O estudo para ligar o Pix ao TIPS, o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central Europeu (BCE), saiu da pré-investigação e entrou na fase de investigação, segundo documento apresentado na reunião do TIPS Consultative Group de 20 de outubro e divulgado nesta sexta-feira (6). Ainda não dá para pagar com Pix na Europa, e os prazos preliminares apontam para um piloto só em junho de 2028.
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É o passo mais concreto até agora para o brasileiro usar o Pix fora do país sem depender de acordos isolados entre empresas. Se o projeto chegar ao fim, quem viaja poderia pagar em euro numa loja europeia com a conta do banco brasileiro, com a conversão de câmbio feita na hora. Nada disso está garantido: a nova etapa é um estudo, e a implementação depende de aprovação posterior dos dois bancos centrais. Para remessas, o Banco Central diz que a ligação pode permitir transferências internacionais com o valor disponível em moeda local em poucos segundos.
Como está o estudo para ligar o Pix ao sistema europeu
A pré-investigação, feita até setembro, avaliou aspectos técnicos, jurídicos, operacionais e de segurança, além da viabilidade comercial da conexão. Segundo o documento da reunião de outubro, não foram encontrados impedimentos críticos. Não há prazo definido para que a investigação termine.
O que entra na mesa agora é a parte que interessa ao bolso. De acordo com a Folha de S.Paulo, que revelou as negociações em setembro a partir de um documento interno, os técnicos vão medir os benefícios econômicos, os volumes potenciais de transações, os casos de uso, a demanda esperada e o impacto sobre o mercado de pagamentos. Também serão analisados os custos de implementação, a sustentabilidade do modelo e as regras de participação, liquidação e conversão cambial do corredor Pix-TIPS.
Na mesma semana da reunião, o diretor de Regulação e Organização do Sistema Financeiro do BC, Gilneu Vivan, esteve em Frankfurt para discutir a integração com o BCE. Segundo a Agência Brasil, o BC afirma que o trabalho avalia se a conexão pode funcionar de forma segura, eficiente e compatível com as regras de cada jurisdição, alinhada ao Plano de Ação do G20 para pagamentos transfronteiriços.
Como funcionaria o Pix numa maquininha na Europa

O TIPS (TARGET Instant Payment Settlement) é o equivalente europeu do Pix: funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano, com liquidação final e irrevogável em moeda de banco central. Hoje opera com euro, coroa sueca e coroa dinamarquesa, e o BCE prevê incluir outras moedas do Espaço Econômico Europeu. A conversão entre moedas dentro do próprio TIPS existe desde outubro de 2025.
O Pix já é aceito em alguns lugares fora do Brasil, mas por acordos entre instituições financeiras. Com o TIPS, a conexão seria entre as infraestruturas dos dois bancos centrais, sem a necessidade de um acordo comercial para cada destino.
Um dos modelos discutidos foi descrito à Folha por Thiago Cavalcanti, presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central (ANBCB): o turista lê um QR Code na maquininha de uma loja ou supermercado europeu e paga em euro com o saldo da conta no Brasil. "O sistema vai fazer a conversão instantânea e fazer o pagamento. Provavelmente, você vai ter alguns custos envolvidos na transação, que têm que ficar explícitos", disse. Cavalcanti fala pela associação, não pelo BC, e o formato não está definido.
Cronograma do Pix na Europa prevê piloto em 2028
As datas vêm de documentos internos e de fontes ouvidas sob reserva, e estão sujeitas a ajustes. O BC brasileiro não confirmou publicamente nenhum prazo.
| Quando | O que aconteceu ou está previsto |
|---|---|
| 2 e 3 de setembro de 2026 | Folha e Reuters revelam o estudo; o BCE confirma, o BC não comenta |
| Setembro de 2026 | Fase de pré-investigação (técnica, jurídica, operacional e de segurança) |
| 24 de setembro de 2026 | BCE anuncia oficialmente a avaliação de viabilidade da ligação com o Pix |
| 20 de outubro de 2026 | Reunião do TIPS Consultative Group registra a passagem para a fase de investigação |
| Outubro de 2026 a março de 2027 | Investigação: aprofundamento da viabilidade e definição dos marcos do projeto |
| Abril de 2027 a junho de 2028 | Implementação, se aprovada pelos dois bancos centrais |
| Novembro de 2027 | Corredor tecnicamente operacional (previsão preliminar) |
| Junho de 2028 | Piloto operacional (previsão preliminar) |
Há uma divergência entre as fontes. Segundo a Broadcast, agência do Estadão, pessoas próximas às negociações esperam o projeto-piloto completo preparado até o fim de 2027. A Reuters, também com fontes anônimas, falou em piloto possível em 2028, mesma data do cronograma obtido pela Folha. A explicação mais provável está no calendário: novembro de 2027 é quando o corredor ficaria tecnicamente pronto; junho de 2028, quando o piloto entraria em operação. Na prática, uso real só em 2028, e mesmo assim em teste.
Por que a Europa e por que o tema ficou sensível
O Pix não é o único corredor em estudo. O BCE trabalha para conectar o TIPS a sistemas da Índia e da Suíça e à rede Nexus, projeto do Banco de Compensações Internacionais (BIS) para ligar pagamentos instantâneos de vários países. A Reuters descreveu a ligação com a Europa como a primeira expansão transfronteiriça do Pix.
"O documento citado está realmente correto e, no momento, há uma investigação preliminar em andamento que explora uma possível interligação entre TIPS e Pix", afirmou o BCE à Folha em setembro, quando a negociação veio a público. O BC brasileiro não respondeu ao jornal.
O silêncio tem contexto. O Pix virou alvo do governo Donald Trump e entrou numa disputa internacional sobre quem controla os trilhos do dinheiro, como relatou a Folha. Uma conexão com a infraestrutura do BCE amplia o alcance do Pix justamente quando ele está sob pressão de Washington. O BC brasileiro não comentou o prazo nem os detalhes publicamente.
Há ainda risco de execução. Segundo a Folha, o BC reconhece riscos de coordenação e de execução, e Cavalcanti diz que o projeto exige continuidade de pessoal, tecnologia, governança e orçamento, num momento de crise orçamentária do Pix dentro da autarquia.
Quando dá para usar o Pix na Europa e quanto vai custar

Hoje, não dá. O Pix funciona fora do país só onde há acordos entre instituições financeiras: Argentina, Estados Unidos (Miami e Orlando) e Portugal. No resto da Europa, nada muda em 2026 e, pelo cronograma, dificilmente em 2027.
Custo também não existe ainda. Nenhuma tarifa, taxa de câmbio, spread, limite de valor ou cobrança de IOF foi definida. Também não se sabe quais países, bancos ou apps participariam. Quem viaja nos próximos meses segue com as opções atuais:
- cartão de crédito ou débito internacional, conferindo o IOF e a cotação aplicada pelo banco;
- conta global em euro, que permite comparar o câmbio antes de converter;
- Pix no exterior apenas nos estabelecimentos e destinos cobertos pelos acordos já existentes.
A próxima data concreta é março de 2027, fim previsto da fase de investigação. É ali que BC e BCE precisam dizer se o corredor segue para a implementação e com que modelo de câmbio e tarifa.




