A Anthropic, dona do Claude, protocolou nesta segunda-feira (26) o pedido de IPO (oferta pública inicial de ações) na SEC, a CVM dos Estados Unidos, por meio do Formulário S-1, e vai pedir a listagem na Nasdaq com o código "ANT". O prospecto mostra receita de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, 13,6 vezes os US$ 1,2 bilhão do mesmo período de 2025, e um prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões.
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É a primeira vez que a empresa de São Francisco abre as contas ao público. Para quem paga o Claude ou usa o Claude Code no trabalho, o documento mostra quanto custa manter os modelos no ar, de quantos clientes grandes a empresa depende e quem manda nela depois da abertura de capital. Para quem pensa em comprar a ação, há uma resposta curta: ainda não dá.
O que diz o pedido de IPO da Anthropic na SEC
O anúncio da empresa é seco: "Today, Anthropic, PBC filed a registration statement on Form S-1 with the U.S. Securities and Exchange Commission". A oferta é de ações ordinárias Classe A, que a companhia pretende listar no segmento Nasdaq Global Select Market. Goldman Sachs e Morgan Stanley são os contatos indicados para obter o prospecto preliminar.
Faltam os números que o mercado mais quer. A Anthropic informa que a quantidade de ações e a faixa de preço não foram definidas, e que o registro ainda não está efetivo. Até a SEC declarar o registro efetivo, ninguém pode vender nem comprar as ações. Segundo o StartupHub, a página inicial do documento também não traz o destino do dinheiro nem o período de lockup (a trava para venda de ações pelos acionistas atuais).
O S-1 público fecha um processo que começou em 1º de junho, quando a Anthropic enviou à SEC um rascunho confidencial do mesmo formulário. Pelas regras da SEC, lembra o Yahoo Finance, quem usa a via confidencial precisa tornar o documento público pelo menos 15 dias corridos antes de começar o roadshow, a rodada de apresentações a investidores. O prospecto tem 335 páginas, 94 delas dedicadas a fatores de risco, segundo o PYMNTS.
Receita de US$ 16,3 bi e o prejuízo que é, em boa parte, contábil

O número que vai circular é o prejuízo de US$ 80,7 bilhões em seis meses. Ele assusta e explica pouco. Segundo o TechCrunch, a maior parte vem de ajustes contábeis ligados a dívida conversível, que não tiram dinheiro do caixa. A conta que mede a operação conta outra história: o prejuízo operacional caiu de US$ 2,1 bilhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 693 milhões no de 2026, uma queda de cerca de 67%, com a receita multiplicada por 13.
| Indicador | 1º sem. 2025 | 1º sem. 2026 |
|---|---|---|
| Receita | US$ 1,2 bi | US$ 16,3 bi |
| Prejuízo operacional | US$ 2,1 bi | US$ 693 mi |
| Prejuízo líquido | n/d | US$ 80,7 bi |
A base de clientes ajuda a entender de onde vem o salto. No fim de setembro, mais de 11.900 clientes gastavam US$ 100 mil ou mais por ano com a Anthropic; 1.900 passavam de US$ 1 milhão e cerca de 250 desembolsavam US$ 10 milhões ou mais, segundo o TechCrunch.
O ritmo não parou em junho. Segundo o Financial Times, citado pelo Yahoo Finance, a empresa disse a investidores em São Francisco que a receita do terceiro trimestre chegou a US$ 16,8 bilhões, contra US$ 11,5 bilhões no segundo, e que é lucrativa em base ajustada. São números repassados a investidores, não do S-1.
Para comparação, os dados de 2025 do rascunho confidencial, revelados pela Reuters em setembro, mostravam receita de quase US$ 4,6 bilhões no ano inteiro, prejuízo operacional acima de US$ 8 bilhões e gasto de US$ 7,33 bilhões com computação e infraestrutura, mais da metade das despesas operacionais de US$ 12,65 bilhões. A empresa terminou 2025 com US$ 20,28 bilhões em caixa e aplicações e compromissos de US$ 518 bilhões em nuvem e computação nos anos seguintes. Quase um quarto da receita de 2025 veio de apenas dois clientes. Na prática, o primeiro semestre de 2026 sozinho já faturou mais de três vezes o ano de 2025 inteiro.

Quem manda na Anthropic: sete cofundadores com 50,1% dos votos
A parte mais incomum do S-1 é a governança. A Anthropic é uma public benefit corporation, empresa com fins lucrativos obrigada por estatuto a perseguir também um objetivo público. Os sete cofundadores (Dario Amodei, Daniela Amodei, Tom Brown, Jack Clark, Jared Kaplan, Sam McCandlish e Chris Olah) vão reunir uma classe especial de ações numa entidade chamada Founder LLC, que terá 50,1% do poder de voto. O Long-Term Benefit Trust, criado em 2023, completa o desenho: poderá indicar a maioria do conselho.
A empresa diz que a estrutura protege sua missão de segurança em IA. Para o investidor comum, o efeito é direto: quem comprar ações Classe A terá parte do lucro futuro, mas pouca voz sobre os rumos da companhia.
A seção de riscos é franca para um documento de venda de ações. A empresa admite que "may not achieve or sustain profitability in the future" (pode não alcançar ou manter a lucratividade) e descreve a própria tecnologia como portadora de "catastrophic or existential risks to humanity" (riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade). O PYMNTS lista ainda o uso indevido para ciberataques ou armas biológicas, comportamentos não pretendidos dos modelos, uso por Estados de vigilância e uma disrupção econômica maior que a de tecnologias anteriores. "Navigating a technology with the properties we have just described requires a very different approach", diz o texto.
Quando é o IPO da Anthropic e se o brasileiro poderá comprar ações
Não há data oficial. O Wall Street Journal e a Reuters apontam novembro para a estreia, sem confirmação da empresa; a Exame noticiou que a operação deve ficar para depois das eleições legislativas americanas. Trate a data como expectativa. O valuation também é reportagem, não documento: a Reuters falou em captação de até US$ 100 bilhões com avaliação de cerca de US$ 2 trilhões, e a Anthropic não confirmou. Na última rodada privada, em maio, a Anthropic foi avaliada em US$ 965 bilhões após levantar US$ 65 bilhões. Se o número da Reuters se confirmar, a oferta passaria os US$ 86 bilhões que a SpaceX levantou no IPO de junho.
O mercado está mais seletivo do que no começo do ano: a sul-coreana Elice caiu 32% no primeiro pregão, e a Firmus Grid, apoiada pela Nvidia, desistiu da listagem após investidores rejeitarem o valuation, segundo o Yahoo Finance.
Para o investidor brasileiro, o caminho previsível é uma corretora com acesso à bolsa americana, depois que o registro for declarado efetivo e o preço for fixado. Nenhuma fonte confirmou até agora BDR da Anthropic na B3. Para quem usa o Claude, o S-1 não traz mudança de preço, plano ou limite de uso.
Os próximos passos do IPO até a Nasdaq
A SEC segue revisando o documento; a Anthropic ainda precisa divulgar faixa de preço e número de ações e fazer o roadshow com fundos antes de o registro virar efetivo. A rival OpenAI, que chegou a ser esperada na bolsa ainda este ano, agora deve estrear só no começo de 2027, segundo o Yahoo Finance. Se a Anthropic abrir primeiro, será ela a mostrar como Wall Street precifica um laboratório de IA de ponta.




