Na semana mais movimentada de outubro, a do Halloween, a Uber processou cerca de 320 milhões de viagens e pedidos. Desse total, só quatro corridas foram pedidas por um agente de inteligência artificial, segundo a própria empresa na teleconferência de resultados do terceiro trimestre, nesta quarta-feira (4).
Adicione ao Google NotíciasNeste artigo
- Uber teve 4 corridas pedidas por agente de IA em 320 milhões de viagens
- Apple reduz o teto diário de IA dos engenheiros, segundo a Bloomberg
- Canva reestrutura 22% da equipe e corta previsão por custo de IA
- IA aumenta a produtividade individual, mas não o resultado das empresas
- Como usar IA para tomar decisões no dia a dia: comparar e checar antes
No mesmo dia, a Bloomberg revelou que a Apple baixou o teto diário de gasto com IA de parte dos engenheiros, e a Canva reestruturou 22% da equipe depois de cortar a previsão de receita pelo custo da tecnologia. As três notícias apontam para o mesmo lugar: fazer uma tarefa mais rápido com IA ainda não convenceu o consumidor a delegar nem as empresas a pagar a conta sem retorno medido. O valor que sobra está em decidir melhor.
Uber teve 4 corridas pedidas por agente de IA em 320 milhões de viagens
Segundo o diretor financeiro, Balaji Krishnamurthy, o Uber Eats recebeu 500 pedidos feitos por agentes de IA na mesma semana, algo como 0,00016% do volume total. O CEO Dara Khosrowshahi não escondeu o tamanho do problema: "É muito, muito cedo, e a tração que estamos vendo até agora é muito limitada", disse, segundo o TechCrunch.
O próprio CEO deu a explicação mais provável. Pedir uma corrida no aplicativo da Uber leva, em média, 50 segundos, e repetir um pedido favorito no Uber Eats, 90 segundos. Na prática, o agente compete com um botão que o usuário aperta de olhos fechados.
Mesmo assim, Khosrowshahi segue otimista. "Achamos que é mais uma oportunidade de chegar à nossa plataforma. Achamos que será positivo para a demanda", afirmou. Segundo ele, há hoje cerca de oito grandes assistentes de IA no mercado, número que deve passar de dez.
A Uber não está sozinha. Na teleconferência de 30 de outubro, a DoorDash contou que recebeu só "algumas centenas" de pedidos de agentes de terceiros, como Muse, Instinct e Fo. A empresa faz, em média, 3 milhões de entregas por dia. "Você nunca quer lutar contra a gravidade. Mas, ao mesmo tempo, não quer se iludir", resumiu o CEO Tony Xu. O contraste com o hype é grande: a Instinct captou dinheiro com avaliação de US$ 10 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões), e o Muse, da Meta, chegou ao topo da App Store americana com mais de 10 milhões de usuários, segundo a Meta. OpenAI, Anthropic, Google e SpaceXAI (Grok) também oferecem agentes pessoais.
Apple reduz o teto diário de IA dos engenheiros, segundo a Bloomberg
Segundo a Bloomberg, que ouviu pessoas a par da mudança, a Apple baixou no mês passado o limite diário de gasto com modelos de IA de alguns engenheiros de US$ 300 para US$ 200, de cerca de R$ 1.650 para R$ 1.100 por pessoa, por dia (conversões diretas, a uma cotação aproximada de R$ 5,50). Novos cortes podem levar alguns times de engenharia a US$ 100 (R$ 550).
Fora da engenharia, muitos grupos já trabalham com teto de US$ 100 por dia, e a Apple avalia descer até US$ 25 (cerca de R$ 140) em alguns times. Quem precisar de mais pode pedir exceção à liderança. Os funcionários usam Claude, ChatGPT e Gemini, e algumas equipes são incentivadas a trocar por modelos mais baratos ou que rodam no próprio aparelho. Não está claro quais ferramentas entram no limite, e a Apple não confirmou a mudança publicamente.
Segundo a Bloomberg, poucos funcionários usavam o teto cheio de US$ 300, e não está claro quanto a Apple vai economizar. O corte chega na mesma semana em que a empresa, agora sob o comando de John Ternus, reportou gasto recorde de US$ 45,8 bilhões em pesquisa e desenvolvimento no ano fiscal de 2026, alta de 32%, puxada em parte por IA.
