Magalu está cruzando a fronteira do varejo tradicional e usando o aiqfome e a estrutura da Magalog para atacar o delivery de comida dominado pelo iFood.

Adicione ao Google Notícias
Neste artigo
  1. O que é “delivery” no Magalu e onde entra o aiqfome
  2. Quanto custa vender e entregar pelo Magalu hoje
  3. Como ser (e virar) entregador do Magalu via Magalog
  4. Magalu Entregas, lojista parceiro e o salto para comida
  5. Magalu, Amazon, AliExpress e o efeito colateral no delivery

Na prática, o delivery de comida do Magalu nasce em cima do aiqfome, plataforma de food delivery do grupo, e da malha logística operada pela Magalog, subsidiária criada em 2024 para concentrar todos os ativos de entrega do conglomerado. O alvo é óbvio: disputar restaurante, cliente e, principalmente, entregador com os players que hoje mandam no setor.

O que é “delivery” no Magalu e onde entra o aiqfome

No jargão seco, delivery é qualquer serviço de levar produto ou refeição até a casa do cliente. Magalu já fazia isso com TV, geladeira e celular; com o aiqfome, passou a fazer também com hambúrguer, pizza e marmita. Segundo o IFC, o grupo já operava a plataforma de delivery de comida aiqfome antes de 2025, ao lado de mais de 1.250 lojas físicas e de um marketplace com 360 mil sellers.

O ganho de escala sai da Magalog. A transportadora do grupo nasceu em outubro de 2024 como empresa separada e hoje, de acordo com dados compilados pela Ordertracker, reúne 21 centros de distribuição, 2 hubs nacionais, 20 hubs regionais e 153 bases operacionais parceiras. A rede própria passa de 6 mil veículos e alcança mais de 3.800 municípios brasileiros. Com essa estrutura, o Magalu sustenta o plano de manter um app único entregando desde compras de e-commerce até refeições rápidas em boa parte do país.

Para o consumidor, o delivery de comida aparece como mais um serviço dentro do super app já usado por mais de 50 milhões de pessoas por mês, segundo o IFC. O mesmo cadastro (ID Magalu) que libera a compra de uma TV autentica o pedido do almoço sem exigir novo login ou novo app.

Quanto custa vender e entregar pelo Magalu hoje

Vender comida dentro do universo Magalu significa embarcar na mesma lógica de marketplace aplicada a produtos físicos. A empresa não divulga publicamente a tabela de comissões por categoria, então o número exato cobrado do restaurante permanece fora do papel. O que dá para medir hoje é o custo logístico de quem usa o Magalu Entregas para despachar pedidos do marketplace.

O Magalu Entregas é o sistema de entrega de pedidos do marketplace do Magalu, ativo desde 2018 e cada vez mais central no negócio. Ele oferece modalidades como Fulfillment (Magalu guarda e envia), Entrega Vapt (mesmo dia com parceiros), Agência Magalu Entregas (postagem em lojas físicas) e Coleta e Entrega (Magalu busca no endereço do vendedor). O custo do frete é dividido entre Magalu e loja, e vendedores com mais de 97% dos pedidos despachados no prazo recebem até 50% de desconto na parte que lhes cabe em produtos acima de R$ 79, segundo o próprio serviço.

No frete grátis padrão da plataforma, em 2024 a regra é direta: produtos acima de R$ 79 e com frete de até R$ 50 podem ser enviados sem custo para o cliente, desde que o vendedor participe do Magalu Entregas. A coparticipação do lojista nesse frete gratuito varia conforme o peso do produto e a nota no indicador “Despacho no Prazo”. Quem mantém mais de 97% dos pedidos enviados dentro do prazo garante 75% de desconto na coparticipação; entre 87% e 97%, o desconto cai para 40%; abaixo disso, o lojista paga a cota cheia.

Para restaurantes que decidirem usar a malha de entregas do grupo em algum formato, o recado é direto: o preço não aparece na vitrine, mas o Magalu coloca a escala logística na mesa – com entregas até 60% a 70% mais baratas que alternativas de mercado, segundo o próprio CEO em apresentações recentes – como arma para atrair parceiro que hoje banca frete caro em concorrente.

Como ser (e virar) entregador do Magalu via Magalog

Quem quer ganhar dinheiro fazendo entrega para o universo Magalu não entra por um app de comida, mas pela Magalog, a transportadora do grupo. O cadastro de entregadores parceiros fica concentrado ali, em um modelo próximo ao dos aplicativos de corrida: o motorista escolhe quando e onde trabalhar e usa veículo próprio, alugado ou emprestado.

O passo a passo começa no formulário de cadastro da Magalog para entregadores parceiros, acessado com o ID Magalu – o mesmo login usado no super app e em outros serviços da casa. O processo é o seguinte:

  • acessar o formulário de entregador com o e-mail e senha do ID Magalu;

  • preencher dados pessoais e do veículo que será usado nas entregas;

  • enviar a documentação exigida e aguardar validação;

  • esperar a convocação, feita sob demanda, conforme surgem vagas na região e tipo de veículo.

A Magalog aceita cadastro com bicicleta (com bag), moto (com baú ou bag), carro hatch ou sedã, utilitários tipo Fiorino e caminhão de todos os portes. O entregador não precisa ser dono do veículo: pode usar automóvel de terceiro, com documentação do proprietário, ou alugado, desde que contrato e papéis estejam em dia.

