A Canva anunciou demissões e uma reestruturação que afeta 1.271 funcionários, 22% da equipe, entre demissões, mudanças de função e pedidos de transferência. A CEO e cofundadora Melanie Perkins comunicou o corte em uma nota interna que a empresa tornou pública na terça-feira (3).
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- Quantos são demitidos no Canva: o número que a nota não dá
- A nova Canva: equipes fundidas, menos especialistas e mais escritório
- O que recebem os demitidos: seis meses de salário, MacBook e US$ 10 mil
- Por que a Canva cortou: o custo da IA e a previsão de receita menor
- Canva Pro e plano grátis no Brasil: nenhuma mudança anunciada
O motivo é a conta da inteligência artificial. O crescimento do aplicativo de design desacelerou pela primeira vez em uma década, servir recursos de IA ficou caro demais e chatbots como ChatGPT e Gemini passaram a gerar pôsteres e apresentações que antes levavam o usuário ao Canva. Para quem usa a ferramenta no Brasil, a empresa não anunciou mudança em planos, preços ou recursos.
Quantos são demitidos no Canva: o número que a nota não dá
"Este é, sem dúvida, o momento mais difícil da nossa história de treze anos", escreveu Perkins na mensagem à equipe publicada pela Canva. Mais adiante, ela admite o problema que a empresa vinha tratando como passageiro: "O sucesso no nosso primeiro capítulo não garante sucesso no próximo. Este foi o nosso ano mais difícil e, como contamos no início do ano, nosso crescimento desacelerou pela primeira vez em uma década."
O número de 1.271 aparece em manchetes como demissões, mas a nota é mais vaga. Segundo Perkins, para parte dessas pessoas o impacto será uma mudança de função ou o pedido para se mudar para um dos "polos centralizados" da empresa; para outra parte, a saída. A Canva não diz quantos perdem o emprego.
A executiva diz ter concluído que "pequenas mudanças não serão suficientes" e que a Canva precisa ser "refundada" em torno de equipes pequenas, com autonomia para decidir.
A nova Canva: equipes fundidas, menos especialistas e mais escritório
A primeira medida junta as áreas de Produto, Crescimento e Plataforma em uma única organização de produto. Segundo a nota, melhorar qualquer parte do aplicativo exigia passar pelas três, com repasses e coordenação demais.
A segunda reduz o que a empresa chama de "subespecialização". Funções estreitas serão incorporadas a cargos mais amplos, camadas de gestão serão eliminadas e responsabilidades sobrepostas, consolidadas. Na prática, quem fica vai acumular mais tarefas.
A terceira concentra gente. Sydney, na Austrália, passa a ser a sede principal de mais equipes de produto e de outras especialidades, e parte dos funcionários será convidada a se mudar para lá. A partir de janeiro, a maioria dos profissionais em regime híbrido terá de ir ao escritório de dois a três dias por semana.
A empresa tem equipes em 37 países e afirma que o momento e a forma das conversas com os afetados vão variar conforme as regras locais. A nota não lista países nem áreas atingidas, e nenhuma fonte informa se há funcionários afetados no Brasil.

O que recebem os demitidos: seis meses de salário, MacBook e US$ 10 mil
Segundo a Canva, todos os desligados recebem:
- no mínimo seis meses de salário, já incluídas as verbas rescisórias obrigatórias, em qualquer país;
- 12 meses de plano de saúde onde a empresa já oferece o benefício e 12 meses do programa de assistência Canva Care, extensivo à família;
- orientação de carreira individual, preparação para entrevistas e um ano de LinkedIn Premium;
- o fim da carência de um ano para as ações de quem entrou na empresa nos últimos 12 meses.
Quem sai também fica com o MacBook de trabalho, "porque nem todo mundo tem um notebook pessoal", segundo a nota. Um fundo novo, o Canva Collective Fund, dará bolsas de US$ 10 mil (cerca de R$ 54 mil, em conversão direta) a ex-funcionários que queiram abrir um negócio ou tocar um projeto comunitário, sem que a Canva fique com participação. As inscrições vão até 14 de dezembro.
