O Itaú Unibanco assinou nesta segunda-feira (26) um acordo para comprar 100% da NeoSpace, startup brasileira de inteligência artificial, por R$ 2,925 bilhões. O banco passa a ser dono da empresa que, há quase dois anos, já desenvolvia para ele modelos de IA aplicados a crédito, relacionamento com clientes e prevenção a fraudes.

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Neste artigo
  1. Como o Itaú vai pagar R$ 2,925 bilhões pela NeoSpace
  2. O que é a NeoSpace: IA que lê dados, não só texto
  3. Onde a IA da NeoSpace já aparece no Itaú: crédito, fraude e o ia.i
  4. Da Zup à compra total: a história entre o Itaú e os fundadores
  5. Cade, Banco Central e o que ainda não foi divulgado sobre a compra

Para quem tem conta no Itaú, nada muda hoje: a operação ainda depende do aval do Cade e do Banco Central, e o banco não anunciou produto novo nem data. O que a compra mostra é a direção: o Itaú quer modelos próprios, treinados com os dados de milhões de clientes, para calcular crédito, personalizar o atendimento e alimentar o ia.i, sua plataforma de IA generativa.

Como o Itaú vai pagar R$ 2,925 bilhões pela NeoSpace

Segundo o comunicado do banco, reproduzido pelo Valor Econômico, o valor não sai de uma vez. Uma parcela é paga no fechamento do negócio e o restante, ao longo de cinco anos. A Bloomberg Línea informa que a transação é inteiramente em dinheiro, sem troca de ações. O tamanho da primeira parcela não foi divulgado.

A NeoSpace continua com gestão e operação autônomas. Bruno Pierobon, cofundador, segue como CEO, e o acordo prevê a manutenção da equipe e das atividades de pesquisa e desenvolvimento. "Essa nova etapa cria condições para aprofundar nosso trabalho de pesquisa e desenvolvimento, com a continuidade da equipe e da visão que deram origem à empresa", disse Pierobon em nota.

O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, tratou a compra como peça de uma ambição maior. "O Brasil já demonstrou sua capacidade de estabelecer referências internacionais em inovação bancária, e temos a oportunidade de elevar esse patamar com inteligência artificial de fronteira", afirmou. É discurso de quem quer competir com bancos globais em tecnologia, e os resultados ainda precisam aparecer fora do papel.

Em escala, o cheque é pequeno para o comprador: segundo o NeoFeed, o Itaú tem valor de mercado de cerca de R$ 532 bilhões, e a NeoSpace sai por menos de 1% disso.

O que é a NeoSpace: IA que lê dados, não só texto

Fundada em 2023, a NeoSpace se especializou no que chama de Large Data Model (LDM). A diferença para os modelos de linguagem que popularizaram a IA generativa, como os do ChatGPT, está na matéria-prima. Um LLM aprende com texto para conversar e escrever. O LDM é treinado para cruzar bilhões de registros estruturados (tabelas, históricos, transações) e não estruturados de uma empresa, achar padrões entre eles e devolver recomendações ou decisões em tempo real.

"Essa tecnologia permite extrair o real significado e valor dos dados estruturados e não estruturados das empresas, pois é capaz de cruzar bilhões de registros e orientar decisões de negócio com um nível de resultado muito superior aos modelos existentes de Machine Learning", afirmou Pierobon em julho de 2026.

A própria NeoSpace descreveu, em julho, um dos métodos de treino: o sistema recebe cerca de 24 meses de dados de usuários, usa os primeiros 18 meses para aprender os padrões de comportamento e testa as previsões nos seis meses seguintes. A empresa diz ser a maior usuária de GPUs Nvidia B200 da América Latina e planejava multiplicar por cinco a capacidade de computação em dois anos. Segundo o Pipeline, do Valor, ela roda os modelos em parceria com AWS e Oracle.

Os números de negócio vêm da própria empresa e não foram auditados: a NeoSpace projetou faturar mais de R$ 300 milhões em 2026, dobrar a receita a cada ano e passar de R$ 3 bilhões em 2030. A empresa também começou a contratar nos Estados Unidos, seu primeiro grande alvo fora do país.

