O app Meta AI tem quatro chaves que reduzem o que os óculos Ray-Ban Meta enviam e guardam nos servidores da Meta, mas nenhuma delas encerra a coleta, segundo um guia publicado neste domingo (25) pelo Engadget. Nos EUA, as gravações de voz feitas com o assistente continuam indo para a nuvem com qualquer configuração.

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Neste artigo
  1. "Hey Meta", mídia na nuvem e as outras chaves do app Meta AI
  2. O que cada ajuste de privacidade corta e o que continua indo para a Meta
  3. Revisores terceirizados, LED de gravação e o desgaste de 2026
  4. Denúncia à ANPD mira quem é filmado, e não quem usa os óculos
  5. Ray-Ban Meta no Brasil: preço, modelos e o que não se sabe do app

O tema pesa no Brasil. A segunda geração dos óculos é vendida aqui desde setembro de 2025, a partir de R$ 3.299, com o mesmo app. E desde 20 de agosto o produto é alvo de uma denúncia do Idec e da Coding Rights à ANPD, à Senacon e ao MPF, que trata justamente do que esses menus não alcançam: a pessoa filmada por quem usa os óculos.

"Hey Meta", mídia na nuvem e as outras chaves do app Meta AI

A primeira chave é o "Hey Meta": ligado, os óculos ficam à espera da frase de ativação o tempo todo, e uma conversa comum pode acioná-los por engano. Desligada a opção, o Meta AI ainda atende pelo touchpad da haste direita. O que for dito ao assistente de propósito continua sendo processado pela Meta. Nos EUA, o usuário não pode mais impedir que essas gravações fiquem guardadas na nuvem; só dá para apagá-las à mão no registro de atividade de voz (Voice activity log), na área de privacidade dos óculos. Na União Europeia, a recusa ainda existe, segundo reportagem anterior do Engadget.

A segunda é a "Cloud media". Ligada, ela permite à Meta manter cópias de fotos e vídeos em seus servidores por até 30 dias. Desligada, o conteúdo fica na memória dos óculos até ser importado para o celular, e somem funções como a captura automática (autocapture). A Meta afirma que a galeria não treina IA nem alimenta anúncios.

A terceira, "Share additional data", corta estatísticas opcionais de uso. A quarta, "Store visual data from AI experiences", é a mais nova: anunciada pela Meta em 23 de setembro de 2026, ela impede que as imagens enviadas ao assistente sejam guardadas para treinar IA ou vistas por revisores. Quem tem mais de um par, como um de primeira geração, precisa repetir o ajuste em cada um.

O que cada ajuste de privacidade corta e o que continua indo para a Meta

Tela do app Meta AI com as preferências do "Hey Meta" desligadas, em um celular
Reprodução/Engadget (Imagem: reprodução)

Na prática, os quatro ajustes diminuem o rastro sem zerá-lo:

AjusteO que desligaO que se perdeO que continua
"Hey Meta"Escuta contínua da frase de ativaçãoAcionar o assistente pela voz (o toque na haste segue valendo)Áudio dos pedidos feitos de propósito; nos EUA, gravações na nuvem até serem apagadas
Cloud mediaCópias de fotos e vídeos nos servidores por até 30 diasCompartilhar por voz e captura automáticaImagens das perguntas visuais ao assistente; backups do iCloud ou do Google Fotos
Share additional dataEstatísticas opcionais de usoNada em fotos, chamadas ou músicaDados que a Meta diz precisar para operar e proteger os óculos; o que já foi coletado
Store visual data from AI experiencesGuarda de imagens do assistente para treino de IA e revisão humanaLembretes visuais podem parar de funcionarProcessamento da imagem na hora do pedido; dados visuais antigos; áudio dos comandos de voz

A Meta descreveu a opção visual ao Engadget em setembro com uma frase direta: "se você recusou e pede aos óculos que traduzam um cardápio, usamos seus dados visuais para responder e depois eles somem". Segundo a empresa, o material "não é usado para treino e ninguém o revisa para melhoria do produto". Mas nenhum ajuste apaga o que já foi coletado, e o áudio segue podendo ser usado em treino e revisão.

