Por que motoristas brasileiros ainda ignoram os alertas do ADAS?

Apesar dos avanços tecnológicos, a falta de educação adequada sobre ADAS compromete a segurança nas estradas brasileiras.
Publicado dia 14/01/2026
Motoristas brasileiros ainda ignoram avisos de sistemas avançados de assistência veicular
Motoristas brasileiros ainda ignoram avisos de sistemas avançados de assistência veicular
Resumo da notícia
    • Carros no Brasil têm tecnologias avançadas de assistência ao motorista, como frenagem automática e alerta de colisão, mas muitos motoristas desativam esses recursos.
    • Você pode ser afetado por esse comportamento, pois a falta de uso dessas tecnologias diminui a segurança no trânsito e aumenta o risco de acidentes.
    • O baixo uso dos sistemas ADAS no Brasil impacta a segurança viária geral, exigindo melhorias na educação do motorista e infraestrutura.
    • A adoção mais efetiva desses sistemas depende da integração entre formação, campanhas educativas e melhorias na sinalização viária.

Mesmo com carros cada vez mais equipados com tecnologias avançadas de assistência, muitos motoristas brasileiros ainda ignoram avisos sonoros, luzes piscando no painel e sinais de frenagem automática. Essa desconexão entre recursos disponíveis e comportamento ao volante levanta dúvidas sobre como a educação para motoristas, segurança veicular, sistemas ADAS e o contexto do Brasil estão caminhando em direções diferentes.

Por que o ADAS não virou hábito entre motoristas no Brasil

Os sistemas de assistência avançada ao motorista, conhecidos como ADAS, já estão presentes em boa parte dos veículos novos vendidos no país, inclusive em segmentos populares. Frenagem automática de emergência, alerta de colisão e assistente de permanência em faixa são alguns exemplos.

Apesar disso, pesquisas de montadoras, seguradoras e entidades do setor revelam que muitos condutores desativam alertas sonoros e visuais pouco tempo depois de começar a usar o carro. Em alguns casos, o manual é ignorado, e o motorista sequer entende o que cada função faz.

Relatos de concessionárias apontam que uma parte dos compradores sai da loja sem solicitar explicações detalhadas sobre os recursos de assistência. O foco costuma estar em itens como consumo, conectividade do painel multimídia e tamanho do porta-malas.

Esse comportamento ajuda a explicar por que a adoção prática dos recursos não acompanha a presença crescente de tecnologia embarcada nos carros vendidos no país, mesmo com campanhas pontuais de conscientização e ajustes em programas de habilitação.

Quando o alerta parece “incômodo” em vez de proteção

Para muitos motoristas, o primeiro contato com avisos do ADAS acontece em situações de trânsito intenso, ruas estreitas e deslocamentos diários cheios de improviso. Nesse cenário, os alertas constantes podem ser interpretados como exagero ou erro do sistema.

É comum ouvir que o aviso de mudança de faixa “apita demais” em vias com sinalização horizontal apagada ou desgastada, problema frequente em estradas brasileiras. Em trechos urbanos, sensores de proximidade podem reagir a motocicletas, ônibus e obstáculos laterais o tempo todo.

Com isso, alguns condutores passam a enxergar o sistema como um elemento que atrapalha a rotina de direção, e não como uma camada extra de proteção. Em vez de ajustar o uso e compreender as limitações, preferem desligar avisos ou manter apenas os recursos menos invasivos.

Esse comportamento se repete em outras áreas em que a tecnologia tenta corrigir hábitos consolidados, como no uso de celulares em ambientes educacionais ou universitários, onde pesquisadores já apontam consequências cognitivas e emocionais ligadas ao uso excessivo dos dispositivos, como em estudos abordados em pesquisas sobre saúde mental de jovens brasileiros.

Como a formação dos condutores ainda ignora tecnologias modernas

A forma como o futuro motorista é apresentado ao carro influencia diretamente o uso posterior de qualquer tecnologia embarcada. No Brasil, aulas práticas e teóricas costumam priorizar regras de trânsito, baliza, noções básicas de mecânica e condução em baixa velocidade.

Recursos de assistência eletrônica quase nunca fazem parte de uma discussão estruturada nos centros de formação. Muitos carros usados pelas autoescolas nem sequer possuem sensores, câmeras ou sistemas de frenagem automática.

Assim, o novo condutor entra no mercado automobilístico sem repertório mínimo para entender o que o carro é capaz de fazer além do básico. Quando compra um veículo equipado com ADAS, depende de explicações pontuais ou de pesquisas individuais, que nem sempre acontecem.

