Desde 16 de outubro, a política de privacidade do Google permite que dados do Gmail, do Drive e do Google Fotos conectados à Inteligência Personalizada (Personal Intelligence) ajudem a escolher os anúncios personalizados que você vê. A empresa acrescentou uma exceção a uma das promessas de privacidade mais antigas da casa.
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A mudança atinge quem ativou o recurso e, segundo o Android Authority, quem usa o Modo IA da Busca. Isso inclui usuários brasileiros: a Inteligência Personalizada chegou ao país em 14 de abril. Como a conexão é opcional e vem desligada, o efeito é limitado a quem disse sim. O problema é que esse sim foi dado para ganhar respostas melhores, não anúncios mais precisos.
A frase que o Google mudou na política de privacidade
Durante anos, o texto foi direto: "We don't show you personalized ads based on your content from Drive, Gmail, or Photos" ("não mostramos anúncios personalizados com base no seu conteúdo do Drive, do Gmail ou do Fotos"). A frase continua lá. A diferença está no final. Na versão em vigor desde 16 de outubro, ela termina com "unless you choose to make data from these services available to other Google services that support personalized ads", ou seja, "a menos que você escolha tornar os dados desses serviços disponíveis para outros serviços do Google que aceitam anúncios personalizados".
A versão arquivada da política, que cobre o período de 1º a 16 de outubro, mostra a edição marcada: o trecho antigo aparece riscado, "Photos" virou "Google Photos" e a cláusula nova foi acrescentada logo depois. A alteração veio a público uma semana depois, em 23 de outubro, numa reportagem do site americano Android Authority.
O serviço mais óbvio é a própria Busca. Segundo o Android Authority, quem usa o Modo IA com a Inteligência Personalizada ligada pode ter sinais dessas interações usados para personalizar a publicidade. Imagine pedir ao Modo IA restaurantes perto do hotel que você reservou e ele achar a reserva no Gmail: é esse tipo de interação que pode virar sinal para anúncios. O veículo resumiu a situação no subtítulo da reportagem de 4 de novembro: "Google created a loophole in its promise" ("o Google criou uma brecha na sua promessa").
O que o Google diz que continua fora dos anúncios
A política mantém algumas barreiras. Segundo o Android Authority, o Google segue afirmando que não varre diretamente a caixa de entrada nem a biblioteca de fotos para escolher anúncios e que não compartilha esses dados com terceiros. A política também diz que o Google não compartilha com anunciantes informações que identificam a pessoa, como nome ou e-mail, a menos que ela peça. A exceção vale só para o que o usuário escolhe disponibilizar a serviços elegíveis. Não existe varredura automática de todas as contas.
O que a política não explica é justamente o mais importante. O texto não lista quais são os "outros serviços do Google" alcançados, nem diz que tipo de sinal extraído de um e-mail ou de uma foto vira critério de segmentação. O Google não comentou a mudança nas reportagens publicadas até agora.
A cláusula serve de base formal para algo que o tekimobile já tinha mostrado: um teste do Google com anúncios no Modo IA guiados por resumos do Gmail e do Fotos.

Inteligência Personalizada do Gemini está no Brasil desde abril
O recurso estreou nos Estados Unidos em janeiro, como beta para assinantes do Google AI Pro e do AI Ultra. Em 17 de março, o Google o liberou de graça para todos os usuários americanos no Modo IA, no app do Gemini e no Gemini dentro do Chrome. O Brasil entrou na lista em 14 de abril, com liberação gradual para os planos Google AI Plus, Pro e Ultra e a versão gratuita anunciada para as semanas seguintes.
Diferente das conexões que o Gemini fazia desde 2023, ainda como Bard, o modelo cruza informações do Gmail, do Fotos, da Busca e do YouTube sem que o usuário diga onde procurar. No exemplo oficial, Josh Woodward, vice-presidente do app Gemini, do Google Labs e do AI Studio, pediu ajuda para trocar os pneus da minivan da família. O Gemini achou a placa do carro numa foto e a versão exata do modelo num e-mail.
No lançamento, Woodward afirmou que o Gemini não treina diretamente com a caixa de entrada do Gmail nem com a biblioteca do Google Fotos, apenas com "informações limitadas", como prompts específicos e as respostas do modelo. Ele também avisou, segundo o The Verge, que o recurso podia gerar respostas imprecisas ou "superpersonalização".
Só contas pessoais do Google têm acesso. Quem usa conta corporativa ou educacional do Workspace (Business, Enterprise ou Education) não tem a Inteligência Personalizada e por isso fica fora da nova exceção.
Desconectar Gmail e Fotos não apaga o que já foi coletado
A parte mais incômoda está no aviso que aparece na hora de desconectar o Gmail e o Fotos. Segundo o Android Authority, o próprio Google avisa que, ao desconectar, não deixa de usar os dados já coletados. Informações guardadas no Histórico de Serviços de Pesquisa (Search Services History) podem continuar lá mesmo depois que você desconecta o app ou apaga o e-mail ou a foto original.
Existe também uma alavanca maior: desligar as Recomendações personalizadas nos serviços de Pesquisa. Ela corta a personalização baseada na sua atividade na Busca, no Maps, no Shopping, no Flights e no Hotels. Mesmo assim, segundo o veículo, o Google continua usando localização, idade e buscas anteriores.
O app do Gemini segue outro caminho. Desconectar o Gmail e o Fotos do Modo IA não impede que você peça ao Gemini para procurar algo nesses serviços. Segundo o Android Authority, os dados acessados pelo app do Gemini não são usados para anúncios; é uma afirmação do veículo, que o texto da política não detalha.
Como desativar Gmail e Fotos nos anúncios personalizados do Google
Os caminhos abaixo seguem os rótulos em inglês da conta Google; na interface em português, os nomes podem variar.
- Desconectar os apps: em Gerenciar sua Conta do Google, vá em Dados e privacidade (Data & privacy) › Configurações de personalização (Personalization settings) › Recomendações personalizadas nos serviços de Pesquisa (Personalized Recommendations in Search services) › Apps de conteúdo conectados (Connected Content Apps), e clique em "Conectado" ao lado de Google Workspace e Google Fotos.
- Desligar a personalização inteira: na mesma página, desative as Recomendações personalizadas (Personalized Recommendations).
- Apagar o que ficou: limpe o Histórico de Serviços de Pesquisa em myactivity.google.com/search-services/settings.
- Revisar o Gemini: o app do Gemini é um caminho separado; confira nas configurações dele quais apps estão conectados.
Uma dúvida que vale para o Brasil ainda não tem resposta: não está claro se a versão gratuita da Inteligência Personalizada, anunciada para o país em abril, já chegou a todas as contas. Se chegou, a exceção pode alcançar também quem não paga assinatura, desde que tenha ligado o recurso.




