O Brasil está preparado para o aumento de golpes com criptomoedas em 2024?

Golpes com criptomoedas cresceram 35% no Brasil em 2023; quais são as falhas no sistema de proteção?
Atualizado há 9 horas
Golpes com criptomoedas crescem rápido no Brasil e desafiam segurança digital em 2024
Golpes com criptomoedas crescem rápido no Brasil e desafiam segurança digital em 2024
Resumo da notícia
    • Golpes com criptomoedas cresceram no Brasil e desafiam estruturas de segurança digital em 2024.
    • Você pode ser alvo de fraudes digitais envolvendo falsificação de perfis e acesso remoto a dispositivos.
    • O aumento das fraudes pressiona bancos, corretoras e autoridades a melhorar a proteção ao consumidor.
    • Falta de educação financeira e digital facilita a ação dos criminosos e amplia os riscos para usuários.

Golpes envolvendo criptomoedas cresceram no Brasil e seguem em ritmo acelerado em 2024, pressionando bancos, corretoras, plataformas de troca e autoridades a reverem seus modelos de segurança. A discussão já não é se o problema existe, mas se o país tem estrutura para reagir a esse cenário em expansão.

Brasil em 2024: explosão de fraudes com moedas digitais

Os crimes que usam ativos digitais deixaram de ser nicho de entusiastas. Hoje, aparecem em aplicativos de mensagem, redes sociais, chamadas telefônicas e sites falsos com aparência profissional, muitas vezes imitando bancos e corretoras conhecidas.

Casos recentes mostram vítimas que perdem economias inteiras após clicarem em links de “suporte técnico” ou “atualização de cadastro”. Em muitos episódios, o golpista se passa por atendente de banco ou corretora, obtém acesso remoto ao celular e movimenta contas e carteiras digitais.

Outro ponto é a facilidade de criação de perfis falsos e páginas clonadas em plataformas populares. Sem verificação forte, criminosos conseguem repetir o mesmo golpe com pequenas variações, atingindo públicos diferentes, especialmente idosos e pessoas com pouco conhecimento financeiro.

Esse movimento acontece em paralelo a um cenário de expansão de serviços digitais no país, com bancos, varejo, governo e até plataformas de entretenimento aumentando a coleta de dados e a oferta de soluções online, o que amplia a superfície de ataque e pressiona a segurança digital no Brasil.

Principais tipos de golpes que usam criptomoedas hoje

Os métodos mais usados pelos criminosos combinam engenharia social, falhas de proteção de dados e pouca familiaridade do público com o funcionamento de ativos digitais. Alguns esquemas se repetem com variações, justamente porque funcionam contra diferentes perfis.

Nos esquemas de investimento falso, criminosos prometem lucros rápidos, garantidos e muito acima do mercado. As páginas trazem gráficos, depoimentos e fotos de supostos especialistas, mas não há registro em órgãos reguladores, nem informações claras sobre risco ou origem do rendimento.

Já em invasões de contas, golpistas obtêm dados vazados ou exploram senhas fracas, ausência de autenticação em duas etapas e descuido com links suspeitos. A partir daí, acessam exchanges, aplicativos bancários e e-mails, muitas vezes transferindo criptomoedas para carteiras difíceis de rastrear.

Outra frente é a clonagem de atendimento: perfis falsos em redes sociais e apps de mensagem reproduzem o nome, logotipo e linguagem de empresas verdadeiras. A vítima acredita falar com o suporte oficial, instala aplicativos de acesso remoto e entrega, na prática, o controle do próprio aparelho.

Falhas na proteção ao consumidor brasileiro

Um dos problemas mais citados por especialistas é o descompasso entre o ritmo de evolução dos golpes e a velocidade de resposta de bancos, empresas e órgãos públicos. A legislação costuma reagir depois que o problema se torna massivo.

A Lei Geral de Proteção de Dados trouxe regras para uso de informações pessoais, mas ainda convive com incidentes de vazamentos em grande escala. Quando dados sensíveis circulam em fóruns ilegais, aumentam as chances de ataques personalizados contra clientes de bancos e corretoras.