Os requisitos mínimos são objetivos: ter pelo menos 18 anos, possuir um veículo em boas condições, portar CNH e CRLV atualizados (e ANTT quando necessário) e contar com um celular Android com plano de dados para rodar o app de entregas. Depois de aprovado, o entregador escolhe a região onde quer atuar, recebe ofertas diretamente no aplicativo, retira pacotes nas bases da Magalog, realiza as entregas e acompanha os repasses em um extrato digital com a próxima data de pagamento em destaque.

Na prática, “como ser entregador da Magalu” e “como virar entregador da Magalu” hoje passa obrigatoriamente pela Magalog. Não há porta lateral dentro do app de comida; o canal oficial fica no programa de Entregadores Parceiros da transportadora.

Magalu Entregas, lojista parceiro e o salto para comida

Para quem já vende pelo marketplace, o delivery Magalu não nasce do zero. O Magalu Entregas virou peça central da operação desde 2018, a ponto de as vendas de sellers superarem, em 2023, as lojas físicas – R$ 4,4 bilhões, com crescimento de 19,4% em relação a 2022, segundo números divulgados pela empresa. A mensagem é clara: a logística própria já carrega mais o negócio que a vitrine física.

O Magalu Entregas oferece hoje quatro caminhos principais para despachar pedidos:

  • Fulfillment Magalu: o vendedor manda estoque para os centros de distribuição; o Magalu cuida de armazenagem, embalagem e envio;

  • Entrega Vapt: modalidade de mesmo dia via transportadoras parceiras;

  • Agência Magalu Entregas: lojas físicas funcionam como pontos de postagem; mais de 400 delas estão habilitadas como agência;

  • Coleta e Entrega: coleta gratuita no centro de distribuição ou loja do parceiro para quem atinge volume mínimo e está na área de cobertura.

O indicador “Despacho no Prazo” dita privilégios: pedidos pagos até as 11h precisam ser despachados no mesmo dia; os demais, até o dia útil seguinte. A meta é encostar, ou passar, de 97% de pontualidade para destravar descontos agressivos na coparticipação de frete.

Levar isso para comida não é simples. O Magalu tem domínio em pacotes de até 30 kg, com definição clara de “produto leve” e “produto pesado” e estrutura de logística reversa (devolução via Correios, 1.200 lojas ou 300 agências do grupo). Mas prato quente tem janela de minutos, não de horas. O grupo tenta cobrir esse buraco com a experiência do aiqfome e com a infraestrutura de entregas ultrarrápidas da casa, como o Piscou, Chegou, que já cobre 139 municípios com entregas em até duas horas para produtos leves despachados da loja mais próxima, sem taxa extra.

A dúvida em aberto é se essa malha, desenhada para TV e celular, sustenta a densidade e a margem de ticket médio baixo da comida, em um mercado em que desconto em frete corrói rápido qualquer lucro de restaurante e plataforma.

Magalu, Amazon, AliExpress e o efeito colateral no delivery

O investimento pesado em logística não gira só em torno do prato do dia. Magalu vem usando a Magalog como carta de barganha em acordos grandes, como o firmado com a Amazon, em que toda venda da varejista brasileira dentro do site americano será entregue pela transportadora do grupo, em uma fase inicial voltada a eletrodomésticos e bens duráveis. Em uma segunda etapa, a previsão é que a Magalog passe a distribuir também pedidos da própria Amazon no Brasil.

Na outra ponta, o varejista brasileiro também se associou ao AliExpress. Um memorando de entendimento assinado em 2024 prevê que produtos de estoque próprio do Magalu, principalmente bens duráveis, passem a ser vendidos dentro do AliExpress Brasil, enquanto itens da linha Choice, mais premium e com promessa de entrega rápida, serão vendidos pelo Magalu em seu canal.

Esses acordos reforçam a estratégia de usar a logística como produto: a mesma rede que leva importado do AliExpress e geladeira comprada via Amazon pode distribuir pedido de comida do aiqfome. Se der certo, o grupo cria um efeito de rede perigoso para concorrentes: quanto mais parceiros de alto volume, menor o custo unitário de cada entrega, inclusive a de prato feito.

O ponto que não aparece nos anúncios é a concentração de infraestrutura no Sudeste: hubs em rodovias estratégicas como a Anhanguera, em Louveira (SP), e centros em Contagem (MG). O delivery de comida baseado nessa malha tende a chegar com capilaridade ao interior com apoio de parceiros, mas a ultrarrápida – aquela que ameaça iFood – deve ficar restrita aos 139 municípios já atendidos por serviços como Piscou, Chegou e às grandes cidades onde aiqfome e Plus Delivery, outra marca do grupo, mantêm operação.

O Magalu não está “lançando um app de delivery” do zero. Está empacotando aiqfome, Magalog e Magalu Entregas em um mesmo discurso de super app, apoiado em dinheiro de instituições como IFC e IDB Invest para turbinar tecnologia, IA e nuvem própria. O iFood não perde o sono com release; perde com frota e restaurante migrando. É aí que a briga começa: na disputa pelo entregador, que agora tem mais uma tela de mapa no Android para escolher.