Esse descompasso lembra debates que aparecem em outras frentes tecnológicas no país, em que a legislação ou a formação não acompanham o ritmo das inovações, como ocorre em discussões sobre segurança móvel e proteção do consumidor abordadas em temas como leis brasileiras de segurança em dispositivos móveis.

Diferença entre saber que existe e saber usar

Ter um carro com assistente de frenagem não significa que o motorista confia no sistema ou conhece seu limite de atuação. O mesmo vale para sensores de ponto cego, câmeras 360 graus ou controle de cruzeiro adaptativo.

Na prática, muitos condutores sabem que o carro possui determinada função porque o vendedor mencionou ou porque o painel exibe um ícone. Porém, desconhecem em quais velocidades o sistema atua, o que o desativa automaticamente ou em que tipo de via o funcionamento é mais confiável.

Essa distância entre conhecimento superficial e domínio real também aparece em ambientes digitais, como no uso de inteligência artificial em serviços do dia a dia. A tecnologia é adotada rapidamente, mas a compreensão dos riscos, limites e responsabilidades vem depois.

No trânsito, essa lacuna pode levar a dois extremos perigosos: confiança excessiva, em que o motorista delega demais ao sistema, ou desconfiança completa, resultando em desligamento dos recursos e retorno a comportamentos manuais, sem nenhuma assistência.

Infraestrutura viária brasileira e limites para o ADAS

Os sistemas de assistência foram desenvolvidos, em grande parte, tendo como referência países com sinalização mais padronizada, pistas em bom estado e menor nível de imprevisibilidade no trânsito diário. Nas estradas brasileiras, a realidade é bem diferente.

Buracos, faixas apagadas, acostamentos estreitos, ausência de defensas e iluminação precária afetam diretamente o desempenho de câmeras e sensores. O assistente de permanência em faixa, por exemplo, depende de linhas bem demarcadas no asfalto para funcionar corretamente.

Quando a sinalização horizontal não é clara, o sistema pode falhar, desativar ou emitir avisos de forma intermitente. Para quem está ao volante, é difícil diferenciar limite técnico do sensor e erro aleatório, o que compromete a confiança geral no conjunto eletrônico.

A convivência com um trânsito em que motocicletas circulam entre carros, veículos pesados dividem pista única com automóveis leves e pedestres atravessam fora da faixa também desafia calibrações feitas para cenários mais previsíveis.

Quando o motorista acha que o sistema “errou”

Casos em que a frenagem automática é acionada de forma brusca diante de um objeto que o condutor considera irrelevante criam a sensação de que o carro exagerou. Em contrapartida, situações nas quais o motorista esperava uma reação do sistema, mas nada aconteceu, geram frustração.

Essa dinâmica abre espaço para comentários em rodas de conversa, redes sociais e fóruns automotivos em que os relatos de falhas se espalham com mais força do que explicações técnicas. O resultado é um ambiente de desconfiança sobre a real utilidade do ADAS.

Em outras áreas da tecnologia, esse fenômeno de frustração também ocorre quando expectativas criadas em torno de recursos avançados não se alinham às limitações reais, como no uso de assistentes de IA em aplicações específicas, que ainda exigem ajustes regulatórios, tal como discutido em temas de saúde digital envolvendo ferramentas como serviços de IA voltados à saúde.

Enquanto isso, estudos internacionais apontam que, em vias bem sinalizadas, sistemas de assistência reduzem colisões traseiras e saídas de pista, reforçando que a tecnologia depende tanto do veículo quanto da qualidade da infraestrutura rodoviária.

Comportamento de risco e confiança nos próprios reflexos

Diversas pesquisas sobre segurança viária mostram que muitos motoristas superestimam suas habilidades. No trânsito brasileiro, esse fenômeno é reforçado por comportamentos arraigados, como avanços em amarelo, conversões arriscadas e pouca distância do carro à frente.

Quando esse perfil encontra o ADAS, surge uma tensão entre a orientação eletrônica e o costume de “conhecer o caminho” ou “saber o tempo do semáforo”. Se o sistema interfere, o motorista pode reagir com irritação, interpretando o aviso como um julgamento da sua condução.

Além disso, existe uma leitura frequente de que esses recursos seriam mais úteis para motoristas inexperientes ou idosos, não para quem dirige há muitos anos. Essa percepção afasta justamente o grupo que, pela quilometragem rodada, mais se expõe a riscos diários.

Discussões parecidas acontecem quando se observa a forma como diferentes gerações lidam com novas tecnologias, como robôs domésticos e soluções de automação que prometem facilitar tarefas, mas enfrentam resistência cultural, algo já explorado em temas ligados à adoção de robôs em contextos brasileiros, como em debates sobre robôs domésticos no país.

