Dois dos maiores YouTubers de filmmaking, Matti Haapoja e Sam “Kold” Kolder, entraram na mira dos próprios fãs após publicarem vídeos exaltando a plataforma de IA Higgsfield.

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Neste artigo
  1. O que Haapoja e Kolder fizeram com a Higgsfield e o Seedance 2.5?
  2. Por que os fãs reagiram tão mal a esses vídeos?
  3. Como Higgsfield e outras empresas de IA estão usando criadores para limpar a imagem?
  4. Parceria com empresa de IA é dinheiro fácil ou risco de imagem?

Os vídeos destacam recursos da Higgsfield, em especial o Seedance 2.5, tratados como o “futuro da produção de vídeo”, sem qualquer identificação clara de publicidade. Ao mesmo tempo, começaram a circular supostos prints de propostas de parceria enviadas por assessorias ligadas à empresa, o que levou parte do público a concluir que se trata de ação paga não declarada. Nem os criadores, nem a Higgsfield esclareceram se houve acordo comercial.

O que Haapoja e Kolder fizeram com a Higgsfield e o Seedance 2.5?

Nos últimos dias, Haapoja e Kolder publicaram vídeos em que usam a Higgsfield e o módulo Seedance 2.5 para misturar gravações reais com imagens geradas por IA. Haapoja monta praticamente um infomercial: detalha como o longa Cully Hill Boys — estrelado por duplicatas geradas por IA dos YouTubers Mikyle “N3on” Rafiq e Matt Kiatipis — foi produzido via prompts, e ainda se coloca em diferentes cenários sci-fi por meio do Seedance 2.5.

Já Kolder publicou um vídeo chamado “AI is replacing me”, em formato de narrativa ficcional estilo Chappie, em que explora a Mauritânia ao lado de um robô, mesclando tomadas reais e imagens artificiais com visual estranho e desconfortável. Nenhuma das duas produções é marcada como anúncio, mas a legenda do vídeo de Kolder inclui o que parece ser um link de afiliado com desconto de 30% em uma assinatura anual da Higgsfield, reforçando a leitura de publi velada entre os fãs.

Por que os fãs reagiram tão mal a esses vídeos?

O atrito não vem só da aversão a IA, e sim da sensação de que Haapoja e Kolder usaram a confiança construída como “artistas humanos” para empurrar uma plataforma cercada de controvérsia. Em Threads, o vídeo de Haapoja foi recebido com forte rejeição de fãs e colegas criadores. Marques Brownlee criticou diretamente a comparação feita por Haapoja entre a IA generativa e a Canon EOS 5D Mark II, câmera que democratizou o full HD para independentes, lembrando que, ao contrário do hardware, modelos de IA são “treinados em material humano real sem qualquer crédito”.

No YouTube de Kolder, o clima ficou mais dividido. Alguns elogiaram a execução — comentários como “absolute cinema!” e “amazing transitions!” aparecem com frequência. Mas, para cada punhado de elogios, surgem lamentações do tipo “AI defeated our king” e declarações de que “nenhuma IA substitui artistas criativos”. A crítica não mira só a estética estranha das imagens, e sim a escolha de associar a própria identidade criativa a uma tecnologia encarada como ameaça de emprego e de originalidade.

Como Higgsfield e outras empresas de IA estão usando criadores para limpar a imagem?

O caso Higgsfield não está isolado. A plataforma já vinha se aproximando de criadores com o longa Cully Hill Boys, que estreou na semana anterior sem grande barulho. Nos posts do elenco sobre o filme, o clima é de torcida e pancada misturados: entusiastas de IA aplaudem, enquanto outros acusam a empresa de produzir “slop”. O foco das críticas quase nunca recai sobre os atores, que cederam imagem, mas participaram pouco da produção; a mira vai direto para a empresa.

Com Haapoja e Kolder, o ruído subiu de nível porque os vídeos soam como campanha planejada para conquistar boa vontade do público — sem transparência comercial. A Higgsfield, criada para viabilizar exatamente esse tipo de vídeo faceless e gerado por texto, já é avaliada em US$ 1 bilhão, segundo seu fundador, Alex Mashrabov, e integra uma leva de empresas de IA que estão despejando dinheiro em marketing com influenciadores. Ao endossar IA de forma tão explícita, criadores com base de fãs grande viram para-raios do sentimento anti-IA que vem crescendo nas redes.

Parceria com empresa de IA é dinheiro fácil ou risco de imagem?

Para quem vive de conteúdo, a equação vem carregada de armadilhas. De um lado, empresas como Higgsfield e OpenAI têm verba para pagar caro por atenção. Do outro, o desgaste vem rápido. Um retiro de luxo promovido pela OpenAI em Nova York, o “Summer Club”, já havia gerado rejeição quando influenciadores postaram apenas fotos da viagem e brindes da marca — mesmo sem vídeos longos demonstrando ferramentas.

O padrão que se desenha é claro: parcerias com IA expõem um descompasso entre valores do público — preocupado com desinformação, emprego criativo e uso de obras sem crédito — e o fato de o criador se tornar garoto-propaganda desse pacote todo. Criadores como Haapoja e Kolder se vendem como cineastas cuja graça está justamente na técnica, no olhar e no trampo manual. Colar a própria marca em um serviço que gera filmes com clones de YouTubers a partir de prompts envia para parte da audiência um recado de abandono desses princípios.

Com YouTube testando até edição automática por IA em Shorts e a plataforma apertando o cerco contra “AI slop” em canais faceless, criadores passam a operar em um ambiente em que qualquer experimento com IA é lido também como posicionamento público sobre o futuro do trabalho criativo.