O telescópio espacial Swift, da NASA, já caiu — e não foi no Brasil. A Força Espacial dos EUA confirmou que o observatório reentrou na atmosfera nesta quarta-feira (4), às 7h39 no horário da costa leste americana, 9h39 em Brasília, sobre a região de Sumatra do Norte, na Indonésia, a cerca de 3,4° de latitude norte e 98,6° de longitude leste.
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A confirmação, publicada pela NASA, encerra uma semana em que a imprensa brasileira repetiu que o país estava "na rota" do satélite, que pesava cerca de 1,5 tonelada, segundo a Gazeta do Povo. A agência diz que esperava ver a maior parte da espaçonave queimar na descida, mas admite que "alguns componentes podem ter sobrevivido à reentrada". Não informou se algum fragmento chegou à superfície, nem onde.
Onde e que horas o telescópio Swift caiu
O Neil Gehrels Swift Observatory, nome oficial do telescópio, voltou à atmosfera "quase 22 anos após o lançamento", ocorrido em 20 de novembro de 2004. Ele foi projetado para uma missão principal de dois anos. Durou onze vezes isso.
O horário divulgado pela NASA está em EST, o fuso da costa leste dos EUA, que desde 1º de novembro voltou a ficar cinco horas atrás do horário universal. Pela conversão do tekimobile, 7h39 EST equivalem a 12h39 UTC, ou 9h39 no horário de Brasília.
A coordenada informada pela Força Espacial (3,4° N, 98,6° L) fica no norte da ilha de Sumatra. Ela marca o ponto da reentrada; a NASA não divulgou nenhuma área de queda de destroços.
Por que o Brasil aparecia na rota de queda do Swift

O alarme tinha base técnica, mas foi lido de forma exagerada. A órbita do Swift tinha inclinação de cerca de 20,6 graus em relação ao Equador, o que significa que ele passava sobre todos os pontos entre 20,6° de latitude norte e 20,6° de latitude sul. Essa faixa inclui as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e boa parte do Sudeste do Brasil — e também a maior parte dos oceanos tropicais, a África central, a Índia, o Sudeste Asiático e o norte da Austrália.
Segundo a Gazeta do Povo, a Aerospace Corporation estimava a reentrada para as 7h19 de Brasília desta quarta, com margem de duas horas para mais ou para menos, ou seja, entre 5h19 e 9h19. O instante confirmado, 9h39, ficou cerca de 20 minutos depois do fim dessa janela, pelas contas do tekimobile. O jornal também atribuiu à NASA uma chance de 1 em 2.100 de algum fragmento ferir alguém em qualquer lugar do planeta. Relatos de 31 de outubro citados pelo site NeoTeo falavam em queda por volta de 6 de novembro, a partir de dados da Força Espacial. Previsões feitas com dias de antecedência costumam errar por esse tamanho: o ponto exato depende da densidade do ar nas últimas voltas, e cada volta leva cerca de hora e meia.
O professor Marcos Calil, do Urânia Planetário, resumiu a questão ao jornal A Tarde em 29 de outubro: "É importante separar possibilidade de previsão. O Brasil não pode ser descartado simplesmente por estar parcialmente dentro da faixa orbital do Swift, mas hoje não existe qualquer dado que permita afirmar que os destroços cairão no país."
Por que o telescópio Swift caiu: arrasto e Sol agitado
O Swift não conseguia mais compensar a perda de altitude. Mesmo a centenas de quilômetros de altura há um resto de atmosfera, e esse ar rarefeito freia o satélite aos poucos. Em 2026 o freio ficou mais forte: o Sol está no pico do ciclo de atividade de 11 anos, e a radiação extra aquece e "incha" a alta atmosfera, que passa a oferecer mais resistência. A NASA diz que o Swift passou a afundar rapidamente.