Logotipo do Itaú em agência do banco
Divulgação/Itaú (Imagem: reprodução)
Servidores com GPUs Nvidia em data center usados para treinar modelos de IA
Reprodução

Onde a IA da NeoSpace já aparece no Itaú: crédito, fraude e o ia.i

A parceria anterior à compra gerou soluções de IA generativa em quatro áreas, segundo o banco: crédito, gestão financeira, relacionamento com clientes (CRM) e prevenção a fraudes. O próximo passo declarado é o ia.i. A tecnologia da startup deve ajudar a plataforma a personalizar serviços, dar orientações financeiras e montar ofertas de crédito ajustadas ao perfil de cada cliente.

Quando o banco entrou no capital da startup, em janeiro de 2025, os objetivos citados eram trocar os chatbots tradicionais por IA, antecipar necessidades dos clientes e melhorar a análise de crédito. Ricardo Guerra, diretor de tecnologia do Itaú, disse na época que o investimento permitiria "criar soluções exclusivas, ainda mais preditivas, contextualizadas e hiperpersonalizadas". Em termos práticos, a ideia é que ofertas de crédito e alertas de transação suspeita passem a vir de modelos treinados com o histórico financeiro do próprio cliente, mas o banco não detalhou o que muda nem quando.

O banco não parte do zero. Em 2025 o Itaú informava ter mais de 430 cientistas de dados, 60 engenheiros de machine learning e mais de 400 casos de uso de IA em operação. Desde o fim de 2023 também oferece a Inteligência Itaú, assistente de IA generativa que faz transferências por Pix.

Da Zup à compra total: a história entre o Itaú e os fundadores

É a segunda vez que o Itaú compra uma empresa de Pierobon, Felipe Almeida e Gustavo Debs. Os três fundaram a Zup Innovation, cujo controle o banco comprou em 2020.

A aproximação recomeçou em janeiro de 2025, numa rodada de US$ 18 milhões liderada pelo Itaú. O banco pôs US$ 15 milhões (R$ 88,5 milhões no câmbio da época) e ficou com 15% do capital. Os outros US$ 3 milhões vieram de investidores-anjo: Micky Malka (Ribbit), Martin Escobari (General Atlantic), Nigel Morris (QED) e Hans Morris (NYCA). Segundo o Brazil Journal, o Itaú garantiu 12 meses de exclusividade na solução conversacional e exclusividade perpétua sobre o que fosse criado em conjunto.

Na época, a startup foi avaliada em cerca de US$ 100 milhões, segundo o NeoFeed. Em agosto de 2026, o Pipeline informou que a NeoSpace negociava uma rodada seed de até US$ 250 milhões, com avaliação de US$ 1,25 bilhão, o que seria a maior seed da América Latina. A rodada estava em curso, e não se sabe se foi concluída ou se deu lugar à venda para o banco.

QuandoO que aconteceu
2020Itaú compra o controle da Zup, dos mesmos fundadores
2023NeoSpace é fundada
Janeiro de 2025Itaú lidera rodada de US$ 18 milhões e fica com 15%
Agosto de 2026Pipeline noticia negociação de seed de até US$ 250 milhões (não confirmada)
26 de outubro de 2026Itaú assina a compra de 100% por R$ 2,925 bilhões

A compra também se encaixa numa série de movimentos do Itaú. No dia 14 de outubro, o banco comprou 35% da Prisma, gestora de investimentos alternativos.

Cade, Banco Central e o que ainda não foi divulgado sobre a compra

O Itaú não informou o valor da primeira parcela, o calendário dos pagamentos seguintes nem se parte do preço depende de metas (o chamado earn-out). Também não há prazo para o fechamento: Cade e Banco Central ainda vão analisar a operação.

A dúvida mais relevante para o mercado é o futuro dos outros clientes. A NeoSpace tinha projetos em telecomunicações, aviação e energia e, segundo o NeoFeed, negociações avançadas nos Estados Unidos e na Europa. Com o Itaú como dono, fica difícil imaginar outro grande banco brasileiro entregando seus dados a ela, e o comunicado não diz se a startup seguirá vendendo para fora do grupo. Receita real, número de funcionários e quanto cada sócio recebe também não foram revelados. O próximo passo é a notificação da compra ao Cade, que abre o prazo de análise.