Ferramentas de IA ainda não foram identificadas como responsáveis diretas por virar o resultado de nenhuma eleição de forma comprovada, mas já desgastam a confiança no que é real e no próprio processo democrático.

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Neste artigo
  1. Deepfakes já decidiram eleição em algum país?
  2. Como a IA já afetou eleições no Brasil?
  3. O que a lei brasileira faz hoje contra deepfakes?
  4. Qual é o papel dos EUA nessa história de IA e eleições?
  5. Deepfake é o maior risco ou a ponta do iceberg?

Na prática, a inteligência artificial generativa virou arma de desgaste contínuo: vídeos falsos, áudios sintéticos e montagens realistas circulam rápido, alimentam teorias de fraude e colocam em xeque instituições, de emissoras públicas a tribunais. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corre atrás de regras para esse novo cenário, enquanto nos Estados Unidos o uso de deepfakes em campanhas cresce e pressiona por regulação e fiscalização mais duras.

Deepfakes já decidiram eleição em algum país?

Até agora, não. Pesquisadores que acompanham casos recentes de uso de IA em campanhas afirmam que não existem evidências conclusivas de que deepfakes tenham alterado profundamente o resultado de qualquer eleição. O exemplo que virou referência é a disputa presidencial na Irlanda, em 2025: um vídeo falso, três dias antes da votação, mostrava a então candidata Catherine Connolly anunciando que desistiria da corrida, em uma montagem que imitava o telejornal da RTÉ News, principal emissora do país.

A produção usou IA para recriar rosto e voz da candidata e sequestrar a credibilidade de uma instituição respeitada. Mesmo com o ataque, Connolly venceu com 63% dos votos. Na Alemanha, no mesmo ano, vídeos gerados ou dublados por IA espalharam pânico inventando ameaças terroristas e manipularam imagens do serviço de inteligência britânico MI6 para dar verniz oficial a boatos. No Equador, montagens simulando canais como CNN e France 24 acusaram falsamente candidatos de corrupção e compra de influência.

O impacto direto em votos permanece difícil de medir, mas o efeito colateral aparece sem mistério: aumento de desconfiança em relação a veículos de imprensa, verificadores e instituições, especialmente em contextos com baixa alfabetização midiática. Esse dano estrutural entra no radar de pesquisadores e autoridades eleitorais com mais força do que a hipótese de uma urna virada por um único vídeo.

Como a IA já afetou eleições no Brasil?

O Brasil entrou no jogo cedo. Em 2016 e 2020, campanhas nos EUA exploraram vídeos manipulados e ajudaram a popularizar a tecnologia; aqui, as eleições de 2022 viram deepfakes de telejornais e âncoras famosos anunciando pesquisas falsas. Um dos casos citados em análises jurídicas é o vídeo adulterado de Renata Vasconcellos, do Jornal Nacional, lendo um resultado de pesquisa invertido para favorecer Jair Bolsonaro, somado a montagens com William Bonner chamando candidatos de “bandidos” e a um áudio falso atribuído a Ciro Gomes.

Artigos acadêmicos que examinam o tema apontam que a Resolução TSE nº 23.610/2019 avançou ao impor deveres a plataformas digitais e exigir identificação de conteúdo sintético, mas ainda deixa muita coisa de fora. A norma atinge sobretudo propaganda oficial, enquanto grande parte da sujeira circula em vídeos, áudios e memes produzidos por apoiadores “independentes” em grupos fechados.

Um estudo do IDP em parceria com o projeto Ethics4AI analisou 56 decisões de Tribunais Regionais Eleitorais sobre possíveis deepfakes nas eleições de 2024. Em 25% delas, os juízes nem consideraram que se tratava de conteúdo eleitoral. Em outros casos, montagens evidentes com IA nem foram classificadas como deepfake. O levantamento aponta despreparo técnico da Justiça Eleitoral para identificar manipulações, divergência de critérios entre tribunais e, de quebra, insegurança jurídica para campanhas e eleitores.

O que a lei brasileira faz hoje contra deepfakes?

