O Google colocou nesta semana em órbita baixa o primeiro satélite do Projeto Suncatcher: o MVP embarcou em um Falcon 9 da SpaceX com quatro TPUs a bordo e painéis solares de cerca de 1 kW para testar computação de IA diretamente no espaço.

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Neste artigo
  1. O que exatamente o Google colocou em órbita
  2. Por que o Projeto Suncatcher existe
  3. Como o Google está testando calor, vibração e radiação
  4. De um satélite a uma constelação de 80 unidades
  5. Quando (e se) data centers de IA no espaço viram negócio
ilustração do satélite experimental do Projeto Suncatcher com painéis solares
Satélite experimental do Projeto Suncatcher, usado pelo Google para testar TPUs em condições reais no espaço (Imagem: reprodução/xataka.com.br)

O lançamento marca o início da fase orbital de um plano descrito pela própria empresa: usar constelações de satélites movidos a energia solar como infraestrutura de IA em larga escala, aliviando o consumo elétrico e as necessidades de refrigeração dos data centers terrestres.

O que exatamente o Google colocou em órbita

O satélite experimental, batizado de MVP, integra a missão de carona Transporter-18 da SpaceX, lançada de Vandenberg, na Califórnia, em parceria com a Planet Labs. Segundo o Google, o MVP carrega quatro unidades de processamento tensorial (TPUs) com potência combinada equivalente à de um único servidor de data center.

Os painéis solares do MVP entregam cerca de 1 quilowatt de energia, o bastante para que o satélite responda consultas simples de IA, incluindo tarefas do Gemini, modelo da própria empresa. A missão foi planejada para operar por aproximadamente um ano, embora o satélite possa permanecer em órbita por até seis anos antes de reentrar.

O voo saiu antes do cronograma original, que previa apenas dois protótipos em 2027. Para ganhar calendário, o Google instalou seus chips em um satélite já pronto da Planet, da qual é investidora, em vez de esperar por um hardware construído sob medida do zero.

Por que o Projeto Suncatcher existe

O Suncatcher começou como projeto de pesquisa de longo prazo para um cenário em que a infraestrutura de IA ultrapassa as limitações físicas e energéticas da Terra. Em órbita baixa, com exposição quase contínua à luz solar, a empresa calcula que painéis solares geram até oito vezes mais energia do que instalados em solo.

A equação é direta: treinar e rodar modelos grandes consome megawatts constantes e eleva as contas de luz e de água dos data centers em terra. O Google afirma que pretende usar a energia solar disponível fora da atmosfera para alimentar TPUs em constelações de satélites e reduzir a dependência de redes elétricas locais já sobrecarregadas.

Segundo estimativas internas, os custos de data centers orbitais poderiam ficar “grosseiramente comparáveis” aos de um data center equivalente na Terra por quilowatt/ano a partir da metade da década de 2030, desde que o preço dos lançamentos siga caindo. Até essa virada econômica, o Suncatcher permanece classificado pela empresa como pesquisa aplicada, não como produto.

Como o Google está testando calor, vibração e radiação

O MVP não funciona como um data center completo em órbita; é um laboratório voando. A missão foi desenhada para coletar dados sobre três frentes principais: forças de lançamento, radiação e condições térmicas em torno dos chips de IA.

Antes do voo, o protótipo passou por uma bateria de testes em solo. Em mesas de vibração, o Google submeteu o hardware a frequências semelhantes às do lançamento nos três eixos, com componentes individuais enfrentando forças entre 50 g e 100 g. Em laboratório, TPUs Trillium foram expostas a um feixe de prótons no Crocker Nuclear Laboratory, na Universidade da Califórnia em Davis, para simular uma dose de radiação equivalente a cinco anos em órbita.

A empresa relata que as Trillium TPUs suportaram uma dose total ionizante superior à esperada para uma missão de cinco anos sem falhas permanentes. Um efeito observado foi a inversão de bits causada por radiação, alterando zeros e uns nos circuitos; na prática, reiniciar os chips em geral bastou para corrigir os erros.

Em espaço aberto, o gargalo passa a ser calor. Sem ar, ventoinhas não funcionam. O Google desenhou para o MVP um sistema de resfriamento em camadas, que conduz o calor por materiais de interface térmica, alumínio e cobre até um painel radiador que dissipa essa energia via radiação para o vácuo.

Mesmo com esse arranjo, há limite físico: segundo a empresa, os chips trabalham cerca de 15 minutos antes de precisarem ser desligados para esfriar. Durante essa janela, o satélite executa consultas curtas de IA; em seguida entra em pausa térmica enquanto os componentes retornam a uma faixa segura de temperatura.

De um satélite a uma constelação de 80 unidades

O MVP funciona como primeiro passo de uma proposta bem mais ampla. Documentos do Suncatcher descrevem constelações com mais de 80 satélites voando em formação apertada, equipados com TPUs e conectados entre si por links ópticos a laser dimensionados para sustentar dezenas de terabits por segundo se a meta é competir com data centers em solo.

O plano divulgado pela empresa fixa em 2027 o lançamento de dois satélites dedicados a testar justamente esses enlaces a laser entre unidades. Essa etapa aparece nos documentos como o elo de rede necessário para transformar vários satélites em um cluster de computação distribuída capaz de dividir cargas de IA em órbita.

A formação prevista também pressiona a gestão de tráfego espacial. O próprio Google menciona satélites operando a distâncias da ordem de quilômetros ou menos, bem mais próximos do que constelações atuais, em uma órbita já carregada de detritos. Mais satélites significam mais risco de colisão e mais trabalho para reguladores e astrônomos que monitoram o céu.

Quando (e se) data centers de IA no espaço viram negócio

Do ponto de vista de produto, o próprio Google coloca freio nas expectativas. A companhia afirma que a primeira missão Suncatcher não tenta demonstrar um data center orbital operacional, e sim localizar pontos de falha e validar conceitos básicos: uso de energia solar em órbita, resfriamento sem ar, robustez das TPUs e telemetria em ambiente real de voo.

Em paralelo, a empresa já discute publicamente que data centers orbitais só ficariam economicamente competitivos na metade da década de 2030, assumindo lançamentos muito mais baratos. Até lá, data center espacial entra na conta como custo de P&D, não como linha de receita.

O próximo marco no cronograma é o lançamento dos dois protótipos em 2027, quando os links ópticos entre satélites deixam os slides de apresentação e viram dado de engenharia em telemetria real.