Por que a Canva cortou: o custo da IA e a previsão de receita menor
A crise ficou pública em agosto. Na carta aos acionistas do segundo trimestre, Perkins escreveu que o custo médio de atender uma tarefa de IA era "alto demais", segundo o site australiano Startup Daily. A Canva dependia em excesso de modelos de fronteira de terceiros, como os da OpenAI, vários modelos próprios não estavam prontos e os preços, o modelo de consumo e os controles de uso não acompanharam a demanda. "Decidimos desacelerar a distribuição enquanto reconstruíamos a arquitetura, reduzíamos o custo unitário e fortalecíamos o modelo de negócio", escreveu a CEO.
O resultado foi o corte da previsão de crescimento da receita em 2026, de 30% para 20%, que Perkins chamou de "decisão deliberada de acertar a economia". A empresa afirma ter reduzido em 90% o custo de servir uma tarefa de IA, com um modelo próprio de vídeo 17 vezes mais barato que um modelo de fronteira e um de imagem 30 vezes mais barato. A Leonardo.AI, comprada em 2024, participou do desenvolvimento.

A Canva está longe de quebrar. Faturou US$ 921,9 milhões no trimestre encerrado em junho (cerca de R$ 5 bilhões, em conversão direta), alta de 25,2% em 12 meses, dá lucro há nove anos e tinha US$ 1,47 bilhão em caixa. O problema é o valor de mercado. Avaliada em US$ 42 bilhões em 2025, a Canva foi remarcada pelos fundos Blackbird e Airtree para US$ 34,9 bilhões em agosto, queda de 17%, e a avaliação usada para dar ações a funcionários caiu de US$ 38,9 bilhões para US$ 31 bilhões. A abertura de capital nos Estados Unidos, prevista para 2027, pode atrasar.
| Indicador | Antes | Agora |
|---|---|---|
| Previsão de crescimento da receita em 2026 | 30% | 20% |
| Valor de mercado (marcação de Blackbird e Airtree) | US$ 42 bilhões (2025) | US$ 34,9 bilhões (agosto de 2026) |
| Avaliação para ações de funcionários | US$ 38,9 bilhões | US$ 31 bilhões |
| Custo de servir uma tarefa de IA | referência | 90% menor, segundo a Canva |
| Equipe afetada pela reestruturação | — | 1.271 pessoas (22%) |
A concorrência ficou mais perto. Além dos chatbots generalistas, startups como a Gamma, que passou a gerar imagens em março para enfrentar Canva e Adobe, disputam o mesmo usuário.
Em março, o cofundador Cliff Obrecht postou no Slack interno um link sobre a Anthropic, que lançou 73 produtos e atualizações em 52 dias com 2.300 a 2.500 funcionários, metade do quadro da Canva. "Este é o novo padrão. Se não trabalharmos nessa velocidade, não seremos competitivos", escreveu, segundo o Capital Brief. A mensagem foi apagada depois que funcionários temeram cortes, e a Canva disse que não tinha planos de demitir. Oito meses depois, cortou 22%.
Canva Pro e plano grátis no Brasil: nenhuma mudança anunciada
No Brasil, o Canva continua com os planos Grátis, Pro, Pro+ e Enterprise, e a nota de Perkins não fala em preço, limite ou recurso. A crise, porém, nasceu justamente dos recursos de IA, que na página oficial de preços já compartilham um limite mensal que varia por plano, com pacotes pagos de "IA Extra" para quem passa da cota. É nesse ponto que o usuário deve sentir primeiro qualquer ajuste no modelo de negócio, se ele vier.
Os próximos passos internos já têm data. Os líderes de cada área detalham as mudanças até o fim desta semana, a Canva faz uma reunião geral com todos os funcionários em 10 de novembro e as reuniões por área começam no dia 11.




