro em munição eleitoral de alcance nacional.
No início vem a produção da narrativa. Os primeiros conteúdos circulam em sites de conteúdo duvidoso, classificados como "junk news", e em vídeos de canais pequenos no YouTube, com poucos seguidores. Aqui, o custo é baixo e o risco de escrutínio público também; se a história não engrena, ela simplesmente some do radar.
Em seguida ocorre o teste de receptividade: as mesmas narrativas vão para grupos fechados e de nicho em WhatsApp e Telegram. Esses espaços funcionam como focus group gratuito, onde linguagem, imagens e gatilhos emocionais são medidos na base da reação espontânea. O que cola ali, volta refinado.
Passada essa etapa, vem a fase de bolhas e segmentos. O conteúdo é empurrado para nichos específicos por meio de grupos no Facebook e anúncios segmentados. Um pacote vai só para religiosos, outro só para mulheres, outro para um recorte regional. A mesma mentira ganha nuances diferentes para cada público, com ajustes de vocabulário, referências culturais e figuras de autoridade locais.
Como entra vídeo curto, TikTok e a campanha 'firehose'?
Depois do teste em texto e memes, a engrenagem entra na fase de desinformação audiovisual. As narrativas falsas viram peças em vídeo mais elaboradas: pode ser um clipe curto, formatado para feed vertical, ou um vídeo longo, com estética de "documentário caseiro". Esse material é jogado no Instagram, no TikTok e em canais médios e grandes do YouTube, que já têm audiência consolidada e público fiel.
É nessa etapa que o conteúdo ganha cara de coisa "profissional" e atravessa melhor as fronteiras entre bolhas. O mesmo enredo aparece como live, como corte de live, como vídeo com trilha dramática, como dublagem em vídeo curto. A forma muda, a mentira é a mesma, adaptada ao tempo de tela e ao humor de cada plataforma.
Com o vídeo rodando em vários tamanhos de tela, começa a fase que o estudo chama de campanha "firehose". O termo descreve um disparo intenso em múltiplas plataformas, definido por quatro características: volume alto, rapidez, continuidade e repetição. Nada de um pico isolado; a intenção é manter o fluxo por tempo suficiente para que a narrativa pareça onipresente, como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo.
Nesse estágio, os disparos atravessam Facebook, Instagram, TikTok, WhatsApp, Telegram e YouTube ao mesmo tempo. A pessoa recebe o mesmo boato em um grupo da família, esbarra em versão editada no feed, vê citação em comentário de portal e assiste a um vídeo "explicando a verdade que a mídia não mostra". O excesso vira estratégia, não efeito colateral, e o usuário acaba exposto à narrativa independentemente da plataforma preferida.
Por que essa estratégia fura bolhas e dribla checagem?
O estudo da UFRJ indica que o truque não está só na mentira em si, mas na combinação de segmentação, formato e tempo. Testar narrativas em grupos fechados deixa o discurso mais afiado para o público-alvo, e o uso pesado de segmentação em anúncios permite direcionar versões diferentes da mesma história para grupos distintos sem que um veja o que o outro recebe, o que dificulta reação coordenada e contestação pública.
Quando o conteúdo entra na fase audiovisual, o apelo emocional sobe. Vídeo curto em TikTok e Reels exige pouca atenção e aciona gatilhos rápidos de indignação, medo ou riso. Isso reduz a chance de o usuário parar para buscar contexto e aumenta o compartilhamento automático, muitas vezes sem leitura sequer da legenda. A checagem, que depende de tempo e disposição, perde a corrida na largada.
Já a dinâmica de campanha permanente descrita por Marie Santini acerta em cheio a fadiga de informação: quanto mais vezes o tema aparece, por mais absurda que seja a alegação inicial, mais ele entra na zona cinzenta do "vai ver tem algo aí". A fronteira entre notícia, opinião e boato deliberado se dissolve, e o usuário passa a conviver com esse ruído como parte do ambiente informacional.
O ponto final do dossiê é direto: a fábrica de fake news políticas no Brasil não é improviso de grupo de zap em época de eleição. É operação de marketing com ciclo completo de produto, do teste A/B em nicho à distribuição em massa via firehose. E, enquanto as plataformas continuam oferecendo segmentação e alcance barato, quem trabalha com desinformação segue operando com vantagem estrutural sobre quem tenta desmentir depois.




