O Mercado Bitcoin suspendeu depósitos e saques na madrugada desta segunda-feira (2) depois de identificar um "incidente de segurança", e a empresa de segurança blockchain Hypernative aponta mais de US$ 40 milhões (cerca de R$ 218 milhões) movimentados de carteiras atribuídas à corretora.
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A corretora tem 4,5 milhões de usuários, número divulgado pela Tether, e todos estão sem poder sacar ou depositar, sem prazo para a reabertura. O MB afirma que nenhum cliente teve prejuízo. Ainda não explicou de quem eram os ativos que saíram das carteiras.
O caso vem quatro dias depois do roubo de US$ 6,3 bilhões à Binance e envolve uma das corretoras mais antigas do país: o MB diz ter mais de 13 anos de mercado, listar mais de 800 ativos digitais e seguir a regulação brasileira.
O comunicado do Mercado Bitcoin e o que ficou de fora
O anúncio saiu no perfil oficial da empresa no X. "Como medida preventiva de proteção, depósitos e saques estão temporariamente suspensos. Nossas equipes estão mobilizadas investigando o caso, rastreando os ativos e coordenando as medidas junto às autoridades competentes", escreveu a corretora no comunicado publicado no X.
A empresa diz que o ocorrido não causou prejuízo aos clientes nem vazamento de dados. Em nota ao Money Times, afirmou que o incidente foi "contido rapidamente" e acrescentou: "Não houve vazamento de dados dos clientes. Como medida de proteção, o acesso ao aplicativo foi suspenso temporariamente." Ou seja, a medida foi além do bloqueio de saques e chegou ao próprio aplicativo, também sem prazo informado.
O comunicado não traz valor, não detalha o que aconteceu, não cita o alerta da Hypernative e não dá data para normalizar as operações. Procurado pelo Metrópoles sobre quais sistemas foram acessados e quando as operações voltam, o MB não respondeu até a publicação, às 13h39. A atualização mais recente da empresa, segundo o The Defiant, diz apenas que os trabalhos para restaurar as operações com segurança estão em andamento.
Linha do tempo: transferências começaram às 23h15 de domingo
Os dados on-chain mostram uma madrugada longa. Segundo a Hypernative, as primeiras movimentações suspeitas apareceram às 2h15 UTC, ou 23h15 de domingo (1º) no horário de Brasília. As maiores transferências ocorreram entre 3h19 e 3h53 (horário de Brasília), para endereços recém-criados, ligados ao possível invasor. O alerta da Hypernative antecedeu a nota do MB.
A corretora fala em incidente "na madrugada", a mesma janela das maiores transferências, mas não faz a ligação com o alerta externo. Também não a desmente. Causa, método e autoria do ataque seguem sem confirmação.
Uma avaliação ouvida pelo SpaceMoney, de parte dos especialistas, é que a sucessão de ataques a empresas de cripto e finanças neste ano alimenta a hipótese de que grupos norte-coreanos usam inteligência artificial em reconhecimento e engenharia social. É uma hipótese geral sobre o setor: nada nas informações disponíveis liga o caso do Mercado Bitcoin a esses grupos.

US$ 40 milhões espalhados por pelo menos dez blockchains
O alerta da Hypernative cita carteiras em pelo menos dez redes, entre elas Bitcoin, Ethereum, Solana, Tron, Polygon, Arbitrum, Avalanche, BNB Smart Chain e Stellar. Os endereços ligados ao possível invasor concentram, segundo a empresa, os volumes abaixo, além de mais de 200 outros tokens:
| Ativo | Quantidade nos endereços ligados ao invasor |
|---|---|
| Ether (ETH) | 2.852 |
| Bitcoin (BTC) | 106 |
| Solana (SOL) | 10,7 mil |
| Stellar (XLM) | 6,7 milhões |
| Avalanche (AVAX) | 77 mil |
| XDC | 3,07 milhões |
| Tron (TRX) | 1,7 milhão |
O valor é estimativa de terceiros, preliminar: depende de confirmar que todos os endereços de origem pertencem ao MB. Trackers on-chain não oficiais, citados pelo Money Times, também apontam cerca de US$ 40 milhões. A corretora não divulgou número nenhum.
Em uma segunda publicação, o MB divulgou os endereços de destino nas redes Bitcoin, compatíveis com Ethereum, Solana, Stellar e Tron, "exclusivamente para fins de identificação e rastreamento". Segundo o The Defiant, o endereço de Bitcoin recebeu sete transferências em 2 de novembro, que somam 106,0678 BTC (cerca de US$ 8,27 milhões, ou R$ 45 milhões); a maior delas, de 104,43 BTC. Uma transação na rede Ethereum levou 2.852,07 ETH (cerca de US$ 6,5 milhões, ou R$ 35 milhões) de uma carteira que a plataforma de análise Arkham identifica como do Mercado Bitcoin.
Somados, BTC e ETH dão cerca de US$ 15 milhões, pela conta do tekimobile com as cotações do dia (BTC a US$ 76,9 mil e ETH a US$ 2.255, no KuCoin). A diferença para a estimativa de US$ 40 milhões estaria nos outros tokens e redes. O KuCoin registra ainda que uma carteira do MB envolvida no incidente enviou 2.800 ETH e 2,24 milhões de USDC para endereços separados em 2 de novembro.

Tether congela USDT e roubo à Binance serve de pano de fundo
A reação mais concreta até agora veio de fora. Paolo Ardoino, CEO da Tether, disse que a empresa congelou mais de 4,5 milhões de USDT (cerca de R$ 24 milhões) em decorrência do incidente, segundo a CNN Brasil. A Tether não informou, nas declarações disponíveis, de quais endereços vieram os valores. Em julho, a empresa anunciou investimento de US$ 20 milhões na rodada estratégica do MB.
O momento pesa. Na quinta (29/10), a Binance perdeu US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões), a maior parte em cerca de 20 minutos, no que é tratado como o maior roubo de ativos digitais da história. O FBI atribui o ataque ao grupo norte-coreano TraderTraitor, o mesmo do roubo de US$ 1,5 bilhão à Bybit em 2025; a Coreia do Norte nega. A Binance reabriu saques no domingo (1º), registrou saídas de US$ 3,64 bilhões (2,1% dos ativos) e diz ter coberto 95% do valor roubado.
Saldo travado, sem prazo e risco de golpe
Para quem tem dinheiro na corretora, a situação é desconfortável: o saldo existe, mas não sai. A posição oficial do MB é que não houve perda para clientes. Essa frase ainda não veio acompanhada de explicação sobre a origem dos fundos movimentados, se eram reservas da própria empresa ou recursos de usuários. As fontes consultadas não trazem informação sobre a situação financeira da corretora além do que ela mesma declara.
Incidente com saque bloqueado costuma atrair golpista. Mensagens por SMS, WhatsApp ou e-mail que oferecem "liberar o saque" e pedem senha, código de autenticação ou frase de recuperação de carteira devem ser ignoradas; as informações oficiais saem pelo aplicativo e pelo perfil @MercadoBitcoin no X. A próxima atualização da corretora precisa responder ao que interessa a esses 4,5 milhões de clientes: quanto saiu, de quem era e quando o dinheiro volta a circular.



