Páginas falsas no GitHub que se passam pelo ChatGPT e pelo Claude para PC estão distribuindo um minerador de criptomoeda para Windows escondido ao lado do instalador oficial, com assinatura digital válida da OpenAI e da Anthropic. A campanha, batizada de Yoba, foi revelada pela Check Point Research em 27 de outubro, depois de cerca de dois meses de rastreio.

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Neste artigo
  1. Repositórios falsos no GitHub chegam ao topo do Google
  2. Por que o instalador assinado pela OpenAI e pela Anthropic não protege
  3. Minerador de criptomoeda se esconde quando o usuário mexe no PC
  4. PCs no Brasil são alvo: português não está na lista de exclusão
  5. Onde baixar ChatGPT e Claude para PC e o que ainda não se sabe

O golpe mira quem procura no Google por uma versão para PC dos assistentes de IA e encontra, entre os primeiros resultados, projetos com nomes que soam como lançamentos recentes: "GPT-5.6 Sol", "GPT-6 Astra" e "Claude Opus". Nenhum deles é um aplicativo de desktop oficial. Quem executa o instalador e aceita dar permissão de administrador entrega o processador do computador para minerar Monero e deixa instalada uma porta de entrada capaz de receber qualquer outro malware. Não há número de vítimas divulgado.

"Nos últimos dois meses, acompanhamos uma campanha que abusa da popularidade de ferramentas de IA como ChatGPT e Claude para espalhar uma cadeia de malware própria que chamamos de Yoba", escreveu a equipe no relatório técnico da Check Point.

Repositórios falsos no GitHub chegam ao topo do Google

Cada isca tem três peças: um repositório no GitHub, uma página no domínio github.io que descreve os supostos recursos do programa e uma release com o arquivo ZIP. Os botões de download da página apontam direto para esse ZIP, hospedado no próprio GitHub, o que dá ao conjunto aparência confiável.

Repositório falso no GitHub do suposto GPT-5.6 Sol, com 2 estrelas, nenhuma release publicada e README que se apresenta como modelo da OpenAI
Reprodução/Check Point Research (Imagem: reprodução)

Os golpistas não inflaram estrelas nem forks. Mesmo assim, as páginas apareceram entre os primeiros resultados do Google, o que a Check Point atribui provavelmente a envenenamento de SEO: títulos, descrições e o próprio domínio github.io foram otimizados para buscas externas. Os repositórios usam e-mails e fusos horários diferentes, provável tentativa de esconder a origem; a Check Point fala em "indícios" de origem russa, sem cravar a autoria.

Data (2026)O que aconteceu, segundo a Check Point
Início de junhoVariante anterior circula disfarçada de Cursor, o editor de código com IA
16 de julhoCriado o primeiro repositório da campanha
30 de agostoPublicado o sol-setup.zip, que imita o ChatGPT
31 de agostoPublicado o Setup-Claude.zip
4 de setembroPublicado o GPT-6-Astra-Setup.zip
27 de outubroCheck Point divulga o relatório

Por que o instalador assinado pela OpenAI e pela Anthropic não protege

O ZIP traz o Setup.exe verdadeiro, assinado pela OpenAI ou pela Anthropic, cercado de arquivos que fazem o pacote parecer um aplicativo Electron comum. Junto deles vai uma winmm.dll maliciosa, compilada em 30 de agosto, o mesmo dia em que entrou no primeiro ZIP. Ao rodar, o instalador legítimo carrega a DLL que está na mesma pasta, técnica antiga conhecida como DLL sideloading.

"A assinatura cobre o instalador, não o arquivo ao lado", resumiu Steffen Zahn, da Notebookcheck. Na prática, quem confere as propriedades do executável e vê "OpenAI" como editora é enganado.

A DLL falsa, que a Check Point chama de YobaDropper, exporta 180 funções vazias para imitar a biblioteca real do Windows. Ela só age se o processo se chamar Setup.exe. Em qualquer outro contexto, como um ambiente de análise automática, entra num laço de 200 mil pausas de 5,5 segundos, cerca de 12,7 dias parada. Os ZIPs nem tinham senha, recurso que golpistas costumam usar para driblar antivírus, porque a taxa de detecção já era baixa.

