O Nintendo Switch 2 ganhou seu primeiro jailbreak, ou desbloqueio, feito só por software: o ns2jb, publicado em 22 de outubro pelo pesquisador Sammy Hajhamid, roda código não autorizado no firmware 23.0.1 e já serviu para extrair arquivos de Deltarune e da beta de The Duskbloods. Ele não roda jogo pirata e some a cada reinicialização.

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Neste artigo
  1. Como funciona o jailbreak do Switch 2: do SmileBASIC 4 ao sistema de arquivos
  2. Switch 2 desbloqueado roda jogo pirata? O que o ns2jb libera
  3. OpenAI Codex, JetKVM e um SwitchBot: duas semanas de tentativa e erro
  4. Nintendo tira o SmileBASIC da eShop, mas há outras portas
  5. Primeiros dumps, risco de banimento e o Switch 2 "desbloqueado" à venda

Para quem tem o aparelho ou pensa em comprar um, a distinção pesa. O ns2jb abre o console para pesquisadores e desenvolvedores de homebrew, longe do "desbloqueio" que o mercado paralelo costuma vender. E a Nintendo já reagiu, tirando da eShop o aplicativo usado como porta de entrada.

Hajhamid, conhecido como pepsipu, anunciou o feito no X com a frase "i jailbroke the nintendo switch 2" e um vídeo de Mario Kart World com Cinnamoroll, Hatsune Miku e Peter Griffin na pista. O código está público no GitLab, e a explicação técnica saiu no blog do pesquisador. Nada de solda ou chip: o TechTimes resumiu o método como "no soldering iron, no hardware modification, and no specialized equipment required".

Como funciona o jailbreak do Switch 2: do SmileBASIC 4 ao sistema de arquivos

A entrada é o SmileBASIC 4, interpretador da linguagem BASIC vendido na eShop por cerca de US$ 30 e chamado de Petitcom 4 no Japão. É um app do Switch original, que roda no Switch 2 pela camada de retrocompatibilidade. Esse detalhe explica tudo.

No primeiro estágio, um estouro de inteiro no parser do SmileBASIC permite corromper a memória de forma controlada e montar uma cadeia ROP, técnica que reaproveita trechos de código já carregados em vez de injetar instruções novas. No navegador do Switch 2, a Nintendo blindou esse tipo de ataque com o ARM Pointer Authentication, recurso do processador que assina os ponteiros de memória. Na camada de compatibilidade, essa proteção não vale.

No segundo estágio, a cadeia faz uma chamada IPC ao módulo do sistema de arquivos e dispara um estouro de buffer na função Path::Normalize, durante uma operação GetEntryType. Esse módulo roda acima da sandbox dos aplicativos; ao estourar a pilha dele, o exploit ganha execução de código com privilégio de módulo de sistema. Segundo o TechTimes, é o primeiro exploit confirmado no Switch 2 a sair da sandbox.

Gezine, desenvolvedor conhecido pelo jailbreak do PS5, publicou em julho um exploit userland offline para Switch e Switch 2 que ficava preso à sandbox. Ele conversou com pepsipu e disse que o trabalho "seems legit", de acordo com o Notebookcheck.

Switch 2 desbloqueado roda jogo pirata? O que o ns2jb libera

Arte do SmileBASIC 4 ao lado do Nintendo Switch 2, app usado como porta de entrada do exploit ns2jb
Reprodução/Twisted Voxel (Imagem: reprodução)
LiberaHomebrew não assinado com privilégio de módulo de sistema; backup e restauração de saves; troca do executável (ExeFS) de jogos para inserir mods; acesso de I/O mapeado em memória para pesquisa de hardware
Não liberaBackups piratas de jogos; custom firmware permanente; acesso ao Boot ROM ou ao TrustZone
Firmware23.0.1 (pode não funcionar em versões mais novas, segundo o Notebookcheck)
RequisitosComputador com Linux ou macOS e um app vulnerável, como o SmileBASIC 4
PersistênciaNenhuma: é "tethered" e precisa ser reexecutado pelo computador a cada reinicialização

Na prática, isso deixa o ns2jb longe do usuário comum. Pirataria em escala, como a que existe há anos no Switch original, depende de dois passos ainda não dados: um exploit de kernel e as chaves de criptografia do hardware, sem as quais não há como decifrar jogos para rodar em emulador.