Uso do ADAS como “rede de segurança” invisível

Uma das possibilidades mais defendidas por especialistas em trânsito é que o ADAS funcione como uma camada silenciosa de proteção, sempre ativa, mas sem tirar o protagonismo da condução humana. Os avisos seriam complementares, não substitutos da atenção do motorista.

Para chegar a esse ponto, porém, é necessário que o condutor entenda quando confiar no sistema e quando assumir o controle total sem esperar intervenção eletrônica. Esse equilíbrio ainda não foi plenamente alcançado nas estradas brasileiras.

Alguns motoristas usam o controle de cruzeiro adaptativo, por exemplo, como forma de aliviar o cansaço em viagens longas, mas mantêm as mãos no volante e os olhos atentos à pista. Outros já relatam momentos em que se distraíram, confiando demais na automação.

A fronteira entre assistência e automação plena, que ainda não está disponível em larga escala no país, precisa ser claramente comunicada para evitar a crença equivocada de que o veículo é capaz de “dirigir sozinho” em qualquer cenário.

O papel das montadoras, seguradoras e poder público

Enquanto a tecnologia avança, diferentes atores do ecossistema de mobilidade discutem como acelerar a adoção responsável dos sistemas de assistência. Montadoras investem em campanhas, vídeos explicativos e treinamentos presenciais em concessionárias.

Algumas seguradoras, por sua vez, começam a oferecer condições diferenciadas para veículos equipados com determinados recursos eletrônicos, partindo do princípio de que a redução do risco pode se refletir em menor probabilidade de sinistro.

Do lado do poder público, surgem debates sobre inclusão de conteúdos relacionados a ADAS em exames teóricos, materiais didáticos e campanhas educativas, ajudando a aproximar a formação do motorista da realidade tecnológica dos carros mais recentes.

Essas discussões se somam a outras pautas de atualização regulatória diante de novas tecnologias, como as que tratam da necessidade de normas mais precisas para equipamentos eletrônicos e dispositivos portáteis comercializados no país, tema que aparece em análises sobre segurança de carregadores portáteis no contexto brasileiro, como em debates sobre normas de segurança para carregadores.

Educação continuada e uso de dados reais de acidentes

Uma das estratégias apontadas por especialistas é usar dados de acidentes reais para demonstrar como os sistemas de assistência poderiam ter reduzido a gravidade ou evitado determinadas colisões, tornando o debate mais concreto e próximo do dia a dia.

Workshops, cursos rápidos online e conteúdos em redes sociais voltados para condutores recém-habilitados e experientes também são considerados ferramentas importantes para preencher a lacuna deixada pela formação tradicional.

Aplicar exemplos práticos, como simulações de frenagem de emergência em baixa velocidade ou demonstrações de alerta de ponto cego em pistas controladas, pode ajudar a transformar a percepção dos motoristas sobre o papel desses recursos.

Além disso, combinar políticas de incentivo econômico para quem adquire veículos com sistemas avançados com campanhas educativas pode tornar a adoção mais homogênea, e não restrita a nichos específicos do mercado automotivo.

Por que o debate sobre ADAS vai além da tecnologia do carro

Discutir a baixa adesão aos alertas de assistência no trânsito brasileiro não significa apontar apenas para o motorista ou somente para as montadoras. O cenário envolve cultura, infraestrutura, legislação, comunicação e hábitos de mobilidade.

Em um país com grandes diferenças regionais, condições diversas de pavimentação e variações no acesso a carros mais modernos, o caminho para uma adoção consistente passa por soluções adaptadas à realidade local, e não apenas pela importação de modelos estrangeiros.

Ao mesmo tempo, a experiência de outras áreas mostra que tecnologias novas tendem a enfrentar resistência inicial, especialmente quando questionam comportamentos antigos, como a forma de dirigir, de se comunicar ou de consumir informação.

Nesse contexto, a combinação de ajustes em políticas públicas, revisão de práticas de formação de condutores, investimentos contínuos em infraestrutura e comunicação transparente das limitações e capacidades do ADAS deve ganhar espaço nos próximos anos, à medida que mais veículos com esses recursos chegam às ruas e estradas do país.

André atua como jornalista de tecnologia desde 2009 quando fundou o Tekimobile. Também trabalhou na implantação do portal Tudocelular.com no Brasil e já escreveu para outros portais como AndroidPIT e Techtudo. É formado em eletrônica e automação, trabalhando com tecnologia há 26 anos.