Lançado a cerca de 600 km de altitude, segundo a revista Popular Science, o telescópio chegou em 20 de outubro a 275 km. Ali já não conseguia compensar o arrasto e entrou em modo de segurança. A equipe de operações, sediada na Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State), enviou então o comando que encerrou a missão, anunciado pela NASA em 23 de outubro. Antes disso, depois que o resgate foi cancelado, o Swift havia retomado as observações científicas em 28 de agosto, e a NASA reconhece que essa operação aumentou o arrasto e acelerou a queda.
Por que o resgate da Katalyst falhou
Houve uma tentativa inédita de salvar o telescópio. Em setembro de 2025, a NASA contratou a startup Katalyst Space para uma missão robótica, montada em menos de um ano, que deveria acoplar no Swift e empurrá-lo para uma órbita mais alta. A nave, chamada LINK, foi lançada em 3 de julho de 2026 por um foguete Pegasus XL, da Northrop Grumman, a partir do atol de Kwajalein, no Pacífico.
Deu errado logo no início. Pelo relato da própria Katalyst, uma falha no sistema elétrico durante o comissionamento deixou indisponíveis duas das três rodas de reação, peças que controlam a orientação da nave. A LINK entrou em giro em vários eixos, e os propulsores usados para estabilizá-la gastaram combustível rápido demais para uma captura segura. Em 19 de agosto, a NASA anunciou que a nave não capturaria nem elevaria o Swift.
"Este não é o resultado pelo qual estávamos trabalhando, mas isso não muda o motivo pelo qual valia a pena tentar esta missão", disse o administrador da NASA, Jared Isaacman, no comunicado oficial. Shawn Domagal-Goldman, diretor da Divisão de Astrofísica, completou: "Todos esperávamos mais ciência do Swift. Mas sabíamos que os aprendizados desta missão valeriam a pena de qualquer forma."

A LINK ainda testou seus três braços robóticos e chegou a algo entre 12 e 15 km do Swift, distância em que suas câmeras não conseguiram resolver a imagem do observatório. Operou por 85 dias e reentrou na atmosfera em 25 de setembro. Aquela foi a queda da nave de resgate, não a do telescópio — confusão comum nas últimas semanas.
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 20/11/2004 | Lançamento do Swift, para missão principal de dois anos |
| Setembro de 2025 | NASA contrata a Katalyst Space para a missão de resgate |
| 3/7/2026 | Nave LINK sobe num foguete Pegasus XL, a partir de Kwajalein |
| 19/8/2026 | NASA anuncia que a LINK não vai capturar nem elevar o Swift |
| 28/8/2026 | Swift retoma as observações científicas |
| 25/9/2026 | LINK reentra na atmosfera, após 85 dias em órbita |
| 20/10/2026 | Swift chega a 275 km e entra em modo de segurança |
| 23/10/2026 | NASA anuncia o fim da missão |
| 4/11/2026 | Reentrada às 9h39 de Brasília, sobre Sumatra do Norte |
O que o telescópio Swift descobriu em quase 22 anos
Quando subiu, o Swift era o primeiro observatório de seu tipo a combinar três telescópios — de raios gama, de raios X e de ultravioleta e luz visível — para caçar explosões de raios gama, os eventos mais violentos do universo. Sua marca era a velocidade: detectava um surto, girava para apontar os outros instrumentos em segundos e disparava alertas para observatórios no mundo todo.
Na conta divulgada em reportagens de 31 de outubro, foram mais de 2.000 explosões de raios gama e cerca de 1.400 estrelas explodindo registradas. Em 2022, o Swift ajudou a observar o GRB 221009A, apelidado de "BOAT" (sigla em inglês para "o mais brilhante de todos os tempos"). A NASA lista ainda galáxias ativas alimentadas por buracos negros supermassivos, estrelas com erupções de raios X, cometas e asteroides do Sistema Solar.
A agência não informou se fará buscas por fragmentos nem se algum foi achado. O próximo capítulo já está na fila: o Hubble também tem a órbita em declínio, e a NASA já divulgou que explora a possibilidade de contratar serviço comercial de manutenção para ele — o tipo de missão que a Katalyst não conseguiu cumprir com o Swift.