A falta de pirataria também tem peso jurídico. Em 2022, Gary Bowser, do Team Xecuter, foi condenado a 40 meses de prisão por distribuir custom firmware pirata do primeiro Switch.

OpenAI Codex, JetKVM e um SwitchBot: duas semanas de tentativa e erro

O método de pesquisa chamou tanta atenção quanto a falha. Hajhamid usou o OpenAI Codex e deu à IA acesso a um console de verdade. Um JetKVM, aparelho de controle remoto de código aberto, capturava o vídeo HDMI do Switch 2 e enviava comandos por USB. Um SwitchBot ficou sobre o botão de energia para religar o aparelho quando ele travava.

A IA não fez tudo sozinha. Foram cerca de duas semanas de tentativa e erro, segundo o site japonês Gigazine. O Codex atacou primeiro o WebKit, motor do navegador do console, e conseguiu controlar o programa por uma falha conhecida, sem obter os privilégios necessários. Só então achou o problema de cálculo numérico no SmileBASIC. O teste final, em 21 de outubro, funcionou na terceira tentativa após uma reinicialização.

Nintendo tira o SmileBASIC da eShop, mas há outras portas

A Nintendo agiu sem comunicado: a página do SmileBASIC 4 na eShop agora retorna erro 404, e a empresa não fez declaração oficial até a publicação desta reportagem. Gezine afirmou que a Nintendo entrou em contato com ele; o conteúdo da mensagem não foi divulgado.

Há precedente. Em julho de 2016, a Nintendo retirou da eShop as versões 3.2.1 a 3.3.1 do SmileBASIC, usadas para desbloquear o 3DS, e em setembro a atualização 11.1.0-X bloqueou a versão antiga.

Desta vez, tirar o app pode não bastar. Gezine escreveu no X que o SmileBASIC 4 "não é estritamente necessário": o jogo Artemis Engine serviria de porta de entrada, e um jogo em cartucho físico, que ele não identificou, permitiria disparar o exploit sem atualizar o firmware. O próprio Gezine desaconselhou comprar o Artemis Engine para isso, porque exploits baseados em save perdem utilidade se a Nintendo bloquear os serviços online. O perfil Alula mostrou um ataque parecido com a demo de Nora to Oujo to Noraneko Heart 2, com o comentário "I guess it's the right time to burn this".

Primeiros dumps, risco de banimento e o Switch 2 "desbloqueado" à venda

Mario Kart World modificado em tela dividida, com personagens não oficiais como Cinnamoroll, Hatsune Miku e Peter Griffin
Reprodução/Gigazine (Imagem: reprodução)

Os primeiros resultados práticos vieram em dois dias. Segundo o Notebookcheck, citando o OneJailbreak e o perfil Centro Leaks, já foram extraídos os arquivos de Deltarune, capítulos 1 a 4, e da beta de The Duskbloods, da FromSoftware. Mario Kart World segue sendo dissecado, e um modelo 3D novo da Peach já apareceu.

Para o dono de Switch 2, o risco é contratual. Em maio de 2025, a Nintendo mudou o contrato da Conta Nintendo para poder "tornar os Serviços da Conta Nintendo e/ou o dispositivo Nintendo aplicáveis permanentemente inutilizáveis, no todo ou em parte" em caso de modificação. Nenhuma fonte confirma banimento de quem usou o ns2jb, mas a regra existe, e a empresa já bane do online, de forma permanente, consoles flagrados com cartuchos MIG.

O console chegou às lojas em 2025, por US$ 450 nos Estados Unidos, e vendeu cerca de 19,86 milhões de unidades até maio de 2026, segundo número citado pelo TechTimes. No Brasil, o preço varia conforme o varejo e a importação. Quem anunciar um Switch 2 "desbloqueado" para jogos piratas está vendendo algo que este exploit não entrega: ele não decifra jogos, exige um computador ligado e desaparece no primeiro desligamento.

O próximo movimento é da Nintendo, que não disse se nem quando vai corrigir a falha no sistema de arquivos. Até lá, a orientação prática é não instalar nada, não seguir tutoriais e desconfiar de quem vende Switch 2 "desbloqueado".