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- O avanço das fontes renováveis no Brasil pressiona o sistema elétrico, mas os projetos de baterias em larga escala ainda são limitados.
- Você pode ser afetado pelo atraso no investimento em baterias, que limita a estabilidade e a eficiência da rede de energia elétrica.
- O atraso impacta a sociedade ao aumentar a dependência de termelétricas e comprometer metas ambientais e energia segura.
- O Brasil precisa alinhar regulações e investimentos para acelerar a adoção de tecnologias BESS e modernizar sua matriz energética.
O avanço das fontes limpas no país pressiona o sistema elétrico, mas os projetos de baterias em larga escala ainda andam devagar. Enquanto leilões, regras e modelos de negócio não se alinham, investidores olham para outros mercados e o Brasil corre o risco de atrasar a adoção dos sistemas BESS.
Por que o interesse em BESS cresce, mas o dinheiro não acompanha?
Nos últimos anos, a expansão da geração solar e eólica no Brasil mudou o perfil do consumo de eletricidade. A produção ficou mais distribuída, variável e dependente do clima, o que aumenta a necessidade de tecnologias capazes de armazenar energia em momentos de sobra e liberar quando a demanda sobe.
É exatamente isso que sistemas de baterias em larga escala fazem. Em vez de depender apenas de termelétricas acionadas em horários de pico, as concessionárias podem integrar grandes bancos de baterias às redes de transmissão e distribuição.
Na prática, esses sistemas ajudam a reduzir o acionamento de usinas a diesel em centros urbanos, tema que já aparece em debates sobre como o uso crescente desses geradores pode agravar a crise ambiental em grandes cidades brasileiras, especialmente em períodos de calor intenso e consumo elevado.
Apesar desse cenário, o volume de projetos com baterias conectadas à rede ainda é pequeno quando comparado ao potencial do país e ao que já acontece em mercados como Estados Unidos, Europa e Austrália, onde as baterias deixaram de ser apenas um teste tecnológico e passaram a integrar o planejamento de expansão do sistema elétrico.
Regulação, leilões e o labirinto do investidor em BESS
Um dos principais entraves apontados por analistas é a forma como a regulação brasileira ainda trata o armazenamento de energia. As regras foram pensadas para geradores, transmissores e distribuidores tradicionais, e não para ativos que podem atuar como carga e geração, dependendo do momento.
Sem um enquadramento claro, empresas que avaliam colocar dinheiro em grandes sistemas de baterias enfrentam dúvidas sobre como será a remuneração, quais encargos precisarão pagar e de que maneira poderão participar de leilões de energia, seja como solução de capacidade, seja como apoio à rede.
Esse tipo de incerteza regulatória lembra discussões em outras áreas de tecnologia, como a inteligência artificial aplicada à educação ou saúde, em que o avanço técnico corre mais rápido que as normas, gerando dúvidas sobre responsabilidades, limites de uso e viabilidade econômica dos modelos propostos.
Para investidores, o problema central não é apenas a existência de regras, mas a previsibilidade de longo prazo. Projetos de energia costumam ter vida útil de décadas, e, sem clareza sobre tarifas, encargos e modelos de contratação, o risco percebido sobe, o que encarece financiamentos e afasta capitais mais conservadores.
O papel dos leilões e da remuneração pela confiabilidade da rede
Hoje, boa parte das decisões de expansão do setor elétrico brasileiro passa pelos leilões organizados pelo governo federal. Neles, empreendedores disputam contratos de longo prazo para fornecer energia ou potência, garantindo uma receita mínima que viabiliza os projetos.
Para baterias, esse desenho ainda é limitado. Em vários países, esses sistemas são remunerados não só pela energia entregue, mas também por serviços como controle de frequência, resposta rápida a variações de carga e suporte à tensão da rede.