Outro ponto é a dificuldade do consumidor em entender quem é responsável por uma perda. Em fraudes com moedas digitais, é comum a discussão sobre se o dano veio de falha do usuário, do aplicativo, do banco ou de uma vulnerabilidade externa em sistemas de terceiros.

Em muitos casos, o atendimento inicial orienta a vítima a registrar boletim de ocorrência e procurar canais formais, mas não há retorno rápido e claro sobre estorno ou responsabilização, o que gera a sensação de que a proteção ao consumidor não acompanhou a complexidade dos crimes digitais.

O papel da regulação financeira e dos órgãos de fiscalização

No ambiente regulatório, Banco Central, CVM e outros órgãos acompanham o avanço dos ativos virtuais. Já existem normas específicas para prestadores de serviço de ativos virtuais e discussões sobre exigências mínimas de capital, governança e controle interno para essas empresas.

A atuação de entidades de defesa do consumidor tenta aproximar a leitura jurídica tradicional de fraudes bancárias do universo de ativos digitais. A ideia é evitar que o uso de novas tecnologias se torne uma zona cinzenta em que ninguém responde por prejuízos relevantes.

Em paralelo, o debate sobre notícias falsas, montagens e golpes que usam imagens, áudios e vídeos manipulados ocupa espaço em tribunais e no Legislativo, muitas vezes conectado a discussões sobre deepfakes e desinformação já vistas em contextos como eleições e exposição de celebridades.

Essas discussões regulatórias dialogam com o avanço de fraudes digitais mais amplas, desde golpes com CPF vazado até engenharia social sofisticada, cenário que também aparece em casos como o do vazamento de dados em Pernambuco e em questionamentos sobre como governos assumem responsabilidade por incidentes em massa.

Segurança digital no Brasil: pontos frágeis expostos

O crescimento dos ataques envolvendo criptomoedas se soma a outros episódios que escancaram vulnerabilidades nacionais. Vazamentos massivos de dados pessoais, falhas em bancos de dados públicos e uso crescente de geradores a diesel, drones e estruturas críticas dependentes de sistemas conectados mostram um ambiente sensível.

Quando um conjunto de CPFs, endereços e dados financeiros cai em mãos erradas, o golpista consegue montar um perfil quase completo da vítima. A partir daí, torna-se mais fácil conduzir golpes “sob medida”, com menções a compras reais, bancos usados e até informações de familiares.

Esse contexto mostra por que incidentes regionais, como mega vazamentos, têm efeitos nacionais. O uso posterior desses dados alimenta novos esquemas, inclusive com foco em moedas digitais, carteiras de investimento e benefícios sociais.

Ao mesmo tempo, empresas privadas aumentam investimentos em cibersegurança, mas ainda há questionamentos se o volume e o foco desses aportes são suficientes diante de um cenário em que o país enfrenta falta estimada de recursos para proteção de infraestrutura crítica até meados da década.

Como os golpes com criptomoedas se conectam ao dia a dia do usuário

Para parte do público, moedas digitais ainda parecem algo distante, restrito a quem investe com frequência ou acompanha o mercado financeiro. Na prática, isso não impede que golpistas usem o tema para atrair curiosos ou confundir vítimas pouco familiarizadas.

Muitos esquemas exploram o discurso de “não perder a nova onda” ou “não ficar para trás em relação a amigos que já ganharam dinheiro com cripto”. O apelo emocional ajuda a reduzir o senso crítico e aumenta a chance de cliques em links fraudulentos.

Além disso, carteiras digitais e apps de investimento misturam, na mesma interface, saldo em reais, ações, fundos e ativos virtuais. Pessoas que nunca pesquisaram sobre tecnologia blockchain podem, em poucos toques, comprar ou transferir esses ativos sem entender totalmente os riscos envolvidos.

Em ambiente de alta volatilidade, qualquer aparente “oportunidade exclusiva” se torna mais tentadora. Criminosos usam justamente essa pressa para empurrar propostas que exigem decisões rápidas, depósitos imediatos e pouca checagem de origem.

Responsabilidade das empresas de tecnologia e serviços financeiros

Empresas que lidam com serviços bancários, varejo digital e infraestrutura de comunicação têm papel central nesse cenário. O desenho de interfaces, o número de etapas para autorização de transferências e a clareza dos alertas de risco podem reduzir ou ampliar danos.

