O Google mudou as regras do Modo IA da Busca: com o teste confirmado em 16 de outubro, quem conecta Gmail, Google Fotos e Agenda à ferramenta pode passar a ver anúncios personalizados com base em resumos, trechos e inferências tirados desses apps. A empresa confirmou o teste ao Search Engine Land e reescreveu a página de ajuda que explica o recurso.

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Neste artigo
  1. O que a nova regra do Google permite fazer com Gmail e Fotos
  2. Política de privacidade do Google diz uma coisa, a ajuda diz outra
  3. Revisores humanos e treino de IA com resumos do Gmail e Fotos
  4. Como desativar os anúncios com Gmail e Fotos e apagar o histórico
  5. O teste chega ao Brasil? O Google não informou os países

A mudança só vale para quem ativou a conexão de apps, chamada de Inteligência Pessoal (Personal Intelligence). Para quem ativou, ela mexe com o que há de mais privado na conta Google: e-mails de compra, reservas de viagem e a biblioteca de fotos. E desligar tudo exige mexer em três lugares da conta. O teste em si já foi noticiado aqui no tekimobile em Google testa anúncios no Modo IA guiados por resumos do seu Gmail e do Google Fotos.

O que a nova regra do Google permite fazer com Gmail e Fotos

O trecho novo está na página de ajuda dos apps de conteúdo conectados. A versão arquivada da mesma página não tinha o texto, como mostrou Barry Schwartz, do Search Engine Roundtable, em 19 de outubro. Agora o Google escreve que os anúncios "não serão baseados diretamente na sua caixa de entrada do Gmail ou na sua biblioteca do Google Fotos". Logo em seguida vem a ressalva: a Busca pode consultar resumos, trechos e inferências dessas fontes, e esse material pode ser usado para escolher os anúncios exibidos.

O Modo IA já mostrava anúncios para quem não tinha apps conectados. O que mudou é a propaganda chegar também a quem conectou, usando sinais desses apps. Em março, a empresa tinha dito ao mesmo Search Engine Land: "No momento, não há anúncios para quem escolhe conectar seus apps ao Modo IA". Em 16 de outubro, a versão passou a ser outra: o Google "está começando a testar anúncios no Modo IA da Busca para usuários que conectam seus apps por meio da Inteligência Pessoal".

Há limites declarados. Segundo a ajuda do Google, anunciantes não recebem e-mails, arquivos do Drive nem fotos da nuvem. Identificadores como nome e endereço de e-mail ficam fora da segmentação, assim como categorias sensíveis: raça, religião, orientação sexual e saúde. O app Gemini continua sem anúncios.

Política de privacidade do Google diz uma coisa, a ajuda diz outra

No mesmo dia 16, a política de privacidade passou a dizer que a Busca pode usar os dados que o usuário permitir acessar para personalizar conteúdo, inclusive anúncios. Mas o documento mantém a frase antiga: "não mostramos anúncios personalizados com base no seu conteúdo do Drive, Gmail ou Fotos". As duas afirmações só convivem por um detalhe de redação. O conteúdo bruto do e-mail não vai para o sistema de anúncios. A conclusão que a IA tira dele pode ir. Na prática, a diferença tende a ser pequena: se o Modo IA deduz de uma reserva no Gmail que você vai viajar, essa dedução pode, em tese, influenciar os anúncios exibidos. O Google não deu exemplos.

A frase tem história. Desde 2017 o Google garante que não mostra anúncios com base nas mensagens do Gmail. À Fast Company, a porta-voz Allie Bodack respondeu, sobre usar a Inteligência Pessoal para direcionar anúncios em outros lugares: "não é o caso hoje". Segundo a revista, a promessa de 2017 "não está mudando hoje", mas a mudança pode preparar o terreno para segmentação por e-mail com IA.

O interesse comercial é grande. A Alphabet tirou 73% da receita do ano passado de anúncios, segundo a Fast Company. "Dados de e-mail são particularmente valiosos porque revelam sinais de alta intenção sobre planos de viagem, compras e assinaturas", disse à revista Nikhil Lai, analista da Forrester. Lena Cohen, da Electronic Frontier Foundation, foi direta: "É inaceitável que seja preciso um jornalista perguntar à empresa". A OpenAI usa no ChatGPT sinais do histórico do próprio chatbot. O Google tem e-mail, agenda e fotos.

App do Gmail aberto em um celular
Reprodução/Google
App do Google Fotos, um dos apps que podem ser conectados ao Modo IA
Divulgação/Google

Revisores humanos e treino de IA com resumos do Gmail e Fotos

A mesma página de ajuda traz dois pontos que apareceram pouco na discussão sobre anúncios. O primeiro: uma parte dos dados dos apps conectados processados pelo Modo IA é lida por revisores humanos, "incluindo prestadores de serviço treinados". Segundo o Google, antes da revisão as interações são desvinculadas da conta e a informação pessoal é reduzida, exceto em casos de abuso ou dano. Os revisores não veem mídia do Google Fotos, a não ser em caso de abuso ou quando o próprio usuário envia feedback.

O segundo: os dados conectados podem ser usados para treinar modelos de IA generativa. O Google diz que não treina diretamente com a caixa de entrada, o Drive, a Agenda ou a biblioteca de fotos, e sim com resumos, trechos e inferências. As respostas do Modo IA também vão para o Histórico de serviços da Pesquisa, que, segundo um documento de suporte citado pela Fast Company, ajuda a direcionar anúncios conforme as configurações de personalização.

O alcance dessas inferências já foi demonstrado. Em uma demonstração ao The Verge, com acesso ao Gmail de David Pierce, o agente Spark do Google descobriu as preferências alimentares da esposa dele, a idade dos filhos e o nome de familiares.

Como desativar os anúncios com Gmail e Fotos e apagar o histórico

Só quem conectou os apps está exposto: é preciso ter 18 anos ou mais, uma conta Google pessoal e as Recomendações personalizadas ativadas. No caso do Google Fotos, também é preciso ligar os Face Groups e a opção Estimate missing locations. Quem nunca fez isso não é afetado. Desligar os "anúncios personalizados" no Meu Centro de Anúncios não resolve, segundo o Techlicious: os dados conectados podem continuar sendo usados pela IA e para melhorar modelos. Quem quer sair por completo precisa passar por três pontos:

  • Conexão dos apps: na Conta do Google, em Dados e privacidade › Personalizar a Pesquisa › Apps de Conteúdo Conectados, desconecte Gmail, Agenda e Fotos.
  • Recomendações personalizadas: desligue-as. Elas são requisito para a conexão de apps.
  • Histórico: desconectar não apaga o que já foi coletado nem o Histórico de serviços da Pesquisa. Isso precisa ser feito em Minha atividade (activity.google.com).

Os nomes dos menus podem variar conforme a versão do app e o idioma da conta.

O teste chega ao Brasil? O Google não informou os países

Segundo a ajuda do Google, a conexão de apps funciona em 188 países e territórios. Nenhuma das fontes consultadas confirma que o Brasil está nessa lista. O Google Agenda continua restrito aos Estados Unidos e ao inglês, e o Fotos não está disponível em todas as regiões.

O Google não informou em quais países o teste de anúncios com apps conectados está rodando, nem se ele chega ao Brasil. Também não está claro se os sinais do Gmail e do Fotos vão influenciar anúncios só no Modo IA ou também no Maps, no Shopping, em Voos e Hotéis. O Google tampouco anunciou formatos, relatórios ou controles para anunciantes. O recurso segue gratuito; o custo, para quem o usa, é ceder dados da conta.