Essas funções são cada vez mais importantes em matrizes com alto peso de solar e eólica, especialmente em regiões onde a rede já começa a receber projetos de geração distribuída em grande quantidade. O armazenamento permite amortecer picos, reduzindo a necessidade de reforços imediatos em linhas e subestações.
Sem um mercado estruturado para esses serviços no Brasil, muitos estudos de viabilidade de BESS acabam considerando apenas a arbitragem de preços de energia ao longo do dia, o que por si só nem sempre garante retorno suficiente para atrair grandes fundos de infraestrutura.
Custo das baterias, risco cambial e incertezas da cadeia de suprimentos
Outro ponto sensível para o investimento Brasil em armazenamento é a dependência externa de componentes críticos. A maior parte das baterias de íons de lítio de grande porte é produzida no exterior, o que expõe os projetos a oscilações cambiais e eventuais restrições logísticas.
Movimentos globais de política industrial, como tarifas sobre componentes de alta tecnologia ou mudanças em cadeias de fornecimento associadas a chips e eletrônica de potência, também podem influenciar custos finais dos sistemas de armazenamento conectados à rede.
Além disso, embora os preços das baterias tenham caído nas últimas décadas, o ritmo de redução vem se ajustando conforme a demanda cresce e a competição por matérias-primas aumenta. Isso exige análises cuidadosas sobre qual tecnologia adotar, qual horizonte de vida útil considerar e como planejar substituições de módulos ao longo dos anos.
Esse quadro dialoga com discussões mais amplas sobre como tarifas e barreiras podem afetar setores intensivos em tecnologia no país, seja na fabricação de hardware, seja na adoção de infraestruturas digitais que dependem de componentes importados para funcionar de forma competitiva.
Energia renovável, segurança elétrica e o papel das baterias na transição
A expansão da energia renovável no Brasil tem sido puxada principalmente por usinas eólicas no Nordeste e solares em várias regiões do país. A complementaridade hídrica continua importante, mas eventos climáticos extremos têm mostrado limites dessa combinação, com secas prolongadas pressionando reservatórios.
Em cenários de baixa hidrologia, as baterias podem cumprir duas funções relevantes. A primeira é reduzir o acionamento emergencial de termelétricas, que costumam ser mais caras e emissoras de gases de efeito estufa. A segunda é oferecer uma espécie de seguro de estabilidade, respondendo em segundos a oscilações.
Esse tipo de resposta rápida é útil tanto para evitar interrupções quanto para lidar com a crescente digitalização de serviços essenciais, como telecomunicações, hospitais e centros de dados, que dependem de energia confiável para operar. Em muitos desses ambientes, baterias já são usadas em sistemas de backup, mas não integradas ao planejamento da rede pública.
Com a pressão global por metas de descarbonização e fortalecimento de cadeias de energia limpa, o Brasil se vê em posição estratégica, mas precisa decidir se pretende incorporar o armazenamento como parte central dessa transição ou tratá-lo apenas como solução pontual em situações de emergência.
Financiamento, risco de projeto e o olhar dos grandes fundos de infraestrutura
Quando se fala em grandes sistemas de BESS, os valores envolvidos podem chegar a centenas de milhões de reais por projeto, dependendo da potência instalada e da duração da reserva de energia. Isso naturalmente leva o tema para a mesa de fundos de infraestrutura, bancos de desenvolvimento e investidores institucionais.
Para esses agentes, a combinação entre incertezas regulatórias, dependência de importações e ausência de mercado maduro para serviços de rede torna os projetos mais complexos de estruturar. Sem contratos de longo prazo bem definidos, fica difícil encaixar essas iniciativas em carteiras tradicionais.
Em paralelo, o país discute a priorização de recursos públicos e privados para áreas como cibersegurança, educação tecnológica e modernização industrial, o que cria competição direta por capital em um ambiente onde a percepção de risco ainda é relevante.
