A Nvidia teria fechado um acordo para comprar a plataforma de IA Hugging Face por US$ 12,9 bilhões (cerca de R$ 66 bilhões), segundo o site The Information, citado por múltiplos veículos estrangeiros, em uma movimentação que leva a empresa líder em GPUs direto para o centro do ecossistema de IA aberta.

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Neste artigo
  1. O que é a Hugging Face e por que ela vale US$ 12,9 bi?
  2. Por que a Nvidia quer tanto a Hugging Face?
  3. A Nvidia investe em IA? E o que está acontecendo com a empresa agora?
  4. Que diabos é a Nvidia e quem é “dono” da empresa?

O valor de US$ 12,9 bilhões representa um salto em relação à avaliação de US$ 7 bilhões usada em negociações entre as duas empresas no fim de 2025, de acordo com o Financial Times, e colocaria sob controle da Nvidia a principal vitrine de modelos de IA de código aberto do mercado. Até o momento, Nvidia e Hugging Face não responderam a pedidos de comentário feitos por agências internacionais, e o negócio ainda não foi oficialmente anunciado.

O que é a Hugging Face e por que ela vale US$ 12,9 bi?

Fundada em 2016 em Nova York por três empreendedores franceses, a Hugging Face ganhou o apelido de “GitHub da IA”: uma plataforma onde desenvolvedores e empresas hospedam, compartilham e baixam modelos e datasets de inteligência artificial. Desde o começo, a empresa se posicionou no código aberto. O nome da companhia passou a aparecer em praticamente toda conversa sobre IA justamente por concentrar modelos que podem ser baixados, inspecionados, modificados e executados em qualquer infraestrutura, em contraste com a abordagem fechada de laboratórios como OpenAI e Anthropic.

A plataforma atua como comunidade e infraestrutura ao mesmo tempo. Reúne modelos, oferece ferramentas para testar e colocar IA em produção e, em ritmo crescente, vende serviços de computação para rodar esses modelos em nuvem. Em 2023, a Hugging Face recebeu US$ 235 milhões em uma rodada que avaliou a companhia em US$ 4,5 bilhões, com participação de grupos como Salesforce, Alphabet, Amazon, IBM Ventures e da própria Nvidia. Um cheque de US$ 12,9 bilhões multiplicaria quase por três esse valuation em menos de três anos, com múltiplo de receita na casa de dezenas de vezes — um tipo de número que hoje aparece concentrado em empresas de IA.

Nos últimos meses, a Hugging Face também entrou no noticiário por outro motivo: dois modelos de IA da OpenAI, ainda em fase de testes, escaparam de um ambiente de confinamento, acessaram a internet e se infiltraram em sistemas da plataforma, o que elevou o debate sobre segurança de agentes autônomos e o grau de controle efetivo sobre esses sistemas.

Por que a Nvidia quer tanto a Hugging Face?

A Nvidia domina o hardware de IA. As GPUs da empresa viraram padrão de fato para treinar e rodar modelos generativos, o que se reflete até na Bolsa brasileira, onde o BDR da companhia ganhou espaço entre investidores de varejo. Mas o cenário competitivo mudou: OpenAI, Google, Amazon e Anthropic desenvolvem chips próprios para reduzir a dependência das placas da Nvidia. Se esses projetos chegarem à escala que essas empresas projetam, a Nvidia perde poder de barganha justamente com quem hoje mais consome suas GPUs.

Nessa disputa, a Hugging Face aparece como peça estratégica. Ao controlar a principal plataforma de IA open-source, a Nvidia passa a ter uma via direta com centenas de milhares de desenvolvedores e empresas que não têm capacidade ou interesse em criar chip proprietário. É um público com perfil para continuar comprando GPUs por muitos anos. A Nvidia já direciona dezenas de bilhões de dólares para modelos e software de IA abertos; com a Hugging Face sob o mesmo guarda-chuva, a empresa passa a não só produzir modelos, mas também controlar a prateleira onde eles são distribuídos.

A transação também se conecta a outro problema pouco glamouroso, mas central para a companhia: o que fazer com a capacidade ociosa de nuvem assumida em acordos grandes de data center com parceiros ao redor do mundo. A Hugging Face já comercializa computação em nuvem para rodar modelos da plataforma. Ao integrar essa oferta ao catálogo da Nvidia, a empresa ganha um canal direto para empurrar mais uso de GPU e monetizar infraestrutura que, na ausência de demanda, ficaria subutilizada.

A Nvidia investe em IA? E o que está acontecendo com a empresa agora?

A Nvidia investe pesado em IA — esse é o eixo da estratégia atual da companhia. No papel, a Nvidia continua sendo uma fabricante de semicondutores sediada em Santa Clara, na Califórnia, Estados Unidos, nascida no mercado de placas de vídeo para games. Na prática, assumiu o papel de fornecedora-chave de hardware para praticamente todo laboratório relevante de IA generativa.

A movimentação para comprar a Hugging Face vem na esteira de uma sequência de aquisições na área: nos últimos 12 meses, a empresa levou startups como Kumo, ShedMD, Illumex e Groq, todas com atuação em modelos de fundação, dados ou software de IA, segundo a Reuters. A Nvidia também informou ter US$ 18 bilhões comprometidos em investimentos em ações para o restante do ano, com boa parte ligada a iniciativas de IA. Paralelamente, os resultados trimestrais seguem acima das expectativas de analistas, o que ajuda a explicar por que as ações da empresa permanecem em patamar histórico.

Fachada de prédio corporativo da Nvidia com logo verde
Ações da Nvidia reagiram a mais um ciclo de resultados fortes e avanço sobre empresas de IA (Imagem: reprodução/br.investing.com)

A companhia tenta sair da posição de fornecedora de hardware para ocupar o espaço de infraestrutura completa de IA — chip, software, serviços e, se o acordo se confirmar, a maior vitrine de modelos abertos do planeta. O ponto de fricção é a reação da comunidade: boa parte do apelo da Hugging Face vinha da imagem de neutralidade. Sob o comando de uma empresa americana de chips avaliada em trilhões, cada decisão de produto e parceria será usada como termômetro dessa neutralidade.

Que diabos é a Nvidia e quem é “dono” da empresa?

Para quem ainda associa Nvidia só a placa de vídeo de PC gamer, o retrato atual é outro: a empresa é hoje uma corporação listada em Bolsa, com capital pulverizado entre milhares de investidores institucionais e de varejo em diversos países. Não existe um “país dono” da Nvidia, mas a companhia é americana, regulada pelos Estados Unidos e usada amplamente como proxy de aposta em IA nas bolsas globais.

A origem, no entanto, segue a mesma: chips gráficos. A Nvidia cresceu fornecendo GPUs para games e depois constatou que a mesma arquitetura funcionava muito bem em cargas de IA. A partir daí, passou a investir em software, SDKs e frameworks para transformar suas placas no caminho mais direto para qualquer empresa treinar e rodar modelos. A chamada “virada de IA” aparece nos números: hoje, a maior parte do crescimento da receita vem de data centers voltados a IA, não de placas para consumidor final.

Com a possível compra da Hugging Face, a Nvidia dá um passo além e entra de vez no território que até agora ocupava de forma lateral: o controle da infraestrutura de desenvolvimento de IA aberta. Desenvolvedores que dependem da Hugging Face para publicar modelos já levantam a questão de quanto tempo a plataforma continuará tratando AMD, Intel ou qualquer outro fornecedor de chip com o mesmo nível de exposição dedicado às GPUs da Nvidia. Esse é o ponto sensível que acompanha a cifra de US$ 12,9 bilhões.