Os Estados Unidos prepararam uma carta para avisar 35 governos de que parceria em inteligência artificial com Washington é incompatível com a coalizão rival criada pela China — e que quem insistir em participar dos dois grupos será cortado das mesas de negociação americanas.

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Neste artigo
  1. O que está na carta dos EUA sobre IA?
  2. O que é a Pax Silica e por que o Cazaquistão virou caso-problema?
  3. O que a China está construindo com a sua coalizão de IA?
  4. Onde o Brasil entra nessa disputa de IA?

Na prática, o governo dos EUA usa a Pax Silica, sua iniciativa de cooperação em IA, semicondutores e minerais críticos, como linha divisória: ou o país se alinha a Washington nas cadeias estratégicas da IA ou encara retaliação diplomática e tecnológica se também aderir à estrutura lançada por Xi Jinping. A mensagem está num rascunho do Departamento de Estado, obtido e descrito pela Reuters, que ainda não tem data nem envio confirmados.

O que está na carta dos EUA sobre IA?

O rascunho de carta é dirigido a 35 países que assinaram, em junho, uma “Declaração sobre Oportunidades em IA” patrocinada por Washington. Esse conjunto de governos reúne integrantes da estrutura não vinculante da Pax Silica e países que já sinalizaram interesse em alinhar sua cooperação em IA com os Estados Unidos.

O texto descreve a entrada na Pax Silica como algo bem diferente de só assinar lista de presença em fórum internacional: trata-se de um compromisso político e estratégico com a visão americana para modelos de IA, cadeias de chips e fornecimento de minerais críticos. A formulação é direta: “fazer parte de tudo é não fazer parte de nada”, diz a minuta. A carta orienta os países a “escolher deliberadamente” seu posicionamento em IA e afirma que essa adesão “não pode coexistir” com iniciativas “duplicadas” cujas expectativas entrem em choque com as de Washington.

A China não aparece nominalmente no documento, mas o alvo é transparente para quem acompanha o tema. O Cazaquistão, por exemplo, hoje é o único caso público de país participando tanto da Pax Silica quanto da coalizão chinesa. Esse duplo alinhamento acendeu o alerta no Departamento de Estado, que passou a tratar a sobreposição como risco para a confiabilidade do bloco liderado pelos EUA.

O que é a Pax Silica e por que o Cazaquistão virou caso-problema?

A Pax Silica surgiu no fim de 2025 como ferramenta de política externa de Washington para garantir cadeias de suprimento “seguras” em IA — modelos, chips e minerais críticos concentrados em poucos países. Cerca de duas dezenas de governos já aderiram, incluindo aliados previsíveis dos EUA — Japão, Austrália, Coreia do Sul — e parceiros avaliados como estratégicos por seus recursos, como o próprio Cazaquistão.

Para quem entra, os Estados Unidos colocam na mesa acesso prioritário a investimentos em projetos de IA, coordenação em controles de exportação e, principalmente, aproximação com empresas americanas que dominam data centers e semicondutores. Em troca, Washington cobra alinhamento político em votações e pactos técnicos e busca reduzir a dependência do grupo em relação a “adversários”, o termo usado como código para Pequim.

O ponto de atrito é que o Cazaquistão também se associou à estrutura chinesa de IA, focada em modelos de “pesos abertos” e em maior difusão de tecnologia fora do eixo EUA-Europa. Para o governo Trump, isso rompe a lógica de bloco confiável: autoridades americanas citadas pela Reuters declaram que “não é possível ter os dois lados” e que fica “difícil entender” como um país se apresenta como parceiro confiável dos Estados Unidos enquanto embarca, ao mesmo tempo, numa iniciativa criada por Pequim para sustentar uma visão concorrente de IA.

O que a China está construindo com a sua coalizão de IA?

Em julho, Xi Jinping lançou a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, apresentada pela China como um órgão internacional de governança da tecnologia e contraponto direto à Pax Silica. A nova entidade começou com 29 países — entre eles Rússia, Indonésia, África do Sul, Cuba e Venezuela — e foi anunciada em Xangai, num evento com presença do secretário-geral da ONU.

Pequim usa o grupo para impulsionar sua estratégia de IA baseada em modelos de código aberto ou de pesos abertos, que permitem a governos e empresas baixar, adaptar e rodar a tecnologia em infraestrutura própria. Isso se encaixa na política industrial chinesa de difundir rápido a IA aplicada em setores como manufatura, serviços e saúde, contornando as restrições de chips impostas por Washington.

Composição visual com símbolos dos Estados Unidos, da China e de inteligência artificial
Coalizões rivais em IA cristalizam a divisão entre o bloco liderado por Washington e a nova organização criada por Xi Jinping (Imagem: reprodução/gazetadopovo.com.br)

A embaixada chinesa em Washington já reagiu ao rascunho de carta. Segundo a representação, Pequim rejeita a “politização” de temas comerciais e tecnológicos e argumenta que a ofensiva dos EUA “sufocará o avanço global da IA” e “não atenderá aos interesses de ninguém”. Paralelamente, o governo chinês avalia impor restrições ao acesso externo a alguns dos principais modelos de IA do país, alinhando esse controle à agenda de segurança nacional.

Onde o Brasil entra nessa disputa de IA?

O Brasil aparece como peça relevante nesse tabuleiro. De um lado, o país está entre os fundadores da iniciativa chinesa de cooperação em IA, citada em reportagem que detalha o lançamento da nova organização de Xi Jinping. De outro, o governo Lula repete o discurso de “pragmatismo e autonomia” na política de IA enquanto amplia conversas com Pequim sobre tecnologia, satélites e minerais críticos.

Até agora, o Brasil não está na lista de países mencionados como membros formais da Pax Silica, mas integra o grupo de emergentes cortejados por ambos os lados. A ofensiva diplomática descrita na minuta do Departamento de Estado mira justamente esse tipo de parceiro: governos que ainda circulam no meio do caminho e tentam manter boas relações com Washington e Pequim.

Se a carta for enviada nos termos atuais, o recado para Brasília e outros emergentes é explícito: a cooperação em modelos, chips e minerais críticos entra oficialmente na lista de escolhas geopolíticas binárias, ao lado de temas como defesa e 5G.

A Reuters, que teve acesso ao rascunho, não conseguiu confirmar quando — ou se — Washington vai disparar as cartas. O Departamento de Estado afirmou que não comenta “documentos internos supostamente vazados”, e as embaixadas do Cazaquistão e da China em Washington não responderam de imediato a novos pedidos de posicionamento.