O Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu iniciaram a fase de avaliação da viabilidade de interligar o Pix ao TIPS, criando um corredor de pagamentos instantâneos entre Brasil e área do euro.
Adicione ao Google NotíciasNeste artigo
Na prática, os dois bancos centrais querem determinar se é possível conectar, com segurança e custo considerado aceitável, a infraestrutura do Pix ao Target Instant Payment Settlement (TIPS), sistema de liquidação instantânea do Eurosistema, e usar essas redes como trilho direto para pagamentos transfronteiriços.
O que BC e BCE estão colocando na mesa
Segundo comunicado do Banco Central brasileiro, a avaliação cobre aspectos técnicos, operacionais, jurídicos e de negócio da conexão entre as duas infraestruturas públicas de pagamentos. O Conselho do BCE já aprovou o início desse estudo, que será conduzido em colaboração estreita com o BC.
O objetivo declarado pelas duas autoridades é direto: usar Pix e TIPS para viabilizar pagamentos transfronteiriços mais rápidos, com menor custo e liquidação em moeda local. Hoje, remessas entre Brasil e Europa ainda dependem majoritariamente de arranjos de correspondentes e redes legadas, com taxas altas e liquidação lenta.

Em escala mais ampla, o BC encaixa a iniciativa na agenda evolutiva do Pix e nos esforços para interligar o sistema brasileiro a infraestruturas similares, multilaterais ou de outras jurisdições, em linha com o plano do G20 para melhorar pagamentos transfronteiriços.
O que são Pix e TIPS nesse jogo
O TIPS é a infraestrutura pan-europeia de liquidação instantânea em moeda de banco central, gerida pelo BCE, em operação desde 2018. Hoje liquida pagamentos em euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa, com expansão prevista para outras moedas do Espaço Econômico Europeu.
Diferente do Pix, voltado ao usuário final, o TIPS opera em nível de atacado, servindo como camada de liquidação para bancos e provedores de serviço. Qualquer interligação precisa conciliar esse desenho com a lógica mais varejista do Pix, que hoje processa algo em torno de 250 milhões de pagamentos instantâneos por dia, com liquidação direta em dinheiro de banco central.
No Brasil, o Pix já se tornou onipresente: mais de 170 milhões de pessoas físicas — cerca de 80% da população — usam o sistema, que movimentou R$ 35,4 trilhões em 2025, segundo o Banco Central. Entre os sistemas de pagamentos instantâneos, o Pix só fica atrás do UPI, da Índia, em volume de transações.
Impacto para pagamentos Brasil–Europa
BC e BCE afirmam que os fluxos econômicos e financeiros entre Brasil e área do euro são significativos. A conexão entre Pix e TIPS mira esse corredor, com efeitos bem concretos na mesa: remessas internacionais e compras com liquidação em poucos segundos, já em real ou em moeda europeia, sem a coreografia tradicional de bancos intermediários.
No modelo estudado, um envio iniciado em Pix poderia ser liquidado via TIPS na outra ponta (e o inverso também valeria), com pagador e recebedor operando em seus sistemas domésticos. As autoridades tratam a combinação de sistemas instantâneos interligados como forma de reduzir custo, aumentar velocidade, ampliar acesso e melhorar a transparência de pagamentos transfronteiriços.
Hoje, brasileiros já conseguem pagar com Pix em alguns países europeus, como Portugal e França, mas isso depende de intermediários privados que fazem a ponte entre o Pix e arranjos locais. O que está na mesa agora é outra arquitetura: uma ligação direta entre a infraestrutura do BC e a do BCE, fora da lógica de correspondentes tradicionais.
Pix entra no radar global de interligações
Do lado europeu, o projeto entra em um portfólio de conexões planejadas para o TIPS. O Eurosistema já trabalha em interligações com o Unified Payments Interface (UPI) da Índia, com o sistema suíço e com o Nexus, iniciativa do Banco de Compensações Internacionais para criar uma malha multilateral de pagamentos instantâneos.
No Brasil, a interligação com o TIPS corre em paralelo a estudos de interoperabilidade com o próprio Nexus e com bancos centrais vizinhos na América Latina, para remessas baratas na região sem conversão obrigatória para dólar. A mensagem do BC é que o Pix virou plataforma de exportação: a prioridade agora é conectar, não só crescer dentro de casa.
Fora dos comunicados oficiais, análises internacionais descrevem esse tipo de link como um passo para reduzir o peso do modelo clássico de banking correspondente em pequenas remessas, ao desviar o fluxo para trilhos instantâneos já operados por bancos centrais.
Quando isso chega ao usuário?
Nessa etapa, o anúncio vem sem prazo: não há cronograma público para implantação, nem datas de piloto, nem detalhamento de como a experiência ficaria na ponta para pessoa física ou empresa. O Pix permanece restrito a operações domésticas, e transferir dinheiro para a Europa continua dependendo de bancos, fintechs e plataformas de remessa que já existem hoje — com seus próprios prazos e tarifas.
Quem precisa enviar ou receber em euro agora continua preso às soluções atuais; a interligação Pix–TIPS ainda está em estudo e depende de superar uma lista longa de questões técnicas, regulatórias e de compliance entre duas jurisdições que não compartilham nem moeda, nem bloco econômico.