Recursos como autenticação em duas etapas, avisos de transação suspeita e limites personalizáveis ajudam, mas dependem de boa configuração e de campanhas de educação. Muitos usuários ainda ignoram notificações e mantêm permissões amplas em dispositivos compartilhados.

Outro desafio é adotar políticas consistentes de atualização de software, verificação de identidade e resposta a incidentes. Plataformas que demoram a bloquear acessos suspeitos ou não comunicam claramente mudanças de segurança acabam abrindo espaço para falsos comunicados explorados por golpistas.

Com a expansão de ferramentas de inteligência artificial usadas tanto para defesa quanto para ataque, cresce a pressão para que empresas revejam, de forma constante, suas estratégias de proteção, transparência e atendimento ao cliente em casos que envolvam ativos digitais.

Educação financeira e digital: o elo mais fraco

Uma parte importante das fraudes é viabilizada pela falta de familiaridade do público com termos básicos de tecnologia e finanças. Expressões como phishing, autenticador, carteira não custodial e chave privada ainda soam distantes para grande parte da população.

Sem esse repertório, o usuário tende a aceitar orientações recebidas por mensagem, e-mails ou ligações que se apresentam como suporte oficial. Em muitos casos, o golpe acontece com a participação ativa da vítima, que digita códigos, lê senhas temporárias e instala softwares indicados por terceiros.

Há também uma lacuna entre o ritmo de adoção de novas tecnologias e o tempo de preparação da população. Serviços baseados em inteligência artificial, biometria avançada e automação bancária surgem mais rápido do que programas estruturados de alfabetização digital.

Esse mesmo descompasso aparece em debates que envolvem escolas, profissões e uso de tecnologia na educação, em que se discutem riscos, benefícios e responsabilidades sobre a formação de jovens para um ambiente de trabalho cada vez mais automatizado.

O que o consumidor pode fazer hoje para reduzir riscos

Embora parte da responsabilidade seja de bancos, empresas de tecnologia e órgãos públicos, algumas práticas individuais ajudam a reduzir a chance de prejuízos em moedas digitais e serviços financeiros conectados.

Entre as medidas mais citadas estão não clicar em links recebidos por mensagens de desconhecidos, verificar endereços de sites antes de inserir dados sensíveis e desconfiar de qualquer pedido de instalação de aplicativos de acesso remoto feito por suposto atendimento.

Também é recomendável ativar autenticação em duas etapas em e-mails, bancos e exchanges, usar senhas fortes e diferentes em cada serviço e revisar periodicamente aplicativos com acesso a dados sensíveis instalados no celular.

Outra frente é acompanhar comunicados oficiais de instituições financeiras e reguladores, observando mudanças de procedimento para evitar cair em mensagens que imitam avisos verdadeiros, mas direcionam o usuário a páginas clonadas.

O Brasil está preparado para o novo ciclo de fraudes digitais?

A combinação de aumento no número de crimes, dados pessoais amplamente expostos, regulação em evolução e ferramentas cada vez mais sofisticadas coloca o país em uma encruzilhada. A pergunta central não é apenas sobre tecnologia, mas sobre coordenação entre diferentes atores.

Sem diálogo eficiente entre governo, empresas, plataformas digitais, Judiciário e órgãos de defesa do consumidor, a resposta tende a ser fragmentada, com ações pontuais que resolvem um tipo de golpe enquanto outros surgem em ritmo acelerado.

A pressão por acelerar investimentos em cibersegurança nacional, qualificar profissionais, revisar leis e responsabilizar agentes que negligenciam proteção cresce à medida que casos de perda financeira se tornam mais visíveis e atingem diferentes faixas de renda.

Enquanto isso, a discussão pública sobre riscos digitais, desinformação, fraudes financeiras e privacidade ganha espaço em diversos setores, aproximando temas como golpes com criptomoedas e exposição de dados de debates mais amplos sobre a capacidade do país de se proteger em um ambiente conectado.

André atua como jornalista de tecnologia desde 2009 quando fundou o Tekimobile. Também trabalhou na implantação do portal Tudocelular.com no Brasil e já escreveu para outros portais como AndroidPIT e Techtudo. É formado em eletrônica e automação, trabalhando com tecnologia há 26 anos.