Por que o Brasil ainda não aproveita o método ucraniano de interceptação de drones em aplicações civis?

Apesar do avanço ucraniano no combate a drones, o Brasil ainda carece de parcerias para aplicar essa tecnologia em segurança civil e operações aéreas.
Atualizado há 2 horas
Brasil ainda não incorpora avanços ucranianos na defesa contra drones em segurança civil
Brasil ainda não incorpora avanços ucranianos na defesa contra drones em segurança civil
Resumo da notícia
    • A guerra na Ucrânia acelerou tecnologias de interceptação de drones, mas o Brasil ainda não estrutural políticas para segurança civil com essas inovações.
    • Você deve ficar atento, pois a implementação dessas tecnologias pode aumentar a proteção em aeroportos, estádios e áreas sensíveis no Brasil.
    • O avanço em defesa contra drones pode reduzir riscos de ataques e acidentes, beneficiando a sociedade e a segurança pública brasileira.
    • A falta de cooperação internacional e desafios legais atrasam a adoção prática dessas soluções no país.

O avanço da guerra na Ucrânia acelerou o desenvolvimento de sistemas de defesa contra drones, com soluções que vão de bloqueadores de sinal a armas de energia dirigida. Mesmo assim, o Brasil ainda não transformou esse aprendizado em políticas sólidas para uso em aeroportos, grandes eventos e proteção de infraestrutura crítica.

Por que estamos falando de Ucrânia quando o assunto são drones no Brasil

Desde 2022, a Ucrânia se tornou um laboratório a céu aberto para guerra com drones. Pequenos quadricópteros, sistemas kamikaze e aeronaves não tripuladas de longo alcance passaram a ser parte central do conflito.

Em resposta, o país passou a investir pesado em radares de baixa altitude, sistemas de interferência de rádio, sensores acústicos e soluções de software para detecção automática de aeronaves não tripuladas.

A cada novo ataque, surgiram ajustes técnicos, testes de campo e integração entre forças militares, autoridades de fronteira e centros de comando. O resultado é um ecossistema de defesa que combina hardware, redes de comunicação e análise de dados.

Enquanto isso, no Brasil, o debate sobre interceptação de drones aparece mais em momentos de tensão, como prevenção a ataques em presídios, proteção de autoridades e segurança de grandes eventos, do que em um plano estruturado de longo prazo.

O que caracteriza o chamado “método ucraniano” de resposta a drones

Não existe um “pacote” oficial com esse nome, mas analistas de defesa costumam descrever a abordagem ucraniana como um conjunto de camadas integradas para enfrentar aeronaves não tripuladas.

Uma dessas camadas é a detecção precoce em baixa altitude, usando radares específicos para alvos pequenos, aliados a sensores térmicos e sistemas óticos capazes de diferenciar um drone de um pássaro.

Outra componente é a interferência eletrônica, que tenta cortar o link entre o operador e o drone, derrubar o sistema de navegação por GPS ou forçar a aeronave a pousar em área segura, sempre levando em conta o risco de queda em ambiente urbano.

A terceira camada é física: armas antiaéreas leves, munição adaptada e, em alguns casos, sistemas automáticos capazes de rastrear e neutralizar drones com rapidez. Tudo isso apoiado por centros de comando que analisam dados em tempo quase real.

O que poderia ser aproveitado em segurança civil no Brasil

Boa parte dessas soluções não é, por natureza, exclusiva do campo de batalha. Em aeroportos, estádios e áreas industriais, a lógica é semelhante: detectar, identificar e responder a um drone que entra em zona proibida.

Isso é especialmente relevante em um cenário de aumento do uso de aeronaves não tripuladas no país, tanto para entregas, mapeamento, agricultura de precisão quanto para gravações em áreas urbanas densas.

Autoridades de aviação civil já discutem há anos o risco de colisão entre drones e aviões em áreas próximas a aeroportos. Em alguns países, essa preocupação levou à adoção de sistemas dedicados de monitoramento.

No Brasil, ainda há uma lacuna entre regulamentos, como os da ANAC e do DECEA, e a implementação ampla de tecnologias específicas de vigilância aérea de baixa altitude, algo semelhante ao que ocorre quando se debate cibersegurança nacional em comparação com investimentos feitos por grandes players privados.

Aplicações concretas em aeroportos, estádios e fronteiras

Em aeroportos, um sistema inspirado na experiência ucraniana combinaria radares compactos, redes de câmeras, alertas automatizados para torres de controle e protocolos de resposta para pilotos em caso de detecção de drones próximos às rotas de aproximação.

