Modelos climáticos internacionais projetam 2026 como candidato a Super El Niño, com alta probabilidade de um El Niño muito forte se estendendo até 2027 e empurrando o clima global para extremos ainda mais perigosos.

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Neste artigo
  1. O que é um Super El Niño e por que 2026 preocupa tanto?
  2. Quais impactos do Super El Niño no Brasil em 2026 e 2027?
  3. Como o aquecimento global está turbinando o El Niño?
  4. Brasil está se preparando ou repetindo 2024?

O El Niño atual já foi confirmado por centros como a NOAA, que estimam probabilidade de até 96% de o evento alcançar intensidade forte ou muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Se a anomalia de temperatura no Pacífico tropical ultrapassar +2 ºC, o fenômeno entra na categoria de Super El Niño, patamar raríssimo que, segundo análises recentes, deve ser atingido novamente agora.

O que é um Super El Niño e por que 2026 preocupa tanto?

El Niño é o velho conhecido: aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical que reorganiza a circulação da atmosfera, mexe nos ventos alísios e distorce padrões de chuva e temperatura no planeta inteiro. O rótulo “Super El Niño” não é oficial, mas virou jargão entre meteorologistas para episódios excepcionais, quando a anomalia no Pacífico supera +2 ºC em relação à média histórica.

Eventos desse nível são raros. Nos últimos 150 anos, só quatro entraram nesse clube: 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Todos deixaram rastro pesado em economia, agricultura e infraestrutura. O de 1877 é lembrado como uma catástrofe humanitária global; o de 1997-98 combinou enchentes históricas em várias regiões com secas extremas em outras; 2015-16 coincidiu com alguns dos anos mais quentes já registrados.

Agora, os modelos indicam que 2026 tende a repetir essa intensidade. O contexto é outro. O planeta está mais quente, os oceanos acumulam mais calor e os extremos climáticos já ficaram mais frequentes. Um El Niño muito forte hoje não atua num sistema “normal”, mas em um clima já desbalanceado pelo aquecimento global – o que amplia o risco de secas, enchentes e ondas de calor simultâneas em vários pontos do mapa.

Quais impactos do Super El Niño no Brasil em 2026 e 2027?

Para o Brasil, o roteiro projetado para um Super El Niño em 2026/2027 segue o padrão clássico, mas com esteroides. No Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste, a combinação esperada é de menos chuva, temperaturas mais altas e secas prolongadas. Isso pressiona geração de energia hidrelétrica em bacias como Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia e abre espaço para queimadas em larga escala, sobretudo em Amazônia Legal e Pantanal.

Mapa do Brasil com áreas de seca no Norte e chuvas intensas no Sul durante o Super El Niño de 2026
Projeção de impactos do Super El Niño 2026 no Brasil: seca no Norte e chuvas excessivas no Sul (Imagem: reprodução/greenpeace.org)

O Sul entra na outra ponta do desequilíbrio: mais umidade, mais sistemas de chuva persistente, maior risco de enchentes, enxurradas e deslizamentos. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná aparecem no topo da lista de vulnerabilidade, com Porto Alegre ainda em recuperação de desastres recentes e sob atenção máxima para a próxima temporada chuvosa.

No Sudeste e no restante do Centro-Oeste, o sinal é de ondas de calor mais frequentes combinadas com umidade baixa, com impacto direto em saúde pública, agricultura e segurança hídrica urbana. A experiência de 2023/2024 dá a prévia: o El Niño forte daquele período trouxe a maior seca recente em extensão, incêndios recordes na Amazônia e no Pantanal e enchentes de escala inédita no Rio Grande do Sul. Agora, o cenário esperado é de algo igual ou pior, com a diferença de que a janela de impacto de 2026 se estende, com alta probabilidade, até pelo menos o segundo semestre de 2027.

Como o aquecimento global está turbinando o El Niño?

El Niño é natural e cíclico, mas já não joga sozinho. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e a pecuária aquecem o planeta, e os oceanos absorvem a maior parte desse excesso de calor. Com mares mais quentes, o mesmo El Niño de décadas atrás vira outro bicho: suas anomalias se somam a uma linha de base já elevada, empurrando temperaturas da superfície do mar e da atmosfera para patamares extremos.

O resultado prático é amplificação de extremos. Chove mais onde já costuma chover com El Niño forte. Falta água em escala maior onde o fenômeno tradicionalmente reduz as chuvas. Ondas de calor duram mais, atingem mais gente e encostam no limite da saúde humana em várias cidades. Em 2024, o calor oceânico extremo associado ao El Niño e ao aquecimento global já provocou o quarto evento global de branqueamento em massa de corais, afetando recifes brasileiros e deixando comunidades costeiras mais expostas a perdas econômicas e insegurança alimentar.

Em terra firme, o desmatamento e a urbanização caótica fazem o serviço sujo de amplificar o estrago. Florestas degradadas perdem capacidade de segurar umidade e regular chuvas; áreas de mata fragilizada queimam mais fácil em anos secos; cidades canalizam rios, cimentam áreas de drenagem e empurram moradia para encostas instáveis. Quando o Super El Niño bate na porta desse arranjo, o desastre não é só climático — é de planejamento.

Brasil está se preparando ou repetindo 2024?

Enquanto centros climáticos apontam que há mais de 80% de probabilidade de um El Niño muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027, a discussão deixou de ser se o evento vai acontecer e passou a ser que tipo de resposta os governos vão conseguir entregar a tempo. Órgãos como o CEMADEN já mapeiam, com meses de antecedência, as regiões de maior risco: Norte e Nordeste em alerta para seca e incêndios, Pantanal e áreas de transição Amazônia–Cerrado em vigilância máxima, Sul em preparação para excesso de chuva.

Sessão do Supremo Tribunal Federal relacionada a decisões ambientais
STF pressiona União e estados a detalhar planos diante dos riscos do Super El Niño (Imagem: reprodução/greenpeace.org)

Do lado econômico, a conta também chega. O Banco Central já reconheceu o impacto inflacionário do El Niño recente sobre preços de alimentos, especialmente os in natura. Menos água em reservatórios hidrelétricos significa energia mais cara; secas e enchentes derrubam produção agrícola, pressionando ainda mais o bolso de quem já gasta a maior parte da renda com o básico. Reagir só depois do desastre, como 2024 escancarou, sai muito mais caro do que investir em prevenção e adaptação.

No campo jurídico, o alerta chegou ao Supremo Tribunal Federal, que intimou União e estados de áreas críticas — como Pantanal e regiões de transição da Amazônia — a detalharem, em prazo curto, quais planos estão em curso diante das projeções para 2026 e 2027. Enquanto isso, centros internacionais de monitoramento mantêm o Pacífico Equatorial sob vigilância diária. As próximas atualizações de probabilidade e intensidade do El Niño, nos boletins de NOAA e de outros institutos, entram na rotina de quem toma decisão em energia, agricultura, saneamento e infraestrutura — e de qualquer gestor público que não queira virar apenas coadjuvante no próximo desastre anunciado.