O Discord desligou nesta segunda-feira (17) todas as transmissões de vídeo e o compartilhamento de tela no Brasil, cumprindo uma medida preventiva da ANPD que mira diretamente o recurso Go Live.
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Na prática, o Discord continua operando no país, mas sem qualquer função de comunicação por vídeo em tempo real: lives, Go Live e recursos equivalentes de compartilhamento de tela foram suspensos para usuários brasileiros por ordem da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, com base no ECA Digital. Mensagens de texto, servidores, grupos, canais de voz e chamadas exclusivamente de áudio seguem disponíveis normalmente para quem usa a plataforma a partir de contas brasileiras.
O que exatamente foi bloqueado no Discord no Brasil?
A ANPD determinou que o Discord suspendesse a funcionalidade de transmissão ao vivo em até três dias úteis a partir de 12 de agosto. A agência concentrou a ordem no Go Live, usado para lives em servidores fechados, e estendeu a determinação a todos os recursos de transmissão e compartilhamento de vídeo equivalentes. Na prática, qualquer recurso que envolva vídeo em tempo real foi tirado do ar para contas brasileiras, independentemente de servidor ou tipo de uso.
Segundo o próprio Discord, estão indisponíveis no Brasil as transmissões ao vivo e o compartilhamento de vídeo. A plataforma ressalta que o bloqueio não equivale a uma proibição total do serviço no país: chats de texto, DMs, grupos, servidores, canais de voz e chamadas só de áudio continuam liberados e funcionando. A ANPD também afirma que o alvo é a funcionalidade que, na avaliação técnica da agência, concentra o maior risco para menores de 18 anos, sem impedir outros usos considerados legítimos da rede.
A suspensão fica em vigor até que o Discord demonstre ter implementado medidas técnicas, de segurança e de governança adequadas aos riscos identificados para crianças e adolescentes e obtenha autorização expressa e prévia da própria ANPD para reativar, total ou parcialmente, o recurso de lives. A liberação futura depende dessa combinação de provas de eficácia e permissão formal.
Por que a ANPD mandou suspender as lives do Discord?
A medida surgiu no rastro de um caso extremo: o suicídio de uma adolescente de 13 anos durante uma live na plataforma, após indução e coação em grupos no serviço. A ANPD abriu um processo de fiscalização em 7 de agosto para apurar falhas na proteção de crianças e adolescentes no Discord e, segundo a Superintendência de Fiscalização, encontrou “evidências robustas” de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de contato de menores com conteúdos ligados a violência, automutilação e suicídio.
O ponto mais sensível, para a agência, é arquitetural. Pela forma como o Discord foi construído, a plataforma não tem acesso ao conteúdo das transmissões de vídeo enquanto elas acontecem. Isso impede qualquer análise de conteúdo audiovisual em tempo real no âmbito do servidor e empurra a moderação para mecanismos automatizados considerados falhos pela ANPD e para denúncias de participantes — exatamente o tipo de arranjo que não funciona quando o problema é risco iminente a menores.
A agência também concluiu que, depois da promulgação do ECA Digital e às vésperas da lei entrar em vigor, o Discord fez mudanças técnicas no Go Live que deixaram o recurso ainda menos protetivo para crianças e adolescentes, violando deveres de prevenção “da concepção ao gerenciamento contínuo” dos riscos. No diagnóstico da ANPD, esses ajustes vieram somar-se a mecanismos frágeis de verificação de idade e a um histórico de uso recorrente da plataforma para assédio, violência e indução à automutilação e ao suicídio, o que levou a autoridade a considerar inevitável apertar o freio.
O que o Discord respondeu e o que vem depois da suspensão?
O Discord informou que suspendeu os recursos de vídeo no Brasil “em cumprimento à determinação” da ANPD e classificou a situação no país como séria em carta aberta enviada aos usuários. A empresa diz estar dialogando ativamente com a agência para restabelecer as lives e afirma que o vídeo é uma parte importante e muito valorizada da experiência na plataforma, usada para jogar em grupo, compartilhar experiências e manter contato com amigos e família.
A companhia admite que seu sistema de proteção falhou no caso da menina de 13 anos, ao demorar cerca de duas horas para derrubar a transmissão. Antes da suspensão, o Discord já tinha apresentado ao governo federal uma proposta de reforço à proteção de usuários, com foco em crianças e adolescentes, em documento enviado à Advocacia-Geral da União em 10 de agosto. Depois da decisão, enviou esclarecimentos à ANPD e chegou a pedir mais prazo (ao menos 15 dias úteis) e a revogação da ordem, alegando necessidade de tempo para desenvolver soluções técnicas que bloqueiem as transmissões para usuários no Brasil e impeçam a burla das restrições.
Pelo lado regulatório, a ANPD condiciona qualquer reativação das lives à comprovação da eficácia das novas medidas, dentro das exigências do ECA Digital. O órgão já avisou que a medida preventiva não encerra o caso: o processo de fiscalização continua em andamento e, se forem confirmadas infrações, o Discord pode enfrentar sanções que chegam a multa de até R$ 50 milhões por violação. Até que esse processo termine — ou que a ANPD se convença das soluções técnicas apresentadas —, o serviço no Brasil segue limitado a texto e voz por determinação oficial.




