Um estudo conduzido por pesquisadores de Stanford, Imperial College London e Internet Archive indica que cerca de 35% das novas páginas na web já carregam texto gerado ou assistido por IA, o que altera de forma direta a maneira como confiamos — e lemos — a internet.

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Neste artigo
  1. Como o estudo descobriu que 35% dos novos sites usam IA?
  2. Detector de IA funciona mesmo para achar texto do ChatGPT?
  3. Qual site usar para verificar (ou tirar) traços de IA?
  4. O ChatGPT é plágio? Copiar dele vira problema?
  5. Como tirar os rastros do ChatGPT de um texto?
  6. Quais sites criam sites com IA — e o que isso tem a ver com o estudo?
Já se pegou duvidando sobre a autoria humana de um texto? Entenda as tentativas de criar uma forma de detectar o uso de IA para escrever
Já se pegou duvidando sobre a autoria humana de um texto? Entenda as tentativas de criar uma forma de detectar o uso de IA para escrever (Imagem: reprodução/revistagalileu.globo.com)

De acordo com o levantamento, a presença de modelos de linguagem dispara a partir do fim de 2022, logo depois do lançamento do ChatGPT, e hoje um em cada três sites recém-criados exibe padrões típicos de automação. Os autores trabalharam com arquivos da Wayback Machine, no recorte entre agosto de 2022 e maio de 2025, e aplicaram o software Pandram v3 para localizar sinais de conteúdo automatizado nas páginas.

Como o estudo descobriu que 35% dos novos sites usam IA?

Os pesquisadores cruzaram dados do Internet Archive com modelos de detecção desenvolvidos pela própria equipe para medir a penetração de modelos de linguagem na web recente. A análise se baseou em amostras de sites arquivados pela Wayback Machine, com foco em páginas criadas a partir de agosto de 2022, e rodou o Pandram v3 em busca de padrões estatísticos característicos de texto automatizado.

O resultado: até meados de 2025, cerca de 35% das novas páginas foram classificadas como geradas ou assistidas por IA. Antes do ChatGPT, esse índice ficava perto de zero. Em poucos anos, o que antes dependia quase só de trabalho humano passou a dividir espaço com uma fatia considerável de conteúdo produzido por modelos de linguagem. E o impacto não ficou restrito ao “quem escreveu”: o estudo aponta que esses textos tendem a soar mais “alegres”, menos prolixos e, sobretudo, mais parecidos entre si, com perda de diversidade de estilo e de vocabulário.

Os autores não identificaram crescimento consistente de mentiras verificáveis nem queda acentuada no uso de fontes. A piora percebida por parte dos usuários, segundo o trabalho, nasce mais dessa “monocultura” de estilo do que de uma explosão mensurável de desinformação.

Detector de IA funciona mesmo para achar texto do ChatGPT?

Ferramentas como GPTZero, Copyleaks, ZeroGPT e similares ganharam espaço justamente com a expansão de conteúdo automatizado. A lógica por trás delas segue um mesmo eixo: medir perplexidade (o quão previsível é a próxima palavra) e variabilidade (ritmo e comprimento das frases). Texto previsível demais, com cadência constante, entra na zona suspeita de IA.

No uso real, esses detectores ficam longe de qualquer status de oráculo. Um estudo da Universidade de Maryland, citado pela Galileu, indica que mesmo o “melhor” detector opera próximo de uma moeda ao ar estatística. Outro trabalho, da Universidade de Stanford, apontou viés forte: até 61% dos textos de estudantes que não têm inglês como língua nativa foram classificados como IA, contra 5% entre nativos. Em testes mencionados por pesquisadores, a precisão chegou a 39,5% e desabou para 22,1% depois de pequenas edições humanas no texto.

Nesse cenário, usar detector de IA como prova definitiva em escola ou empresa leva direto ao risco de punir inocentes. O uso faz mais sentido como triagem em massa, não como sentença. E, conforme os modelos de linguagem avançam, esses detectores derrapam ainda mais.

Qual site usar para verificar (ou tirar) traços de IA?

Para verificar se um texto se parece com produção de IA, há detectores gratuitos e pagos. O GPTZero se tornou o mais conhecido ao focar em uso educacional, com suporte para colar ou enviar documentos inteiros para avaliação. O Copyleaks oferece um detector de IA com planos premium e um modo gratuito bastante limitado, de até 250 caracteres, voltado para teste rápido.

Para quem procura “detector de IA gratuito” sem cadastro, surgiram serviços como Content at Scale, que aceitam trechos curtos para análise de previsibilidade. A velha pergunta “como saber se um texto foi escrito pelo ChatGPT” ganhou um procedimento recorrente com esses sites: passar o conteúdo por pelo menos dois detectores diferentes e comparar a leitura. Quando ambos apontam IA com alta confiança, o risco aumenta; quando divergem, o peso recai mais sobre a leitura crítica humana.