Hoje o arcabouço é um quebra-cabeça. O Marco Civil da Internet e a LGPD dão base geral de proteção de dados e responsabilidades, enquanto resoluções do TSE (como a 23.610/2019 e a 23.732/2024) tratam de propaganda e desinformação eleitoral. Há a vedação a deepfakes em propaganda oficial, mas com lacunas grandes na responsabilização civil e criminal de quem fabrica e distribui esse tipo de conteúdo.

No Congresso, vários projetos tentam fechar esse buraco. O PL 2.630/2020 cita expressamente deepfakes, mas ainda não define de forma clara quem responde pelo quê. O PL 21/2020, já aprovado na Câmara, traça princípios gerais para IA, sem entrar a fundo em uso eleitoral. O PL 2.338/2023 vai na linha da transparência algorítmica e, com emenda de 2023, coloca na mesa a necessidade de marca d’água obrigatória para rotular conteúdo gerado por IA.

Na prática, o quadro junta tecnologia madura, produção e difusão baratas, mas fiscalização desigual. O estudo sobre decisões dos TREs mapeia três linhas de interpretação: permissão condicionada (aceita deepfake sem pedido de voto ou desinformação explícita), proibição total e restrição pelo grau de manipulação. Sem uniformidade, sobra brecha para uso criativo de IA tanto em campanha oficial quanto na lama subterrânea de grupos privados.

Qual é o papel dos EUA nessa história de IA e eleições?

Mesmo com o foco voltado a Brasil e Europa, o estudo de casos brasileiros ressalta que o problema é global e cita diretamente os Estados Unidos: o uso de deepfakes em campanhas por lá está crescendo em volume, e a tendência apontada por analistas é de piora com a aproximação de novas eleições, se não houver regulação e fiscalização eficaz.

frame de vídeo manipulado que associa falsamente o MI6 a alerta sobre eleições na Alemanha
Vídeo manipulado usou imagens do MI6 para espalhar boato sobre ameaças nas eleições alemãs (Imagem: reprodução/bbc.com)

No mínimo, isso importa por dois motivos. Primeiro, porque a tecnologia é amplamente desenvolvida e comercializada por empresas americanas, que resistem a regulações sobre redes sociais e IA inclusive em casa. Segundo, porque estratégias testadas nos EUA costumam ser copiadas por campanhas do resto do mundo, Brasil incluso. O histórico de 2016 e 2020, com manipulações envolvendo Barack Obama e Donald Trump, já levou até gigante de software a desenvolver ferramenta específica de detecção de deepfakes.

Se os EUA avançarem em regras duras sobre rotulagem de conteúdo sintético, transparência e responsabilidade de plataformas, essa pressão tende a respingar em outros países e em provedores globais. Se ficarem só no discurso, a mensagem para estrategistas digitais é direta: vale tentar empurrar o limite em todo lugar. Enquanto Brasília discute projetos e o TSE tenta uniformizar decisões, a próxima leva de experimentos com IA em eleição provavelmente virá de fora.

Deepfake é o maior risco ou a ponta do iceberg?

Os especialistas que analisam IA em eleições são taxativos: o problema não é só um vídeo ultra-realista que engana eleitor ingênuo na véspera da votação. Deepfake virou símbolo, mas o risco principal está no conjunto: vozes sintéticas, dublagens, recortes de discursos fora de contexto, imagens reais com narração falsa e até montagens pornográficas usadas como violência política de gênero contra prefeitas e deputadas.

Relatos recentes mostram que esse tipo de ataque desmotiva candidatas e funciona como violência de segunda ordem, afastando mulheres da política. Ao mesmo tempo, a enxurrada de conteúdo manipulado gera um efeito colateral perverso: mesmo vídeos verdadeiros passam a ser questionados como “coisa de IA”. Quando tudo pode ser fake, nada é confiável — e quem ganha é quem vive de caos informacional.

O recado do próprio estudo apoiado pelo IDP é direto: sem capacitar juízes e técnicos, sem alfabetização digital de eleitores e sem parâmetros claros de responsabilidade para plataformas e campanhas, a proibição formal de deepfakes vira letra morta. Enquanto os EUA discutem seus planos para a próxima eleição, o Brasil ainda tenta responder a uma pergunta básica: qual conceito de deepfake a Justiça está adotando, e como esse conceito vai ser aplicado na prática antes do próximo ciclo eleitoral?