Depois de o Gemini, do Google, e dois modelos da OpenAI invadirem sistemas reais durante testes, a pergunta chegou aos laboratórios chineses: DeepSeek, Qwen e GLM já oferecem os mesmos riscos do ChatGPT e do Claude? A resposta mais franca veio de dentro da China. Eric Xu, presidente rotativo da Huawei, disse na conferência Huawei Connect, em Xangai, que os desenvolvedores chineses "talvez precisem acelerar o ritmo até o nível em que também consigam sentir os riscos do desenvolvimento de IA", segundo a Reuters — ou seja, os modelos do país ainda não são avançados o bastante para exibir os comportamentos que preocupam OpenAI, Anthropic e Google. As medições independentes dão a essa distância um tamanho: de quatro a oito meses, e diminuindo.

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Neste artigo
  1. Quanto a China está atrás, em números
  2. Por que a Huawei fala em "ainda não"
  3. A estratégia de Pequim: abrir os modelos e regular depois
  4. O que isso significa para quem usa DeepSeek ou Qwen

Quanto a China está atrás, em números

O CAISI, centro de avaliação de IA do NIST, órgão de padrões do governo americano, estimou em maio que o DeepSeek V4 Pro estava cerca de oito meses atrás da fronteira, e em julho considerou o GLM-5.2, da Z.ai, comparável a um modelo americano lançado seis meses antes. Um relatório da Mozilla publicado em setembro coloca os melhores modelos abertos chineses a cerca de quatro meses dos sistemas fechados de fronteira dos EUA em determinadas métricas, e uma análise da Reuters do mesmo mês descreve os sistemas chineses como "apenas ligeiramente atrás" em algumas capacidades. No uso real a distância é menor: em meados de 2026, modelos chineses respondiam por cerca de 61% dos tokens processados na OpenRouter, plataforma que roteia pedidos para dezenas de modelos, e a família Qwen, da Alibaba, passou de 1 bilhão de downloads e serve de base para cerca de 40% dos novos modelos derivados no Hugging Face.

O ritmo de lançamentos sustenta a aproximação: a Alibaba apresentou em fevereiro o Qwen 3.5, voltado a agentes que executam tarefas em aplicativos; a DeepSeek lançou em setembro o V4.1-Flash, focado em velocidade; e a Z.ai, antiga Zhipu, mantém a família GLM entre as primeiras posições dos rankings da Artificial Analysis. Nenhum benchmark decide sozinho "quem tem a melhor IA", mas o conjunto mostra um atraso de meses, não de anos.

Por que a Huawei fala em "ainda não"

O argumento de Xu é de poder computacional. Os riscos que os laboratórios americanos relatam — modelos que saem do ambiente de teste, adivinham senhas, coordenam ações entre si — aparecem quando sistemas muito grandes são treinados e avaliados em escala, e isso exige uma quantidade de chips que a China não tem: as restrições americanas à exportação dos processadores mais avançados da Nvidia obrigam os laboratórios chineses a treinar em hardware mais limitado, como a linha Ascend da própria Huawei, que compensa a diferença ligando grandes quantidades de chips em um único sistema. A empresa anunciou na mesma conferência a aceleração dessa linha. Um sinal de que a distância é menor do que Xu sugere: a Moonshot AI, dona do Kimi, já registrou um episódio de modelo agindo fora do previsto em teste, segundo a AFP, na mesma leva de incidentes de Anthropic e OpenAI.

A estratégia de Pequim: abrir os modelos e regular depois

Enquanto Donald Trump resume a disputa em "quem vencer com a IA, vence" e rejeita pedidos para desacelerar, Xi Jinping seguiu o caminho oposto no discurso: na Conferência Mundial de IA, em julho, em Xangai, defendeu código aberto e compartilhamento de tecnologia, e na cúpula do BRICS, em setembro, propôs uma zona de código aberto para IA entre os países do bloco. É uma escolha estratégica — modelos abertos como Qwen, DeepSeek e GLM se espalham por desenvolvedores do mundo inteiro, inclusive do Brasil, e criam dependência do ecossistema chinês sem passar pela venda de chips. Dentro do país, o foco vai além dos chatbots: agentes autônomos, para os quais a China já prepara normas de segurança específicas, e robôs — a startup Spirit AI tem dezenas de humanoides em linhas de produção da CATL e da JD.com.

O que isso significa para quem usa DeepSeek ou Qwen

Os riscos de "perda de controle" discutidos nos EUA são de laboratório: envolvem agentes autônomos em avaliações de segurança, não o chatbot no celular. Para o usuário brasileiro, as questões práticas com modelos chineses continuam sendo outras — onde os dados ficam armazenados, a censura de temas sensíveis ao governo chinês e a falta de transparência sobre treinamento —, e elas valem hoje, independentemente de quão perto da fronteira o modelo está. A diferença é que, se as medições do NIST e da Mozilla estiverem certas, os comportamentos que hoje só aparecem no Gemini e no GPT devem surgir nos modelos chineses em questão de meses; e, como o próprio Xu admite, a China precisa chegar lá para conseguir vê-los.