Já quando a preocupação é “humanizar texto feito por IA” e reduzir rastros, entram serviços com outra proposta: WriteHuman, QuillBot, HumanizeAI, WriteSonic e similares partem do pressuposto de que o texto veio de um modelo de linguagem e o reescrevem tentando quebrar padrões de previsibilidade. Isso não “apaga” o uso de IA; apenas torna o conteúdo menos óbvio para detectores — com o mesmo potencial para enganar professor, chefe ou cliente que não esteja atento.

Uma das cópias mais antigas da Odisseia tem trecho "esquecido" por versões atuais
Uma das cópias mais antigas da Odisseia tem trecho "esquecido" por versões atuais (Imagem: reprodução/revistagalileu.globo.com)

O ChatGPT é plágio? Copiar dele vira problema?

Plágio não gira em torno de ferramenta, e sim de autoria. O ChatGPT gera frases novas a partir de padrões estatísticos e não replica longos trechos de uma fonte específica; nessa linha, o texto bruto não constitui plágio de um autor identificado. O problema começa quando alguém pega esse material, assina como se fosse trabalho próprio e entrega em prova, TCC ou relatório sem informar a origem.

Na prática, muitas instituições já classificam “copiar do ChatGPT” como fraude acadêmica, mesmo sem recorte direto de outro autor. Para a banca ou para o RH, o detalhe técnico pesa pouco: se a pessoa diz que produziu algo e quem escreveu foi um chatbot, o caso entra na mesma categoria ética do plágio clássico. Em ambientes corporativos, ainda entra o risco de confidencialidade — despejar dado sensível em IA pública e reapresentar como relatório “autoral” tende a virar problema grave.

A pergunta “o ChatGPT é considerado plágio?” esbarra no regulamento de cada instituição. Quem usa o texto pronto, sem revisão, checagem ou crédito, assume o risco de ser enquadrado como se tivesse copiado de qualquer outra fonte.

Como tirar os rastros do ChatGPT de um texto?

Não existe botão único para “remover traços de IA”. O que existe é reescrita de verdade — ou truque para enganar detector, com resultado cada vez mais incerto. Ferramentas como QuillBot, WriteHuman ou HumanizeAI tentam automatizar esse processo: mexem em conectivos, trocam a ordem das frases, inserem variação de vocabulário. Servem, no limite, para suavizar o tom mecânico.

Para entregar algo que realmente soe como produção própria, não há atalho ético: usar o ChatGPT como rascunho, depois reescrever no próprio estilo, incluir exemplos pessoais, dados verificáveis, posicionamento claro. Elementos que nenhum detector consegue forjar. Para quem se preocupa em “como tirar os rastros do ChatGPT” só para burlar regra de escola ou empresa, o recado dos mesmos estudos que apontam falhas nos detectores é direto: basta uma mudança de política interna para que a questão deixe de ser tecnológica e passe a ser disciplinar.

Toda tentativa de “apagar” IA enfrenta um paradoxo. Quanto mais os modelos evoluem, mais o texto se aproxima do que se espera de um humano, e menor fica a ideia de rastro identificável. Ao mesmo tempo, as plataformas continuam registrando logs de uso. O risco não está só no PDF final; está também na etapa e no contexto em que o conteúdo foi gerado.

Quais sites criam sites com IA — e o que isso tem a ver com o estudo?

Construtores de site com IA surfam exatamente a onda descrita na pesquisa com o Internet Archive. Plataformas de criação automatizada montam layout, texto institucional, posts de blog e até páginas completas a partir de poucos prompts. Elas não aparecem citadas nominalmente no estudo, mas o efeito estatístico é o mesmo: páginas novas com linguagem padronizada, tom “alegre”, frases previsíveis.

Na prática, qualquer serviço de criação de sites que acoplou modelos de linguagem — de grandes players a ferramentas menores de nicho — alimenta a estatística dos 35%. A conveniência é imediata, sobretudo para quem só quer “colocar um site no ar” no menor tempo possível. O custo oculto é uma web mais homogênea, em que dez empresas distintas soam idênticas porque terceirizaram a própria voz para o mesmo modelo.

Os autores do estudo planejam aprofundar o monitoramento por tipo de site e idioma, em parceria contínua com o Internet Archive. Se os dados confirmarem que determinados setores ou línguas têm presença maior de IA, a discussão passa a atingir regulação, SEO e política de plataforma. A estatística de um em cada três sites aparece como ponto de partida de uma internet com menos texto escrito por gente — e mais dependente de modelos treinados em um passado que a própria web começa a deixar para trás.