O passo decisivo vem em seguida. Sem privilégio de administrador, o malware mostra a mensagem "Please run this program as Administrator." e encerra. Com a permissão, cria a pasta C:\ProgramData\WMProcess, copia para lá o WMPDMC.exe legítimo do Windows, solta uma segunda DLL (wmpdui.dll) e registra uma tarefa agendada com autor "Microsoft Corporation" e a descrição "Collects device metadata for Windows Media Player.", que roda como sistema três minutos depois de cada inicialização.

Minerador de criptomoeda se esconde quando o usuário mexe no PC

A segunda etapa, o YobaLoader, não tem servidor de comando próprio. Ele baixa a foto de perfil de um canal do Telegram, usa os últimos 50 bytes da imagem para gerar um endereço no serviço dedyn.io, consulta esse endereço pelo DNS sobre HTTPS do Google e só então baixa a carga final de um link no catbox.moe. Para trocar de servidor, basta o operador mudar a foto do canal.

A carga observada foi o XMRig 6.26.0, minerador de Monero, injetado no processo svchost.exe e conectado a um pool na rede Tor. Ele usa cerca de 85% das threads do processador, pausa quando detecta o usuário ativo e volta depois de 240 segundos de ociosidade. Por isso um computador que parece normal durante o uso pode estar minerando sempre que fica parado, com a ventoinha acelerada.

O risco vai além do minerador. "Embora tenhamos observado um minerador XMRig como carga final nesta campanha, o YobaLoader é um carregador genérico", alerta a Check Point. O mesmo canal pode entregar qualquer executável ou script PowerShell, e ondas futuras podem trazer outras famílias de malware. Há pelo menos um caso de campo: a empresa Simvay documentou um falso "GPT-6 Astra" instalado em 8 de outubro e ativado no reinício seguinte, e o responsável interrompeu a atividade sem encontrar, segundo a Gridinsoft, evidência de dados saindo daquele computador.

PCs no Brasil são alvo: português não está na lista de exclusão

Antes de infectar, o YobaDropper verifica o idioma do teclado e poupa quem usa russo, bielorrusso, tadjique, armênio, azeri, georgiano, cazaque, quirguiz, turcomeno, uzbeque ou tártaro. O português não está na lista, então um computador configurado no Brasil é alvo possível. O que decide quem cai é a busca: as páginas aparecem para quem procura o nome do aplicativo, em qualquer país.

Buscas no Google por GPT 6 Astra: a página falsa no github.io aparece logo abaixo do site da OpenAI e, em outra busca, sozinha no resultado
Reprodução/Check Point Research (Imagem: reprodução)

Os sinais deixados no Windows estão descritos no relatório. O principal é a pasta C:\ProgramData\WMProcess contendo WMPDMC.exe e wmpdui.dll. No Agendador de Tarefas, a pista é uma tarefa atribuída à "Microsoft Corporation" que fala em metadados do Windows Media Player e dispara três minutos após o boot. Uso alto de CPU pelo svchost.exe com o PC ocioso reforça a suspeita.

Onde baixar ChatGPT e Claude para PC e o que ainda não se sabe

Os aplicativos oficiais são gratuitos para baixar e vêm só dos desenvolvedores. O Claude para Windows fica na página de download da Anthropic; o ChatGPT para Windows, segundo a Notebookcheck, sai do site da OpenAI e da Microsoft Store. "Um repositório no GitHub com o nome de um modelo no título não é fonte oficial, não importa quão alto ele apareça na busca", escreveu Zahn.

Quem baixou o ZIP e não abriu deve apenas apagá-lo: o download sozinho não aciona a cadeia. Quem executou o instalador deve desconectar o PC da rede, procurar a pasta WMProcess e rodar uma varredura completa com antimalware.

Várias perguntas seguem sem resposta. As fontes não informam se o GitHub já removeu os repositórios, se as páginas continuam no topo do Google nem se o Windows Defender detecta hoje os arquivos. As reportagens publicadas até esta quinta-feira (29) não trazem posicionamento de OpenAI, Anthropic, GitHub ou Microsoft. A Yoba também não está sozinha: só nesta semana, a Notebookcheck relatou páginas falsas de download do Claude que roubam senhas e criptomoedas.