A Amazon já espalhou mais de 1 milhão de robôs pelos seus centros de distribuição no mundo e agora encara de frente a pergunta incômoda: quem perde a vaga quando a máquina entra no jogo?

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Neste artigo
  1. Meta: 75% de automação e 600 mil vagas que deixam de existir
  2. Proteus, Vulcan, STARK e agora humanoides como Digit
  3. Empresa fala em upskilling, vazamento fala em achatamento da curva de contratações
  4. Trabalhador de chão precisa virar técnico — rápido

Dados da própria empresa e documentos internos vazados descrevem um plano de automação agressivo, com meta de robotizar até 75% das operações até 2033 e evitar a contratação de algo em torno de 600 mil trabalhadores nos Estados Unidos nesse período.

Segundo a Amazon, desde que passou a usar robótica em larga escala, criou “centenas de milhares” de novos empregos globais e mais de 700 tipos de funções que não existiam antes, em áreas como manutenção, mecatrônica e engenharia de automação. Dentro da companhia, porém, circula outra conta: entre 2025 e 2027, a automação permitiria deixar de contratar cerca de 160 mil novos funcionários só nos EUA, com economia estimada em US$ 12,6 bilhões e redução de US$ 0,30 no custo por item enviado.

Meta: 75% de automação e 600 mil vagas que deixam de existir

Documentos estratégicos de robótica da Amazon cravam como objetivo automatizar 75% da operação até 2033, cobrindo etapas de recebimento, separação, embalagem, paletização e expedição quase sem toque humano. O mesmo material projeta evitar a necessidade de contratar mais de 600 mil pessoas nos EUA ao longo da década, mantendo o volume de vendas em crescimento.

Um piloto em Shreveport, na Louisiana, mostra o que isso representa no chão de fábrica: em um dos centros mais avançados, depois que o pacote é fechado, ele quase não passa mais por mãos humanas. Cerca de mil robôs conduzem o restante do fluxo, o que permite tocar o galpão com um terço a menos de funcionários hoje e, com mais automação, chegar a metade do quadro que seria exigido sem máquinas.

Planos internos também falam em levar esse nível de automação para cerca de 40 instalações até o fim de 2027 e fazer retrofit em depósitos antigos, como o de Stone Mountain, perto de Atlanta, que deve demandar até 1.200 funcionários a menos depois da transformação. Em resposta pública, a Amazon afirma que esses documentos traduzem a visão de “apenas uma equipe” e não a estratégia geral de contratação, e insiste que alguns sites terão mais humanos após a modernização.

Proteus, Vulcan, STARK e agora humanoides como Digit

O salto nos números se apoia em uma família inteira de robôs com funções específicas. A frota de Proteus, primeiro robô móvel autônomo da casa, já atua em 25 centros de atendimento nos EUA transportando carrinhos de até 400 kg em áreas de doca.

Robô Proteus da Amazon em operação dentro de um armazém
O Proteus é um dos principais robôs móveis usados pela Amazon para movimentar cargas (Imagem: reprodução/aboutamazon.com)

Na sequência, a Amazon apresentou uma versão de próxima geração do Proteus, capaz de receber instruções em linguagem natural. O funcionário descreve em texto comum o que precisa ser feito, e o robô decide prioridade, rota e tempo, sem interface de programação nem sintaxe técnica. Esse modelo segue em testes de laboratório, com implantação na Europa prevista para o primeiro semestre de 2027, amparada por um investimento de mais de € 10 bilhões na modernização de centros europeus.

Outros dois sistemas entram nesse pacote: Vulcan, primeiro robô da Amazon com “senso de toque” para pegar itens em ambientes apertados, já em uso de forma mais avançada em Hamburgo, na Alemanha; e STARK, robô colaborativo de manuseio de totes, nascido de uma sugestão de funcionário de operações em Barcelona e com expansão planejada para 15 sites europeus até 2027.

Funcionários da Amazon observando um robô Proteus em um centro de distribuição
Amazon insiste que robôs trabalham em conjunto com humanos, não em substituição total (Imagem: reprodução/aboutamazon.com)

Na frente dos robôs de rodas, a empresa testa o humanoide Digit em armazéns nos EUA. Desenvolvido pela Agility Robotics, o robô bípedo anda, pega caixas e lida com degraus e espaços onde os móveis autônomos tradicionais não chegam. A Amazon fala em “liberar” funcionários para outras tarefas, enquanto um sindicato britânico descreve o movimento como uma “corrida de cabeça erguida rumo à perda de empregos”.

Empresa fala em upskilling, vazamento fala em achatamento da curva de contratações

No discurso público, a mensagem é otimista. A Amazon repete que robôs “trabalham em sinfonia” com humanos, que a robótica criou “centenas de milhares de empregos” e mais de 700 categorias novas, e que pessoas continuam “insubstituíveis” em tarefas de diagnóstico e tomada de decisão.

Para sustentar essa narrativa, a companhia anunciou um compromisso global de US$ 1 bilhão com o programa Career Choice até 2030, dentro de uma iniciativa de US$ 2,5 bilhões em qualificação chamada Future Ready 2030. Mais de 300 mil funcionários já passaram pelo programa, incluindo 30 mil no Reino Unido, em trilhas de cibersegurança, desenvolvimento de software, logística, energia renovável e mecatrônica.

Executivos de robótica defendem que a automação vem puxando a demanda por gente dentro dos centros de distribuição, com dificuldade inclusive para achar técnicos qualificados. A empresa criou mais de 6 mil vagas de aprendizado no Reino Unido e oferece até £ 3.000 por ano para funcionários estudarem em cursos reconhecidos.

O vazamento dos planos até 2033, porém, aponta em outra direção. A própria equipe de robótica registra que, com o “grande marco” da automação em vista, está confiante em “achatar a curva de contratações da Amazon nos próximos 10 anos”. A leitura externa é direta: o impacto principal não viria de um corte em massa abrupto, mas de vagas futuras que simplesmente deixam de ser abertas.

Trabalhador de chão precisa virar técnico — rápido

No dia a dia do armazém, parte dessa virada já aparece. Em Stone Mountain, na Geórgia, trabalhadores relatam que áreas como RH vêm sendo trocadas por sistemas automatizados de atendimento via texto e que a empresa pressiona para que pickers e stowers aprendam manutenção de robôs e funções de TI, na expectativa de que as posições atuais sejam automatizadas.

Relatórios oficiais da Amazon apontam que a empresa apoia hoje mais de 1,5 milhão de postos de trabalho na Europa, incluindo 230 mil funcionários diretos e mais de 400 mil na força de trabalho “estendida”, entre terceirizados e temporários. A companhia diz também que segue “contratando ativamente” em operações e usará ganhos de eficiência em uma parte do negócio para criar novos tipos de vagas em outra.

O alvo da automação já está desenhado: o grosso dos cargos repetitivos, pesados e de baixa qualificação dentro do galpão entra na mira explícita de robôs como Proteus, Vulcan, STARK e dos humanoides que saem da linha de teste até 2030. Quem quiser continuar na folha da Amazon — ou de qualquer rival que copiar o modelo — vai ter de migrar rápido para as funções que cuidam, consertam e comandam esses 1 milhão de colegas de metal.