Revisores terceirizados, LED de gravação e o desgaste de 2026

A chave de setembro chegou depois de meses de pressão. Quando o usuário pergunta ao Live AI sobre o que vê, os óculos tiram uma foto. Ela não vai para o rolo da câmera, mas a Meta a guarda, a menos que o dono recuse, e contratados terceirizados revisam e rotulam parte dessas capturas. A empresa diz filtrar informações identificáveis. Trabalhadores no Quênia relataram ter visto cenas de sexo e de pessoas usando o banheiro; segundo a BBC, donos dos óculos abriram dois processos depois disso. Em março, uma ação coletiva sobre o tema foi proposta na Califórnia.

Com a voz, cada interação é gravada e transcrita; ativações acidentais levam até 90 dias para sair dos sistemas, segundo o Engadget. O outro ponto de atrito é o LED. Cobri-lo desativa a câmera, mas existem acessórios e gambiarras para burlar a luz, e a Meta lançou uma atualização que desativa a câmera se o LED for adulterado. À BBC, em maio, a porta-voz da Meta Tracy Clayton disse: "Temos equipes dedicadas a limitar e combater o uso indevido, mas, como acontece com qualquer tecnologia, a responsabilidade final é das pessoas de não explorá-la ativamente."

Denúncia à ANPD mira quem é filmado, e não quem usa os óculos

Logotipo da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD)
Reprodução/ANPD (Imagem: reprodução)

É essa transferência de responsabilidade que o Idec e a Coding Rights contestam. O ofício protocolado em 20 de agosto afirma que o LED só é visível para quem olha direto para a armação e com boa luz, aponta indícios técnicos de burla e diz que imagens e áudios são enviados aos servidores da Meta e rotulados por prestadores. O documento cita um ginecologista denunciado em Salvador (BA) por usar óculos inteligentes durante uma consulta.

"Sob a ótica do consumidor, o que temos aqui é uma empresa que colocou no mercado um produto perigoso, e transferiu para quem nem sequer comprou o dispositivo a tarefa de se proteger dele", afirmou Julia Abad, do Idec.

À ANPD, as entidades pedem fiscalização, um Relatório de Impacto à Proteção de Dados com seção sobre riscos a mulheres, crianças e adolescentes, uma medida preventiva contra reconhecimento facial de terceiros sem autorização e um canal gratuito em português para que quem não usa o produto exerça os direitos do artigo 18 da LGPD. Ao MPF, pedem inquérito civil público; à Senacon, apuração de defeito de segurança. O texto também menciona documentos internos noticiados em fevereiro sobre uma ferramenta de reconhecimento facial chamada "Name Tag", cujo código teria sido removido do app em junho.

Pelos números da IDC citados na denúncia, o mundo comprou 9,6 milhões de óculos inteligentes em 2025, e a projeção é de 13,4 milhões até o fim de 2026, com a Meta respondendo por cerca de 76% das vendas.

Ray-Ban Meta no Brasil: preço, modelos e o que não se sabe do app

Os Ray-Ban Meta Gen 2 chegaram ao país primeiro em lojas físicas da Ray-Ban, a partir de R$ 3.299, nos modelos Wayfarer, Skyler e Headliner, com lentes transparentes, solares ou de grau. Sem tela, com vídeo em 3K e bateria de até 8 horas, eles só funcionam conectados a um celular com o app Meta AI.

O guia do Engadget não diz se os menus têm os mesmos nomes e efeitos na versão brasileira do app, e a Meta não informou se a opção de dados visuais vale aqui, nem se a regra americana que impede recusar a gravação de voz se aplica ao Brasil. Nenhuma reportagem publicada traz resposta da empresa à denúncia. Também não há, nas reportagens consultadas, decisão da ANPD, do MPF ou da Senacon.