Em estádios e arenas, especialmente em finais de campeonatos ou shows com grande concentração de público, a preocupação não é apenas com acidentes. Drones podem carregar cargas pequenas, mas suficientes para causar pânico em ambientes lotados.

Em áreas de fronteira, o uso ilícito de drones para contrabando e transporte de drogas já foi registrado em diversos países. Soluções que combinam sensores de longo alcance e softwares de rastreamento podem ajudar a mapear rotas e horários mais críticos.

Esses cenários conversam diretamente com debates mais amplos sobre proteção de dados, infraestrutura crítica e novas formas de risco tecnológico que também aparecem em discussões sobre criptografia, senhas e privacidade em casos levados ao STF.

Por que o Brasil ainda não trouxe essa experiência para o dia a dia

Um dos pontos centrais é a ausência de acordos estruturados entre instituições brasileiras e centros de pesquisa ou empresas ucranianas especializadas em guerra eletrônica e defesa contra drones.

Países europeus, por exemplo, firmaram memorandos de cooperação técnica, receberam equipes para treinamento e enviaram delegações para observar testes de campo. No Brasil, as visitas nesse sentido ainda são pontuais.

Outro fator é o custo. Sistemas completos de detecção e neutralização de drones exigem investimentos consideráveis em sensores, redes de comunicação, manutenção e treinamento de equipes, algo semelhante ao que se discute quando se fala em supercomputadores para energia limpa ou em grandes plataformas para análise de dados.

Além do orçamento, há dúvidas jurídicas sobre quem pode operar tecnologias de bloqueio de sinal, como interferência em rádio ou GPS, e como isso se encaixa nas regras de telecomunicações vigentes no país.

Desafios legais e regulatórios que travam o uso civil

Hoje, qualquer sistema que interfira em comunicações de rádio ou dados precisa respeitar normas rígidas de agência reguladora, o que torna complexa a adoção de bloqueadores de sinal em larga escala.

Ao mesmo tempo, a legislação ainda caminha para acompanhar novas formas de risco ligadas a vigilância aérea, captação de imagens e privacidade, tema que aparece em debates sobre filmagens íntimas e câmeras escondidas em ambientes sensíveis.

Quando um drone sobrevoa uma área residencial, um estádio ou um hospital, não está em jogo apenas o risco de colisão, mas a possibilidade de coleta de imagens sem consentimento ou mapeamento detalhado de rotinas de segurança.

Sem uma atualização coordenada entre leis de proteção de dados, normas de aviação e regras criminais, a adoção de sistemas mais robustos de monitoramento tende a avançar de forma fragmentada.

O papel das forças de segurança e das empresas privadas

Polícias militares e civis, guardas municipais e agências federais já utilizam drones em operações de monitoramento, busca e apreensão. Isso cria, na prática, uma convivência constante entre aeronaves tripuladas e não tripuladas em áreas urbanas.

Setores como energia, mineração, logística e agronegócio também passaram a empregar drones para inspeção de linhas de transmissão, oleodutos, florestas e plantações, o que amplia a necessidade de regras claras de segurança operacional.

Ao mesmo tempo, empresas que organizam grandes eventos esportivos, festivais de música e feiras de tecnologia começaram a incluir monitoramento aéreo em seus planos de segurança, mas ainda com foco mais em vigilância do que em resposta estruturada a aeronaves não autorizadas.

As discussões sobre normas técnicas, responsabilidade por incidentes e padronização de equipamentos seguem caminho parecido com o que acontece em outros segmentos tecnológicos no país, como o debate sobre carregadores portáteis e a necessidade de regulamentações mais atualizadas.

Como a experiência ucraniana poderia ser traduzida em políticas públicas

Uma forma direta de aproveitar o aprendizado recente seria a criação de programas de cooperação focados em três frentes: transferência tecnológica, treinamento operacional e adaptação regulatória.

Na transferência tecnológica, o interesse estaria em radares de baixa altitude, algoritmos de detecção automática, sistemas de fusão de sensores e plataformas de comando adaptadas a centros de operações de segurança urbana.

No treinamento, equipes brasileiras poderiam participar de exercícios em simulações complexas, com múltiplas aeronaves, condições climáticas adversas e cenários de interferência de sinal, algo difícil de reproduzir em ambiente puramente acadêmico.