Nesse contexto, investidores tendem a priorizar projetos com fluxos de caixa mais previsíveis, especialmente em períodos de incerteza econômica global, o que adiciona mais um obstáculo para empresas que desejam lançar portfólios robustos de baterias integradas à rede brasileira.
Conexão com políticas públicas, inovação e formação de especialistas
O desenvolvimento de um mercado de armazenamento em grande escala passa não só por regras energéticas, mas também por políticas industriais, incentivos à pesquisa e formação de profissionais especializados em sistemas de potência, eletrônica e química de baterias.
Programas voltados à capacitação técnica em novas tecnologias podem ajudar a criar mão de obra capaz de projetar, operar e manter sistemas complexos de armazenamento, evitando dependência excessiva de consultorias estrangeiras ou soluções prontas importadas.
A adoção de tecnologias avançadas em energia também se conecta com debates sobre computação de alto desempenho e uso de supercomputadores para modelar cenários de expansão da matriz, simular redes com alto nível de renováveis e desenhar políticas públicas mais ajustadas à realidade nacional.
Quando essas agendas não caminham em conjunto, o país corre o risco de avançar em geração renovável, mas manter estruturas de planejamento e operação apoiadas em ferramentas tradicionais, pouco preparadas para lidar com o comportamento dinâmico de baterias e outras soluções de flexibilidade.
Riscos de atraso na adoção de BESS e o que está em jogo para o Brasil
Se o país demorar a estruturar um ambiente favorável aos sistemas de baterias em larga escala, alguns efeitos podem aparecer nos próximos anos. Um deles é a necessidade de investimentos maiores em redes físicas para acomodar picos de geração e consumo, mesmo quando existiria a alternativa do armazenamento.
Outro efeito possível é a manutenção de uma dependência maior de termelétricas em cenários de estresse, com impacto direto sobre tarifas, emissões e qualidade do ar em centros urbanos que abrigam usinas de pequeno porte a diesel e outros combustíveis fósseis.
Além disso, um atraso na adoção ampla de BESS pode limitar a capacidade do país de integrar de forma segura tecnologias emergentes de geração, como projetos em ambientes desafiadores, que exigem ainda mais flexibilidade da rede para operar com segurança e regularidade.
Por fim, há a dimensão competitiva: à medida que outros mercados consolidam cadeias completas de armazenamento, do fornecimento de componentes ao desenvolvimento de softwares de gestão, o Brasil precisa decidir se será apenas importador de soluções prontas ou se pretende construir uma base própria na área.
O que pode destravar o investimento em BESS na próxima década
Especialistas do setor apontam alguns caminhos para reduzir a hesitação atual. Um deles é criar mecanismos específicos de contratação de flexibilidade, em que baterias sejam remuneradas por serviços prestados à rede além da simples entrega de energia.
Outro ponto é avançar em projetos-piloto em diferentes regiões do país, conectando baterias a subestações estratégicas e sistemas com alta penetração de renováveis, para gerar dados concretos sobre desempenho, custos e benefícios, ajudando reguladores a ajustar normas com base em experiência prática.
Também ganha espaço a discussão sobre como alinhar incentivos de curto prazo, como leilões específicos ou linhas de financiamento direcionadas, com metas de longo prazo para a matriz elétrica, reduzindo a sensação de que o armazenamento é apenas uma solução transitória e não parte estruturante do sistema.
À medida que essas peças se encaixarem, a tendência é que a percepção de risco diminua, abrindo espaço para que fundos, bancos e empresas de energia enxerguem as baterias não como uma aposta incerta, mas como componente recorrente de novos empreendimentos e da modernização da infraestrutura existente.
No fim, a questão central não é se o Brasil vai adotar sistemas de BESS, mas em que ritmo isso vai acontecer e com qual grau de protagonismo nacional na cadeia de valor. A forma como o país responde agora a dúvidas regulatórias, de financiamento e de planejamento vai definir se o armazenamento será apenas acessório ou peça-chave da próxima fase da transição elétrica brasileira.