A Apple segue um caminho já aberto no Vale do Silício. Depois de um ano de "tokenmaxxing", em que gastar o máximo de tokens virou medida de produtividade, com rankings internos em empresas como a Meta, vieram os limites. A Accenture, segundo a Forbes, reduziu a verba central para o Claude a US$ 29 (cerca de R$ 160) por funcionário por mês.

Canva reestrutura 22% da equipe e corta previsão por custo de IA
A Canva cortou, remanejou ou reestruturou 1.271 pessoas, 22% do quadro, na primeira grande rodada do tipo em 13 anos. Parte do grupo muda de função ou vai para a sede em Sydney, segundo a Fast Company; quantos foram de fato demitidos não foi informado.
"Este tem sido nosso ano mais difícil e, como dissemos no início do ano, nosso crescimento desacelerou pela primeira vez em uma década", escreveu a CEO Melanie Perkins aos funcionários. A empresa junta as equipes de produto, crescimento e plataforma e faz cada pessoa acumular mais funções.
A IA entra na conta pelo lado do custo. A Canva desenvolve modelos próprios para depender menos de terceiros, mas reduziu a previsão de crescimento de receita de 30% para 20% por causa dos custos elevados com IA, e investidores iniciais remarcaram a avaliação para cerca de US$ 35 bilhões (R$ 192 bilhões). E concorre com o ChatGPT e o Gemini, que já montam pôsteres e apresentações a partir de um pedido em texto. A empresa não atribui os cortes só à IA: a carta da CEO fala em desaceleração e em atrito entre as equipes.

IA aumenta a produtividade individual, mas não o resultado das empresas
O descompasso aparece nos números. No estudo "The State of AI 2026", publicado em agosto pela McKinsey com 1.719 participantes de 97 países, 80% dizem que a IA melhorou a produtividade individual, mas só 37% relatam impacto positivo no resultado operacional da empresa.
No Brasil, a Ânima Educação vive a mesma cobrança. Segundo Bruno Machado, executivo do grupo, o consumo passou de 10 bilhões de tokens em 2025, dez vezes o de 2024. Ele mesmo diz que esse volume "não comprova retorno" e resume: "token sem resultado é custo". Os ganhos que a Ânima aponta, todos informados pela própria empresa, são de decisão e processo: a fatia de atendimentos resolvidos sem atendente humano subiu de 30% para 45% em uma das marcas, com meta de chegar perto de 90%, e modelos de previsão de inadimplência permitiram dispensar escritórios de cobrança que ficavam com 2% do valor recuperado.
| Empresa ou estudo | Dado | Fonte |
|---|---|---|
| Uber | 4 corridas pedidas por agente de IA em cerca de 320 milhões de viagens e pedidos na semana do Halloween | Teleconferência do 3º trimestre |
| Uber Eats | 500 pedidos feitos por agentes de IA na mesma semana | Teleconferência do 3º trimestre |
| DoorDash | Algumas centenas de pedidos de agentes, contra cerca de 3 milhões de entregas por dia | Teleconferência de 30 de outubro |
| Apple | Teto diário de IA de alguns engenheiros caiu de US$ 300 para US$ 200 | Bloomberg (fontes anônimas) |
| Canva | 1.271 pessoas (22%) afetadas; previsão de crescimento de receita de 30% para 20% | Carta da CEO e Fast Company |
| McKinsey | 80% veem ganho de produtividade individual; 37% veem impacto no resultado da empresa | The State of AI 2026 |
Como usar IA para tomar decisões no dia a dia: comparar e checar antes
Para quem usa ChatGPT ou Gemini no celular, a lição da Uber é direta. Se nem para pedir um carro as pessoas delegam a etapa final, não há motivo para entregar a um agente o pagamento, a assinatura de um contrato ou qualquer escolha difícil de desfazer. O ganho real está antes disso: pedir ao chatbot que compare dois celulares pela ficha técnica, simule as parcelas de um financiamento com juros diferentes ou aponte sinais de golpe numa mensagem suspeita. Nesses usos, a IA organiza as opções e testa premissas, e a pessoa decide com mais informação.