Na adaptação regulatória, grupos de trabalho conjuntos poderiam mapear como leis de telecomunicações, defesa aérea e proteção de dados foram ajustadas em países que já adotam sistemas de bloqueio e neutralização em áreas civis.

Onde a tecnologia pode colidir com direitos individuais

A adoção de redes de sensores, radares e câmeras voltadas para o céu em áreas urbanas abre um debate delicado sobre até que ponto é possível monitorar o espaço aéreo sem ampliar, na prática, a vigilância sobre pessoas no solo.

Imagens e dados coletados para rastrear drones podem, incidentalmente, capturar detalhes de rotinas, rostos, placas de veículos e trajetos de pedestres, o que exige políticas claras de armazenamento, anonimização e descarte.

Esse dilema é semelhante ao encontrado em discussões sobre inteligência artificial em escolas, saúde ou varejo, onde sistemas criados para aumentar eficiência ou segurança acabam levantando dúvidas sobre privacidade e uso secundário de dados.

Sem regras precisas sobre a finalidade desses sistemas, quem tem acesso aos registros e por quanto tempo, a desconfiança pública em relação a qualquer expansão de vigilância tende a crescer.

Onde entram as empresas de tecnologia e as startups brasileiras

O campo de defesa contra drones não é exclusivo de grandes fabricantes estrangeiros. Startups especializadas em visão computacional, análise de sinais, sensores de baixo custo e integração de sistemas podem desenvolver partes importantes da cadeia.

Isso inclui desde algoritmos capazes de classificar objetos voadores a partir de imagens de câmeras já instaladas em cidades, até adaptadores para integrar diferentes tipos de sensores em um mesmo painel operacional.

Empresas que já atuam com monitoramento de infraestrutura, redes elétricas e telecomunicações têm experiência em lidar com grandes volumes de dados em tempo real, algo essencial para sistemas de vigilância aérea eficiente.

A aproximação com universidades e centros de pesquisa que estudam os efeitos cognitivos do uso de tecnologias móveis e digitais também pode ajudar a avaliar como operadores humanos lidam com decisões rápidas em situações de risco.

Riscos de esperar demais para agir

À medida que drones se tornam mais acessíveis e capazes de voar mais longe com cargas maiores, cresce o potencial de uso indevido em fraudes, espionagem industrial ou ataques direcionados.

Sem uma infraestrutura mínima de vigilância aérea de baixa altitude, autoridades tendem a depender de denúncias pontuais, gravações casuais e poucos recursos de monitoramento para reagir a incidentes.

Em paralelo, criminosos e grupos organizados podem experimentar rotas, altitudes e horários com pouca chance de detecção, o que torna mais difícil reagir quando um evento ganha escala.

Esse descompasso entre regulamentação formal e capacidade prática de fiscalização lembra, em parte, o que ocorre em outros setores onde a tecnologia avança mais rápido do que as regras, como o uso de geradores a diesel em centros urbanos sem planejamento ambiental adequado.

Caminhos possíveis para uma estratégia brasileira

Uma agenda mais estruturada poderia começar pela definição de áreas prioritárias: grandes aeroportos, complexos industriais estratégicos, centrais de energia, centros de dados e estádios de maior porte.

Nesses locais, projetos-piloto com sensores, radares compactos e sistemas de alerta em parceria com empresas especializadas permitiriam testar soluções com foco em ambiente civil, com protocolos claros de transparência e prestação de contas.

Na sequência, seria possível avaliar mecanismos de financiamento que envolvam tanto orçamento público quanto parcerias com o setor privado, especialmente em segmentos mais sensíveis a interrupções, como telecomunicações e finanças.

Ao mesmo tempo, debates legislativos poderiam alinhar a adoção desses sistemas com normas de proteção de dados, transparência algorítmica e auditoria independente, em linha com discussões atuais sobre uso de tecnologias emergentes no país.

No fim, a experiência acumulada na Europa Oriental mostra que não se trata apenas de copiar soluções militares, mas de traduzir aprendizados de campo para uma realidade em que aeroportos, cidades e fronteiras convivem cada vez mais com drones, exigindo que interceptação de drones, tecnologia ucraniana e segurança civil no Brasil caminhem juntas em um mesmo planejamento de longo prazo.

André atua como jornalista de tecnologia desde 2009 quando fundou o Tekimobile. Também trabalhou na implantação do portal Tudocelular.com no Brasil e já escreveu para outros portais como AndroidPIT e Techtudo. É formado em eletrônica e automação, trabalhando com tecnologia há 26 anos.