A startup chinesa de IA Manus vai se separar da Meta, voltar a atuar de forma independente e apagar dados de parte dos usuários por exigência de reguladores.

Adicione ao Google Notícias
Neste artigo
  1. A Manus é da Meta? O que muda com a separação
  2. O que é a Manus e por que ela importa
  3. Quais dados da Manus serão apagados e quando fazer backup
  4. Geopolítica, Tencent no radar e o que fica em aberto

Na prática, a Manus AI deixa de ser controlada pela dona de Facebook e Instagram depois que autoridades chinesas determinaram o desfazimento do negócio de mais de US$ 2 bilhões. Como parte desse divórcio, a startup informou que contas em “jurisdições específicas” terão todos os dados gerados desde 29 de dezembro de 2025 apagados ainda em agosto, com bloqueio temporário de acesso e necessidade de backup prévio por parte dos usuários.

A Manus é da Meta? O que muda com a separação

A Manus deixou de ser, na prática, uma empresa da Meta. A big tech concluiu a compra no fim de dezembro de 2025, em um acordo estimado em mais de US$ 2 bilhões, mas o governo chinês ordenou a reversão da transação poucos meses depois, em abril de 2026, alegando segurança nacional e controle de tecnologia estratégica.

Desde então, começou um desmonte acelerado da integração: segundo comunicados oficiais da própria Manus e informações citadas por autoridades chinesas, os dois lados suspenderam o compartilhamento de dados e concluíram a separação operacional em maio. Agora, a startup volta a operar de forma autônoma, sem controle acionário da Meta, e se reposiciona como fornecedora de agentes de IA para “milhões de usuários em todo o mundo”, nas palavras da própria empresa.

Esse caso vai além de uma disputa contratual. A ordem de reversão partiu de órgãos de revisão de investimento estrangeiro e de planejamento econômico da China, em um ambiente de restrições crescentes ao capital americano em startups locais de IA. Há conversas para que a Tencent assuma uma fatia relevante da Manus, possivelmente se tornando a maior acionista, mas esse movimento ainda não foi confirmado por nenhuma das partes.

O que é a Manus e por que ela importa

A Manus é uma startup focada em “IA agentic”: em vez de um chatbot que só responde pergunta, a empresa vende agentes autônomos capazes de planejar e executar tarefas completas com pouca intervenção humana. Esses agentes conseguem decompor objetivos, pesquisar, analisar dados, gerar e revisar conteúdo, executar e corrigir código, automatizar fluxos de trabalho corporativos e tocar projetos de ponta a ponta.

Desde o lançamento em 2025, a Manus já processou trilhões de tokens e milhões de tarefas automatizadas, atendendo tanto usuários finais quanto empresas, segundo a própria companhia. Foi esse foco em agentes, e não só em modelos de linguagem genéricos, que atraiu a Meta lá atrás: o plano era manter a Manus como produto comercial e, ao mesmo tempo, encaixar a tecnologia na pilha de IA da gigante, incluindo o Meta AI e apps como Facebook, Instagram e WhatsApp.

O veto chinês interrompe essa integração, mas não encerra o produto. A Manus afirma que prepara um “novo conjunto de recursos” para ampliar o que seus agentes conseguem fazer, sem detalhar o que vem aí. Em paralelo, a startup precisa mostrar que consegue se sustentar sem o fluxo de capital da Meta em meio a uma corrida de IA com custos crescentes de modelo, infraestrutura e equipe especializada.

Quais dados da Manus serão apagados e quando fazer backup

A parte mais sensível para quem usa Manus é o apagão de dados. A empresa comunicou que irá excluir informações geradas por alguns usuários desde 29 de dezembro de 2025 – exatamente a data em que a Meta assumiu o controle – para cumprir exigências regulatórias em “determinadas jurisdições”. Tudo que foi criado no período entra no pacote: tarefas, arquivos, execuções de agentes, históricos de interação e fluxos automatizados.

Segundo a Manus, a exclusão acontece entre 23 e 24 de agosto, com as contas afetadas bloqueadas durante a janela. A startup liberou uma ferramenta de backup que já está no ar e orienta que o download dos dados seja feito até 7h59 de 23 de agosto no horário de Singapura – 20h59 de 22 de agosto em Brasília. A orientação é rodar o backup agora e repetir após qualquer nova tarefa, já que a ferramenta só captura o que existe no momento da exportação.

A empresa repete dois pontos: que o apagamento faz parte da separação da Meta para cumprir regras locais e que não está ligado a incidente de segurança. Ao mesmo tempo, a Manus não publicou a lista de países atingidos nem o tamanho do grupo afetado. Usuários brasileiros já relatam recebimento de e-mails de aviso e cancelamento automático do Manus Pro durante o processo, mas quem se cadastrou com Apple ID ou login do Facebook pode depender apenas das notificações dentro do app.

Geopolítica, Tencent no radar e o que fica em aberto

A reversão da compra da Manus evidencia o quanto IA virou peça de xadrez geopolítico. A China bloqueou uma transação já concluída, em um raro movimento de desfazer M&As, mesmo com a startup sediada em Cingapura desde 2025. O recado das autoridades é direto: tecnologia de agentes de IA é tratada como estratégica demais para ficar sob controle americano, ainda que a estrutura formal da empresa esteja fora do território chinês.

Do lado de negócios, há negociações em curso para recomprar a fatia da Meta por algo próximo do valor original de cerca de US$ 2 bilhões, com a Tencent e antigos investidores da Manus à mesa, segundo informações citadas por veículos financeiros internacionais e pela própria Manus. Se o acordo fechar, a startup troca um dono americano por um conglomerado chinês com braço pesado em games, nuvem e internet, o que altera o tabuleiro competitivo e regulatório em outra direção.

Enquanto isso, ficam lacunas: a Manus não divulgou quantas contas terão dados apagados, nem se haverá alguma forma de recuperar material perdido após 24 de agosto. Quem depende da plataforma para trabalho crítico ou pesquisa em andamento precisa tratar o backup local como versão oficial até, pelo menos, 25 de agosto, quando a empresa planeja abrir um portal de restauração.