A Wikimedia Foundation registrou queda de cerca de 8% nas visualizações humanas da Wikipédia na comparação ano a ano, e atribui a perda ao avanço das ferramentas de busca com inteligência artificial e dos vídeos curtos em redes sociais. O dado saiu de uma análise publicada pela própria fundação, assinada por Marshall Miller, que comparou o período de março a agosto de 2025 com os mesmos meses de 2024, e voltou ao centro do debate em outubro, quando a CEO Bernadette Meehan o retomou em entrevista ao Axios para cobrar das empresas de IA um pagamento pelo uso dos dados.

Adicione ao Google Notícias
Neste artigo
  1. A ressalva que começou no Brasil
  2. O custo que cresce enquanto a visita cai
  3. Por que isso é diferente para a Wikipédia

"Não estamos pedindo caridade", disse Meehan, ao afirmar que parte das companhias reconhece se beneficiar do acervo e aceita contribuir, enquanto outras admitem o uso intenso dos dados mas recusam assinar o acesso corporativo que a fundação oferece.

A ressalva que começou no Brasil

O número de 8% exige um cuidado que a própria Wikimedia faz questão de registrar. Em maio de 2025, a fundação notou um volume de tráfego anormalmente alto, boa parte dele vindo do Brasil, com comportamento que parecia humano nas métricas mas não se sustentava no exame detalhado. A investigação concluiu que eram bots construídos justamente para escapar dos filtros de detecção.

A consequência técnica foi grande: a fundação reescreveu a lógica que separa pessoas de robôs e reclassificou seis meses de dados já coletados. Ou seja, a régua mudou no meio da série — e é por isso que a entidade alerta que comparações ano a ano precisam ser lidas com reserva. Estimativas de terceiros chegam a números bem diferentes, de 23% a mais de 34% de queda, com metodologias que não são comparáveis entre si.

O custo que cresce enquanto a visita cai

Há um segundo efeito, menos citado e mais concreto na contabilidade: o consumo de banda para download de mídia subiu 50% desde janeiro de 2024, puxado em parte por raspadores automatizados que alimentam modelos de IA. A fundação fica, então, com os dois lados ruins da conta — menos gente na página, onde aparecem os pedidos de doação que a sustentam, e mais infraestrutura para servir máquinas que não doam.

É o mesmo mecanismo que atinge qualquer site de referência quando a resposta passa a ser entregue na própria página de busca, sem clique: o fenômeno que o setor chama de busca sem clique, ou zero-click search, e que ganhou escala com as respostas automáticas que o Google exibe no topo dos resultados.

Por que isso é diferente para a Wikipédia

A enciclopédia não vende anúncio nem assinatura: ela depende de doação de quem visita e de verba institucional. Perder visita não reduz só receita — reduz também a chance de recrutar editor, já que o voluntário quase sempre começa como leitor que encontrou um erro e decidiu corrigir.

Ao mesmo tempo, a Wikipédia é insumo de praticamente todos os grandes modelos de linguagem, que foram treinados com seu texto porque a licença permite. O impasse de agora é de outra ordem: a licença autoriza o uso do conteúdo, mas não garante nada em troca — e é exatamente essa lacuna que a fundação tenta transformar em contrato.

A estratégia oficial da entidade para IA, publicada em 2025, vai na direção contrária da substituição: usar automação para tirar trabalho repetitivo das mãos dos moderadores e tradutores, mantendo a decisão editorial com os voluntários.