Uma nova galáxia satélite minúscula e ultrafria foi identificada orbitando a Via Láctea pelo levantamento internacional DELVE, a partir de dados obtidos no Chile.

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Neste artigo
  1. Aquarius III: uma vizinha cósmica em miniatura
  2. Como o DELVE achou a nova galáxia satélite
  3. Brasil no mapa da descoberta
  4. As outras galáxias satélites da Via Láctea
  5. Galáxia satélite hoje, simulação amanhã

O objeto, batizado de Aquarius III, entra para o grupo das pequenas galáxias anãs que orbitam nossa galáxia e adiciona mais uma peça ao quebra-cabeça de como a Via Láctea se formou e cresceu ao longo do tempo.

Aquarius III: uma vizinha cósmica em miniatura

Segundo os astrônomos envolvidos no DELVE Survey, a Aquarius III tem apenas centenas ou milhares de estrelas, uma população estelar minúscula perto das gigantes conhecidas. A própria Via Láctea abriga algo entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas, enquanto a Grande Nuvem de Magalhães soma entre 10 bilhões e 30 bilhões.

Essa discrepância explicita o que está por trás do rótulo de galáxia anã ultrafria: trata-se de um sistema estelar muito modesto em tamanho, mas que, no contexto da cosmologia, ganha importância desproporcional. Galáxias desse tipo são relictos de fases muito antigas do Universo e funcionam como fósseis orbitando a Via Láctea, guardando registros de épocas em que as primeiras estruturas começaram a se consolidar.

Como o DELVE achou a nova galáxia satélite

A descoberta veio de uma combinação de mineração de dados e espectroscopia. Na primeira etapa, a colaboração DELVE vasculhou imagens públicas feitas pelo Telescópio Victor M. Blanco, instalado no Chile. O longo tempo de exposição dessas fotos permite detectar regiões com alta densidade de luz, candidatas a aglomerados estelares distantes ou pequenas galáxias escondidas no fundo do céu.

Aquarius III apareceu como uma dessas concentrações discretas de estrelas, quase camuflada no ruído de fundo. Em seguida, a equipe partiu para observações espectroscópicas, que confirmaram que o objeto se comporta como uma galáxia satélite ultrafria e de baixa metalicidade — isto é, composta quase só por hidrogênio e hélio, com pouquíssimos elementos mais pesados detectáveis em seu espectro.

Baixa metalicidade é marca registrada de estruturas muito antigas: quanto menos elementos pesados aparecem no gás e nas estrelas, menos ciclos anteriores de formação e morte estelar ocorreram naquele ambiente, produzindo materiais novos. A Aquarius III entra, assim, no clube das galáxias anãs primitivas ligadas gravitacionalmente à Via Láctea, alvo direto de quem tenta reconstruir a história da nossa vizinhança cósmica.

Brasil no mapa da descoberta

A pesquisa tem participação direta do Brasil. O astrônomo Guilherme Limberg, graduado e doutorado pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, integra a colaboração responsável pela identificação da Aquarius III. Ele atua hoje como pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Cosmologia Física da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

O envolvimento de cientistas brasileiros não aparece só nos créditos finais: o país ganha espaço em estudos de galáxias anãs e da estrutura da Via Láctea, área em que levantamentos de grande escala como o DELVE viraram ferramenta padrão para mapear o halo da galáxia, procurar novos satélites e medir propriedades desses sistemas discretos, do brilho total às velocidades das estrelas individuais.

As outras galáxias satélites da Via Láctea

A Aquarius III entra em um sistema já movimentado. A maior galáxia satélite da Via Láctea é a Grande Nuvem de Magalhães (GNM), que, junto da Pequena Nuvem de Magalhães, forma o par binário mais próximo interagindo com nossa galáxia.

A GNM, com seus 10 a 30 bilhões de estrelas, é estudada em detalhe também por grupos brasileiros. Um trabalho de doutorado recente na UFMG analisou 86 aglomerados estelares na periferia da Grande Nuvem, determinando idade, metalicidade e distância para dezenas deles pela primeira vez, e identificando inclusive um aglomerado (SL 2) em uma lacuna de idades crítica entre 4 e 10 bilhões de anos.

Enquanto objetos como a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães podem ser vistos até com binóculos em céus escuros no Hemisfério Sul, satélites ultrafrios como a Aquarius III ficam restritos a telescópios de grande abertura e longas exposições. Mesmo com céu perfeito no quintal de casa, ninguém vai olhar para cima e “ver” a nova galáxia brilhar a olho nu: o sinal dela está enterrado em pixels que só aparecem depois de muitas horas de observação.

Galáxia satélite hoje, simulação amanhã

Descobertas como Aquarius III se conectam direto com outra frente de pesquisa: simulações da Via Láctea estrela por estrela. Um time do centro RIKEN, no Japão, desenvolveu recentemente uma simulação que acompanha 100 bilhões de estrelas ao longo de um milhão de anos em apenas duas horas e 47 minutos, usando inteligência artificial para acelerar cálculos de feedback de supernovas.

visualização de simulação detalhada da Via Láctea com bilhões de estrelas
Simulação recente mapeou 100 bilhões de estrelas na Via Láctea com ajuda de IA (Imagem: reprodução/oglobo.globo.com)

Esse tipo de modelo tenta reproduzir não só o disco da Via Láctea, mas também o enxame de galáxias satélites em sua órbita. Cada nova anã ultrafria confirmada, como a Aquarius III, entra como dado de calibração para checar se as simulações acertam o número, a massa e a distribuição desses fósseis cósmicos em torno da galáxia.

Por enquanto, a Aquarius III fica na lista de candidatos que ainda vão ser dissecados em mais detalhes por telescópios de maior porte e por futuras rodadas de simulação, enquanto a colaboração DELVE volta aos arquivos em busca de outras manchas discretas que escondam galáxias anãs do mesmo tipo.