O Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu iniciaram a fase de avaliação da viabilidade de interligar o Pix ao TIPS, criando um corredor de pagamentos instantâneos entre Brasil e área do euro.

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Neste artigo
  1. O que BC e BCE estão colocando na mesa
  2. O que são Pix e TIPS nesse jogo
  3. Impacto para pagamentos Brasil–Europa
  4. Pix entra no radar global de interligações
  5. Quando isso chega ao usuário?

Na prática, os dois bancos centrais querem determinar se é possível conectar, com segurança e custo considerado aceitável, a infraestrutura do Pix ao Target Instant Payment Settlement (TIPS), sistema de liquidação instantânea do Eurosistema, e usar essas redes como trilho direto para pagamentos transfronteiriços.

O que BC e BCE estão colocando na mesa

Segundo comunicado do Banco Central brasileiro, a avaliação cobre aspectos técnicos, operacionais, jurídicos e de negócio da conexão entre as duas infraestruturas públicas de pagamentos. O Conselho do BCE já aprovou o início desse estudo, que será conduzido em colaboração estreita com o BC.

O objetivo declarado pelas duas autoridades é direto: usar Pix e TIPS para viabilizar pagamentos transfronteiriços mais rápidos, com menor custo e liquidação em moeda local. Hoje, remessas entre Brasil e Europa ainda dependem majoritariamente de arranjos de correspondentes e redes legadas, com taxas altas e liquidação lenta.

Painel digital com logotipo do Banco Central e ícones representando pagamentos instantâneos
BC e BCE vão avaliar aspectos técnicos, jurídicos e de negócio da interligação entre Pix e TIPS (Imagem: reprodução/gazetadopovo.com.br)

Em escala mais ampla, o BC encaixa a iniciativa na agenda evolutiva do Pix e nos esforços para interligar o sistema brasileiro a infraestruturas similares, multilaterais ou de outras jurisdições, em linha com o plano do G20 para melhorar pagamentos transfronteiriços.

O que são Pix e TIPS nesse jogo

O TIPS é a infraestrutura pan-europeia de liquidação instantânea em moeda de banco central, gerida pelo BCE, em operação desde 2018. Hoje liquida pagamentos em euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa, com expansão prevista para outras moedas do Espaço Econômico Europeu.

Diferente do Pix, voltado ao usuário final, o TIPS opera em nível de atacado, servindo como camada de liquidação para bancos e provedores de serviço. Qualquer interligação precisa conciliar esse desenho com a lógica mais varejista do Pix, que hoje processa algo em torno de 250 milhões de pagamentos instantâneos por dia, com liquidação direta em dinheiro de banco central.

No Brasil, o Pix já se tornou onipresente: mais de 170 milhões de pessoas físicas — cerca de 80% da população — usam o sistema, que movimentou R$ 35,4 trilhões em 2025, segundo o Banco Central. Entre os sistemas de pagamentos instantâneos, o Pix só fica atrás do UPI, da Índia, em volume de transações.

Impacto para pagamentos Brasil–Europa

BC e BCE afirmam que os fluxos econômicos e financeiros entre Brasil e área do euro são significativos. A conexão entre Pix e TIPS mira esse corredor, com efeitos bem concretos na mesa: remessas internacionais e compras com liquidação em poucos segundos, já em real ou em moeda europeia, sem a coreografia tradicional de bancos intermediários.

No modelo estudado, um envio iniciado em Pix poderia ser liquidado via TIPS na outra ponta (e o inverso também valeria), com pagador e recebedor operando em seus sistemas domésticos. As autoridades tratam a combinação de sistemas instantâneos interligados como forma de reduzir custo, aumentar velocidade, ampliar acesso e melhorar a transparência de pagamentos transfronteiriços.

Hoje, brasileiros já conseguem pagar com Pix em alguns países europeus, como Portugal e França, mas isso depende de intermediários privados que fazem a ponte entre o Pix e arranjos locais. O que está na mesa agora é outra arquitetura: uma ligação direta entre a infraestrutura do BC e a do BCE, fora da lógica de correspondentes tradicionais.

Pix entra no radar global de interligações

Do lado europeu, o projeto entra em um portfólio de conexões planejadas para o TIPS. O Eurosistema já trabalha em interligações com o Unified Payments Interface (UPI) da Índia, com o sistema suíço e com o Nexus, iniciativa do Banco de Compensações Internacionais para criar uma malha multilateral de pagamentos instantâneos.

No Brasil, a interligação com o TIPS corre em paralelo a estudos de interoperabilidade com o próprio Nexus e com bancos centrais vizinhos na América Latina, para remessas baratas na região sem conversão obrigatória para dólar. A mensagem do BC é que o Pix virou plataforma de exportação: a prioridade agora é conectar, não só crescer dentro de casa.

Fora dos comunicados oficiais, análises internacionais descrevem esse tipo de link como um passo para reduzir o peso do modelo clássico de banking correspondente em pequenas remessas, ao desviar o fluxo para trilhos instantâneos já operados por bancos centrais.

Quando isso chega ao usuário?

Nessa etapa, o anúncio vem sem prazo: não há cronograma público para implantação, nem datas de piloto, nem detalhamento de como a experiência ficaria na ponta para pessoa física ou empresa. O Pix permanece restrito a operações domésticas, e transferir dinheiro para a Europa continua dependendo de bancos, fintechs e plataformas de remessa que já existem hoje — com seus próprios prazos e tarifas.

Quem precisa enviar ou receber em euro agora continua preso às soluções atuais; a interligação Pix–TIPS ainda está em estudo e depende de superar uma lista longa de questões técnicas, regulatórias e de compliance entre duas jurisdições que não compartilham nem moeda, nem bloco econômico.